domingo, 12 de outubro de 2008

JOSÉ MIGUEL JÚDICE


Conheço-o há muito tempo. Quando, cerca de um ano depois do 25 de Abril, regressou a Portugal, ainda bastante jovem mas já em vias de receber o papel passado pela Ordem dos Advogados, tendo vivido uma temporada em Espanha envolvido com os movimentos políticos que se sabia existirem no País vizinho, a convite de Vera Lagoa, que me acompanhava no semanário por mim fundado, “o País”, aceitou escrever uma coluna em que dava largas ao seu pensamento que, por sinal, não condizia precisamente com aquilo que eu tinha como lema no jornal que dirigia, mas como sempre respeitei a independência do jornalismo, nunca interferi nos seus escritos. Tratava-se de José Miguel Júdice que, quando Vera Lagoa fundou o seu próprio semanário a acompanhou por se sentir mais à-vontade naquele ambiente de Direita declarada. Não me foi dada qualquer explicação, mas eu sempre aceitei os comportamentos do outros, mesmo os que podem caber na área dos menos próprios.
Seguiu, pois, Júdice a sua vida e foi, como se sabe, bem sucedido, tendo até conseguido o lugar de Bastonário da Ordem dos Advogados, militou no PSD, partido de que, segundo se lê na entrevista que concedeu recentemente a um diário, se afastou, tendo mostrado inclinação pelo PS, pois foi até nomeado por Sócrates para a reabilitação da frente ribeirinha de Lisboa, cargo que não chegou a exercer o que causou alguma polémica.
Digo tudo isto, porquê, se não se trata de nenhuma novidade e quem anda atento neste País às figuras que se fazem notar não considera coisa nova o que acaba de ser escrito? Só para, eu próprio, recordar tempos passados e me ajudar a tomar a consciência de que tudo que fiz ou que autorizei que se fizesse se tratou de algum acto que ´edigno de aplauso ou, pelo contrário, é merecedor de profunda censura.
Deixemos isso aos outros para julgarem, mas eu apenas me aconchego no conteúdo da entrevista que José Miguel Júdice considerou útil tornar pública. E foco um ponto essencial.
É evidente que cada um é livre de mudar de pensamento político as vezes que lhe aprouver. Se me recordo desta figura que, quando nos falámos pela primeira vez, me disse que, para ele o CDS estava muito à Esquerda, e que foi dando os desvios que, nesta altura, roçam o socialismo, muito embora comece a levantar dúvidas quanto ao socraterismo, é só para dizer uma coisa: não tenho nada que fazer comentários. Mas é-me permitido registar a situação.
Mas há uma questão que eu, nesta altura, tenho de concordar com o José Miguel. É que, cada vez mais, Portugal vai dando mostras de que é capaz de acabar por não ser viável como País.
Toda a gente que me conhece sabe que eu, desde que me conheço e já no tempo da Ditadura afirmava que a única solução para esta ponta da Europa é constituir-se a Ibéria e surgir um agregado de duas Nações que, nessa altura sim, terá a força suficiente para bater o pé não só no espaço europeu mas também no mundo. O caso do Benelux serve de exemplo. E há forma de chegar a esse ponto sem nenhuma fracção deste espaço, sem perda de línguas, costumes, culturas, bandeiraa, hinos, governos, assembleias… já que, quanto a moeda, é sabido o que se sabe.
Portanto, no que diz respeito às ideias de José Miguel Júdice, nesse particular tudo indica que não pensamos de forma muito diferente. Se é que ele mantem este pensamento!

sábado, 11 de outubro de 2008

MARCHA DE LISBOA

OLHAR PARA A FRENTE

Lisboa do Sol brilhante
Lisboa do Tejo aos pés
Tu tens a força gigante
Tu és assim como és
Mesmo a olhar p’ro futuro
Tens sempre o passado atrás
E sou fiel, isso juro
Ao amor que tu me dás

Cantiga da rua
Tu és para nós
A força da voz
Que actua
Esperança, tão boa
Que vem já de trás
Que o povo é capaz
Oh! Lisboa
Cidade velhinha
Não julgues que a história
Parou na escadinha
Na rua estreitinha
E é só memória
Olhar para a frente
E força alfacinha
Que o coração sente
A ânsia da gente
Que canta e caminha

Mas se o passado morreu
E o orgulho permanece
U/ma nova fé nasceu
No coração que amanhece
Lá no alto, o castelo
Sempre estava e há-de estar
A olhar tudo que é belo
E a Lisboa namorar

CASAS DA CÃMARA





São muitas as anomalias que sucedem nesta nossa Terra, naquela que se classifica como nação, mas que não se sabe bem se, ao fim de tantas centenas de anos de existência, será já um país ou não chegou ainda lá e não passa de um sítio onde vive gente que não se comporta devidamente, por forma a que seja fabricado permanentemente o futuro para os vindouros, com o fim de não virem a deparar com um montão de asneiradas que são depois forçados a emendar. Perante isso, quando aponto aquilo que considero disparate, a minha preocupação é somente a de contribuir para alertar um pequeno círculo de leitores, sabendo de antemão que não posso pretender fazer mais do que isso. O que é pouco, concordo.
Pois vem neste momento a talho de foice o tema, que está agora a ser tão falado, de antigos responsáveis máximos do Município lisboeta terem feito favores, sabe-se lá porquê, ao ponto de terem dispensado, sob aluguer, casas que são pertença da Câmara, por valores verdadeiramente estapafúrdios. Um diário escreveu mesmo em título “Rendas de casa ao preço de um café”, acrescentando que um total de 4.222 andares foram entregues a favorecidos camarários, provavelmente por se tratarem de funcionários municipais ou parentes dos mesmos, mas, de qualquer forma, sob o beneplácito de quem punha e dispunha dentro da instituição que é paga por dinheiros públicos… que o mesmo é dizer, também por pagamentos dos munícipes através das múltiplas taxas aplicadas aos cidadãos que residem na capital.
Todos nós conhecemos gente que chegou ao ponto, pelo menos nalguns casos, de terem feito boas fortunas à custa de favores prestados através da influência tida junto dos serviços camarários, especialmente na área das licenças e de autorizações fraudulentas de actos que um cidadão vulgar não consegue. Antigos fiscais, transformados depois em construtores civis ou actuando junto destes, que aparentam um nível de vida que não seria nunca possível apenas com o salário que auferem na sua actividade, são a prova disso. Basta fazer um pequeno inquérito junto dos cidadãos e logo se encontram dúzias desses casos E não vale a pena surgirem os inflamados alguns ditos ofendidos, porque, como em todas as coisas, também aqui pagará o justo pelo pecador.
Eu, pelo menos, sei de algumas situações que se diriam escandalosas. E os favores não se ficam apenas na concessão de licenças. Vão ao ponto de prolongarem quase indefinidamente, até anos, a mantenção de obras paradas, cobrando evidentemente por esses favores, razão do escândalo de se assistir por tempos longuíssimos algumas ruas plenas de tapumes e, não só isso, mas também o sítio de arrumação dos carros ocupados com abusivas correntes, que os mestres-de-obras ocupam para seu uso pessoal. E os fiscais, "gente bondosa", fecham os olhos… não se sabendo o que é que abrem! É preciso pôr mais na carta para que os serviços superiores actuem, ou será que esses ignoram ingenuamente o que se passa?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Quem tem muita paciência, demonstra grande amor, dá sempre sinais de compreensão,
não exibe mas sente-se grande sabedoria, tem uma inequívoca força de vontade, é senhor de
enorme coragem, anda neste mundo sem ocupar o lugar de ninguém,
será que uma pessoa assim existe?
Se sim, não lhe levantem nenhuma estátua,
não propaguem os seus feitos, não o medalhem, nem lhe
concedam qualquer condecoração.
~
É que os seres bons não podem saber que o são,
porque se isso acontece
deixam de o ser.

A VIDA



A vida passa com baixos e altos
rindo p’ra uns, gozando com outros
sorrateira ou correndo aos saltos

Não é a mesma para toda a gente
muda de face em cada momento
torna difícil caminhar em frente

Mas como os mortais, tem seus preferidos
há os que escolhe p’ra bem servir
e os que mantém sempre desvalidos

É cínica e traiçoeira a magana
ataca muitas vezes pelas costas
à bruta ou com ares de filigrana

Mas eis que de repente se arrepende
e no meio de enorme confusão
a uma prece avulsa lá atende

E tudo muda como por feitiço
de um grande azar algo se compõe
e dá também aos males um sumiço

A vida deixa assim seu conteúdo
tem de se atravessar com paciência
já que o tempo é borracha p’ra tudo

OCUPAÇÕES



Quem viveu a Revolução lembra-se que, nessa altura de compreensível confusão, o Estado actuou, sobretudo no Alentejo, nacionalizando diversas propriedades que, sendo pertença de gente com largas áreas de terra que não cultivava dado que, na sua maioria, se tratava de proprietários que nem residiam na zona, com o objectivo de fazer distribuição desses terrenos agrícolas a trabalhadores que poderiam passar a dar produtividade. E como, de boas intenções está o Inferno cheio, a verdade é que, também em imensos casos, os novos ocupantes de tais terras não deram seguimento ao que se pretendia e, algum tempo mais tarde, chegou-se à conclusão que o propósito não tinha dado aquele resultado que se esperava, encontrando-se as parcelas divididas novamente abandonadas. Isto de ser agricultor não é para todos e não são acções revolucionárias, sobretudo quando não existem medidas devidamente estruturadas para se alcançar bons fins, que conseguem atingir os objectivos desejados, por mais bem intencionados que possam ser.
Mas já antes, em 1973 – logo, não havia a desculpa do movimento revolucionário -, o Estado expropriou cerca de 20 mil hectares de terra nas zonas de Sines e de Santiago do Cacém, com o objectivo de se construir o complexo industrial de Sines, ainda que alguns desses terrenos estejam localizados a muitos quilómetros da praia. Mas o Estado, com a sua força e a fama de ser pessoa de bem e bom pagador (!), actuou como lhe aprouve e os expropriados ficaram a ver as seus terras mudarem de mãos e, ao contrário do que estava indicado fazer, ali não se mexeu uma palha e o próprio Gabinete da Área de Sines, que foram os serviços oficiais que se encarregaram da expropriação, foram extintos há mais de 10 anos. Resultado está tudo abandonado, as casas existentes na zona encontram-se em ruínas e ninguém é capaz de fazer justiça (?) e de encarar o problema. Ninguém!
Os ministérios empurram o caso de uns para outros e já que o Governo que temos e todos os anteriores fecham os olhos e ocupam grande parte do seu tempo a discutir situações que não dão mostras de urgência, pelo menos o Presidente da República (através dos seus assessores) deveria chamar a si a situação e tentar eliminar injustiças, tudo dentro da Lei e da Ordem, está mais do que visto, mas com o propósito de ir arrumando assuntos pendentes, que é aquilo que mais existe neste País.
Um blogue não serve para nada? Talvez não. Quem o escreve sente os problemas que chama à colação e fica sempre com esperanças de que uns tantos seguidores dêem ou não razão aos pontos tocados. Pelo menos aqui chega-me a indicação de que mais de mil leitores “espreitam” estes escritos… Já fico contente.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

CRIANÇAS ABANDONADAS


Fala-se tanto de um determinado político português, refere-se bastante aquela personalidade lusitana que dá muito nas vistas pelas sentenças lançadas nos jornais ou proclamadas nas rádios e nas televisões, aponta-se com certa admiração para uma determinada figura que dá respostas aos jornalistas com o ar de ser assim e não haver mais conversas, em resumo, são às centenas os indivíduos que, por qualquer motivo mais saliente, pretende dar mostras de que a sabedoria chegou ali e parou. E que não ninguém com melhor coração.
Os génios são uma espécie que não falta por estes sítios e que a comunicação social, tão escassa de gente nova para ouvir e ver e também de quem falar, repete, insiste, cansa, reproduz incessantemente fotos, quer nova quer rebuscadas nos arquivos onde não chegam a aquecer lugar.
É isto o Portugal que temos! Repetitivo, chato, a dar-lhe sempre na mesma e a não ter imaginação para coisas novas. Os próprios jornais, fracos de títulos, parecendo hoje incapazes de resumir em poucas palavras as ideias dos textos produzidos abaixo, não inovam, repetem hoje o tema que tem vindo a ser debatido há dias.
E isto para querer dizer o quê? Pois simplesmente por que não somos capazes de inovar, de ter imaginação para lançar novas pedradas no charco, para criar movimentos, algo de novo e de diferente.
A Imprensa, tal como está a suceder agora às editoras do nosso País, têm-se agrupado sob a protecção de um confortável capital, copiando o que tem sucedido com outros meios de comunicação com peso, para que não se diga que existe diferença quanto ao mundo do futebol, em que se disputam a peso de oiro artistas da bola, ao ponto de os melhores mudarem de sítio... mas tudo continuando na mesma, pouco imaginativos, falta de novidade, de independência, de amor à camisola.
Daí que, tudo que ocorre neste Portugal dos velhos costumes, se vai mantendo tal como sempre sucedeu ao longo das épocas. Com Revoluções ou sem elas!
Somos lentos, pegajosos, desconfiados dos outros, mesmo que tenham boas ideias, e assim nos vamos mantendo por mais governos que mudem ali em S. Bento.
E querem um exemplo rápido? Pois aí vai:
Sempre foi uma operação demoradíssima, de anos atrás de anos, isso de dar acolhimento familiar a crianças que tão têm progenitores em lares onde existe amor, vontade e meios para prestar educação e encaminhar seres que são vítimas da má sorte desde que nascem. Há anos, mudaram as regras, no sentido de criar facilidades às normas de adopção. Verificou-se, apesar de tudo, alguma melhoria, a julgada conveniente pelos temerosos de darem grandes passos. Mas, a situação mantém-se um pesadelo, quer para a miudagem ansiosa de família quer para os candidatos – e são muitos – a receber no seu ambiente familiar os desejosos de amor.
A malfadada burocracia portuguesa com que se tropeça em todas as áreas de decisão da área oficial, essa gentinha que se continua a manter por aí, por detrás de secretárias que acolhem os “não prestam”, é tudo isso que, desde que este País se fundou tem vindo a gerir as nossas vidas e atrasar, cada vez mais, a ansiada evolução que nos foge a olhos vistos.
Perante tamanha mania do “empata”, já estou como aquele que, num rasgo de raiva por ver tudo sempre na mesma, não hesita em largar a sua frase preferida: “mais vale fazer mal, mas fazer, do que não ser muito perfeitinho não fazendo nada!

TERREIRO DO PAÇO



Não sei se valeu a pena, mas não posso deixar de me regozijar pelo facto de, tendo insistido neste tema durante anos, ultimamente neste blogue mas antes em vários órgãos de informação onde prestei os meus serviços, acabar agora a Câmara Municipal de Lisboa por se decidir em vender palácios de sua propriedade na capital, com a condição de neles virem a ser instalados hotéis de charme, que o mesmo é dizer estabelecimentos de turismo de luxo, visto ser esta actividade muito qualificada a que mais nos interessa, pois não somos Nação com tamanho para os outros tipos de recepção turística, como é o de massas que não comporta a quantidade de divisas que nos fazem tanta falta.
É um passo importante, tenho eu que dizer em conformidade com as teses que tenho defendido nesta área, mas não posso deixar de lastimar que ainda não tenha sido desta vez que o Terreiro do Paço se vê livre daqueles enormes espaços ocupados por ministérios públicos, visto ser aí, não tenho dúvida, o local onde deveriam existir estabelecimentos dedicados ao mesmo turismo de qualidade, assim como as arcadas já há muito que teriam que albergar bons restaurante e cafés com música clássica ao vivo, seguindo o exemplo a que se assiste na piazza de S. Marcos, em Veneza, que acolhe diariamente muitos visitantes que não se importam de pagar bem mais caro uma bebida que ali consomem.
De igual forma, vem de novo a propósito (e repito-me as vezes que forem precisas, até que as forças me faltem ou que haja alguém que resolva actuar) fazermos por cá aquilo que já existe em Madrid, do tempo ainda do Franco, que é o Bairro dos Ministérios, em que todos os estabelecimentos da administração pública se encontram reunidos num só local, com as vias de comunicação bem delineadas e os parques de estacionamento com as dimensões necessárias, o que ocasionaria uma enorme economia de edifícios, de pessoal e de tempo dos usuários que não seriam obrigados a andar de Herodes para Pilatos, cada vez que necessitam de tratar de um documento oficial.
Sobretudo agora, que se verifica a chegada da crise também à imobiliária, em que, segundo as notícias, mais de 500 empresas ligadas ao sector interromperam por cá a actividade, o mesmo acontecendo em Espanha, por exemplo, talvez seja a altura de abrir um concurso para edificação, em local que seria encontrado com cabeça e bom senso, do tal Bairro, negociando trocas de edifícios públicos pelos custos das respectivas obras. Querem uma ajuda? Será que o enorme terreno onde se encontra a Penitenciária de Lisboa e o outro ao lado, que pertence ao Ministério da Defesa, com grande valor, não chegam para compensar a construção do Bairro dos Ministérios? Julgo que um concurso internacional chamaria com facilidade empresas de outros países e, obviamente, do nosso, a participarem numa obra de tão significativa importância.
Cá estou eu a apelar para a imaginação, para o bom senso e para o desafio que temos de exigir dos nossos governantes. Não é só palavreado e promessas que devem prevalecer na acção dos que têm a responsabilidade de deixar obra para o futuro. Caso, isso não seja pedir demais aos tais senhores!...

POR AQUI VOU

Eu por aqui vou
sem saber caminho,
pergunto quem sou
olho pr’o vizinho
p’ra ter uma ideia
vou fazer o quê?
nem mesmo à boleia
daqui que se vê?
mas vou caminhando
não há mais remédio
e enquanto andando
pleno de tédio
percebo o final
o que lá no fundo
que me faz sinal
para deixar o mundo
tenho pois de ir
ficar é parar
hei-de conseguir
cá estou a tentar

Eu por mim vou
deixo-me levar
se eu nem sou quem sou
posso caminhar
para ir, para ir,
ver passar as horas
não posso fugir
nem ter mais demoras
com angústia, porém
da longa espera
em vez de eu ir, vem
já não é quimera
é sim pesadelo
grande sofrimento
pois deixou de sê-lo
que até o talento
que nunca apareceu
foi coisa de sonho
a ver não se deu
e bem me envergonho
de o ter procurado
e me ter escapado

Por isso aqui vou
estou pronto, sem sustos
ao lume me dou
ao sono dos justos

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

TER CONFIANÇA

Ter confiança
em toda a gente
com esperança
ir para a frente,
avante, avante
há que vencer
ser-se gigante
é só querer
basta lutar
e a cara dar
aguentar
sem desarmar
faz falta fé
na tal vitória
com finca-pé
lá se faz história.
Bater, bater
no mesmo ponto
até vencer
sem ficar tonto
mas confiança
perdê-la não
desde criança
com devoção
porque ganhar
é sempre o lema
e avançar
soa a poema.
Bater, bater
grito de guerra
e a combater
é nossa a Terra.

Quem lança tal
grito histérico
não tem igual
é bem esférico
mas o que tem
é vozeirão
convence bem
qualquer pavão
mesmo medroso
sob a plumagem
mas desejoso
de molduragem
mas no seu caso
por incapaz
dá sempre azo
a Frei Tomás
faz o que eu digo
não o que faço
no meu abrigo
só ameaço
não custa tanto
estimular
lançar o canto
do atacar
desde que o perigo
não bata à porta
porque comigo
a coisa é torta.

Ter confiança
em todo o mundo
só esperança
que lá no fundo
fique quieta
sossegadinha
por ser só treta
que desalinha
esta cabeça
que bem sossega
por mais que peça
pois não se entrega
a outro afazer
por mais confuso
pois tal querer
é quase abuso

Mas p’ra viver
assim de lado
até morrer
bem estafado
sem ter cumprido
um lema certo
nem ter perdido
rumo de perto
há que deixar
dogmas cair
e caminhar
já sem sentir
censuras vagas
que fazem rir
por serem gagas
e não parar
mesmo no erro
até entrar
no seu enterro.

Que a vida é isso
tempo a passar
não há feitiço
é só esperar
qu’algo aconteça
sem s’ímportar
sem ter pressa
se vê depois
que a tal vida
só ou a dois
terá saída
deixa saudades
aos que cá ficam
poucas vontades
até debicam
algo que resta
que vai ficando
já pouco presta
p’ra todo o bando

Cá fica o mundo
entregue aos bichos
já tão imundo
pleno de lixos
e tal confiança
diz o poeta
nem por herança
nem como treta
se vai manter.
Vitória fica
noutro viver
em chafarica
que então houver
s’é que haverá
onde viver
já sem maná.
Avante, pois,
mas para onde
se o depois
já não responde.
É pôr de parte
entusiasmo
pois quem reparte
o seu orgasmo
mas já não goza
sequer fecunda
tem fraca prosa
que bem se afunda
se não houver
mudança tal
que deixe ter
um mundo igual
ao que há hoje
qu’está perdido
que bate e foge
solta um gemido.

Não vale a pena
fingir que sim
que é outra cena
nada é ruim
deixa-te estar
lá no teu canto
porque o gritar
não te faz santo.
Todo alarido
que aqui se faz
não tem sentido
não é capaz
de dar a volta
de despertar
quem anda à solta
sem acordar
para a verdade
p’ra não andar
pela cidade
sem rumo certo
sem qualquer norte
longe ou perto
da sua sorte.
Porque afinal
ter confiança
no bem, no mal
com esperança
sonho perdido
desperdiçado
não conseguido
o desejado.

Avante, pois
p’ra quê, senhores
se então depois
perdem-se amores.
Fica quieto
no teu cantinho
no teu espeto
sossegadinho
dizer que sim
dizer que não
é sempre fim
de uma ilusão.

NOTÍCIAS




Isto de os jornais, diários ou não diários, lançarem as notícias sem primeiro irem investigar se há verdade naquilo que escrevem ou se é apenas uma suposição, este mal que a rapaziada jornalística dos nossos dias já adquiriu - o vício do menor esforço -, coisa que no tempo em que eu comecei em tão nobre profissão poderia causar o despedimento imediato (se bem que também existisse a censura que não deixava informar, até as verdades), essa forma de trabalhar pode provocar com frequência que os bem intencionados, como eu ainda sou, peguem numa dessas “bombas” e a difundam nos meios disponíveis.
Foi o que aconteceu comigo, no blogue em que afirmei que os militares não tinham dinheiro para os ordenados e nem também para os subsídios. É mentira! O ministério da Defesa veio garantir que “os vencimentos nunca estiveram em causa” e que esses estão garantidos até ao final do ano. O “Correio da Manhã” enganou-se. E emendou depois o erro. Só isto!...
Já outra notícia, essa, infelizmente, está confirmada. É a de que o mercado perdeu dez mil milhões de euros num só dia e que a 2.ª feira passada foi uma data negra na história da Bolsa. Quem joga ali sabe que é verdade e que as quedas nas cotações das acções foram catastróficas. Tudo, por causa da malvada crise que, segundo uns, é a machada fatal no sistema capitalista, se bem que isso não signifique que o outro, o marxista-leninista, se venha a implantar. Ambos já mostraram que o ser humano não se dá bem com nenhuma forma de ganhar dinheiro sem ser através do seu trabalho e das acções puras, libertas de invejas, de ganâncias, de falcatruas. E há algum sistema que se exclua deste mal que o Homem traz consigo dos berços e não hesita em utilizar, porque o dinheiro é tão bonito… tão bonito o maganão?
Afinal, toda a gente sabe que os bancos de todo o mundo – e os nossos não estão excluídos, antes pelo contrário – ao quererem ganhar fortunas com os empréstimos, sem cuidar das garantias, porque quanto maiores fossem os valores, mais percentagem nos juros recebiam, exageraram de tal forma esse negócio, até com uma publicidade gulosa que entusiasmava os clientes, tendo acabado por criar uma montanha de cobranças incobráveis, e, em cadeia, as desvalorizações dos preços das casas, as perdas das mesmas pelos quase proprietários, e, há males que vêm por bem, o aparecimento agora de andares para arrendar, que era o que nunca deveria ter desaparecido. Isto acontece por cá, mas nos outros países situações de outras ordens também causam dissabores aos cidadãos respectivos.
Vá lá, que a corrida aos bancos para levantar os depósitos se conseguiu evitar e é natural que, em Portugal, isso não venha a suceder, mas que o mal ainda está em princípios de procissão, acerca desse perigo ninguém pode armar-se em adivinho e largar pela boca fora, seja nas televisões seja na imprensa, prognósticos sapientes, com ares de que sabem tudo e nunca se equivoca. Sejam eles quem forem!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O FUTURO

Neste País onde estamos
onde nascemos, vivemos
ainda nos conservamos
temos aquilo que temos

E é pouco, coisa pouca
e cada dia é menos
a caixa vai estando oca
à fartura só acenos

Mas que podemos fazer
que nos resta nesta hora
em que é enorme o muro?

Já nem se pode crer
não serve ir para fora
não me apetece o futuro




É sempre bom ter alguém que nos oiça, mesmo que não tenhamos nada para dizer.
Pelo menos, ficamos com a impressão de que o que não dissemos teria a sua importância.

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Quem escreve terá sempre, julgo eu, a ideia de que, um dia, surgirá a obra-prima. É como quem joga na lotaria; de tantas vezes tentar, alguma vez lhe poderá caber um prémio grande. Pelo menos, essa esperança vai-se mantendo. E é bom que assim seja.
Se a perfeição, o sublime, o inédito, o belo é um objectivo que só alguns alcançam, o sustentar a ideia de que, numa certa altura, pode surgir a inspiração, quem se dedica à escrita ou a qualquer das outras produções artísticas, tem de alimentar esse sonho que é, quase sempre, o sustentáculo do esforço que não pode faltar para se caminhar para atingir o objectivo.
Vale sempre a pena a tentativa e a teimosia em lutar contra a não comparência do génio. Desistir é que nunca!
Poderá a obra produzida não ser a tal, não corresponder ao desejado, não ser ainda dessa vez que saia senão a sombra do que se terá sonhado. Se assim é, o rasgar e o não prosseguir na caminhada, o não escrever outra vez, o não pintar por cima, o não emendar a pauta serão atitudes compreensíveis, mas não constituem as ideias.
No capítulo da escrita, escrever, não ficar satisfeito mas, em lugar de destruir conservar para, noutra altura, voltar a pegar no trabalho, talvez seja esta a melhor atitude.
Porém, não há regras. Se as houvesse!...

DESENCANTO... POR ENQUANTO!




Li, há dias, um conceito que me pôs a pensar. “Mais vale emprestar os livros, que tê-los em casa a apanhar pó”.
De facto, uma biblioteca é um local que acumula muita da poeira que anda sempre no ar. E, como é difícil enfiar a ponta do aspirador no pouco espaço que fica por cima dos volumes, quando é preciso retirar um dos estão guardados há algum tempo, os dedos ficam impregnados daquele desagradável cotão. Mas, daí a afirmar-se que mais vale emprestá-los, quanto a isso levanto os meus “peros”.
É que a experiência me ensinou que, de cada dois livros que se empresta, um não volta ao dono. E, geralmente, se não se aponta o título da obra que saiu e o nome do facilitado, perde-se a ideia de para quem foi o livro que nunca mais o devolve, ou, como já aconteceu, no regresso acaba por ser recebido outro autor. Quer dizer, o empréstimo deu mal resultado.
Não é que vá afirmar que, para quem tem a paixão dos livros, estes sejam como o complemento da família. Não vou tão longe, mas que, em bastantes casos, é preferível a companhia destes que constatar a chegada de um familiar que, só porque o é, tem de ser escutado, respondido e até, por vezes, servido de algo que se coma ou se beba, lá que isso se passa é sabido por muita gente.
Claro que não me refiro a todos os membros da família, que os há que são preferidos, aqueles por quem nos preocupamos com a sua saúde, que temos prazer em receber na nossa casa, de quem sentimos a falta quando estão muito tempo afastados. Só que existem os outros. Os que nos são impostos. Os que são familiares por acréscimo e não nos dizem nada, pagando-nos na mesma moeda. A esses, eu prefiro os livros. Sem hesitação no que afirmo.
Quando se possui uma biblioteca razoavelmente recheada, com edições já todas lidas e que merecem o carinho da arrumação ao nosso gosto, por autores, por temas, por nacionalidades, como se quiser, é um prazer, volta não volta, retirar uma brochura e voltar a ler uma passagem já conhecida, mas que a ocasião propicia a recordação de um determinado texto.
E os livros novos que se vão conseguindo obter, começam por se acumular na fila para serem apreciados e depois a serem acumulados junto dos outros, os que já lá estão nas prateleiras, esses, por serem os neófitos, se já não cabem ficam empilhados à frente de outros que não lhes cedem lugar.
Não é que me incomode demasiado, mas, mesmo fugindo à questão, sou levado a perguntar-me, de vez em quando, sobre quem será que, depois de eu partir, se ocupará de arrumar no seu sítio e com carinho os livros que forem surgindo. Foram anos de conservação avara que, de um dia para o outro, poderão ficar órfãos. A menos que, dado o valor relativo que tal conjunto venha a ter, quem obtiver tal presente entenda transformá-lo em dinheiro líquido. E alguns volumes, até os autografados por autores de grande mérito, merecerão dos alfarrabistas uma atenção muito particular.
Que horror! Trocar literatura pelo vil metal!...
Já quase estou de acordo com o conceito de que “mais vale emprestar livros do que deixá-los a apanhar pó!...”
Eu acrescentaria: mais vale doar livros a instituições que cuidem bem deles, dos que deixá-los à mercê de quem de quem não os aprecia. É preciso é actuar a tempo, para a morte não nos apanhar e surpresa!

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Chamar a atenção para situações que dão mostras de estar mal resolvidas, não se deve considerar crítica maldosa. Antes pode contribuir para encontrar melhores soluções: Felizes os que aceitam reparos construtivos. E os agradecem, seguindo-os. Pobres, os que só apreciam as louvaminhas, sobretudo as que são facilitadas com intenções secundárias. Louvores que esperam contrapartidas.

MILITARES SEM DINHEIRO



Depois daquilo que tem sido escrito neste blogue acerca do estado em que se encontra esta nossa Nação, não surge o apetite de acrescentar mais lamúrias, bastando apenas a revolta de não se conseguir ver e ouvir das bocas dos diversos membros do Governo, a começar, como é natural, pelo seu principal responsável, uma palavra que seja a descrever a verdade sobre aquilo que se passa nas contas públicas, em lugar de afirmações em que ninguém já acredita, com fantasias de que tudo vai bem, nunca esteve melhor, e o remédio para todos os males que nos afligem está a ser aplicado…
Claro que nada disso é verdade e se alguma culpa se pode aplicar aos governantes actuais, sobretudo àqueles que dormem nas cadeiras quando o Presidente discursa, a verdade é que milagres ninguém pode fazer e o ponto a que chegámos –não valendo a pena estarmos a apontar o dedo para figuras passadas, porque isso não resolve nada – é de tal forma difícil que não é com discursos e com pesporrências sem sentido que se convencem os portugueses de que o que está a ser feito é o melhor e mais ninguém seria capaz de encontrar outro caminho mais aceitável. Isso, porque há sempre quem seja capaz de, num ou noutro ponto, ser dono de soluções melhores do que as nossas. Basta ouvi-los com humildade, que é o que eu acuso estes senhores que têm a presunção de saber tudo.
Um exemplo de que o nosso País se encontra encravado com problemas que não é possível esconder. Vem nos jornais e ninguém ainda desmentiu essa notícia. As forças militares portuguesas não têm verba para pagar salários e, a três meses do final do ano, falta-lhes cerca de 100 milhões de euros para fazer face às despesas com vencimentos e pensões.
É necessário pôr mais na carta?

domingo, 5 de outubro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

A imaginação é, por vezes, muito mais generosa do que a realidade. Os prazeres que podem ser conseguidos, através da ideia que formamos de um acontecimento que se deseja que se realize, mas que não é alcançado, tais gozos só se atingem através do sonho acordado que somos capazes de alimentar.
Não provoca a mesma excitação ver a foto de um elemento nu do outro sexo (ou do mesmo, conforme os gostos), ou, se o interesse excede o comum, imaginar essa mulher ou esse homem completamente despido de roupas ou, se possível, visualizá-lo a proporcionar o espectáculo de se ir desnudando a pouco e pouco. Há alguma diferença. E, melhor ainda do que ter permissão para assistir a esse espectáculo é, sem consentimento, espreitar por qualquer frecha disponível. O buraco da fechadura sempre ganhou foros de ser o melhor amigo do olho indiscreto. Com as fechaduras modernas, esse prazer tem vindo a ser anulado. Benditas as chaves de ferro, que necessitavam de uma abertura generosa para poderem cumprir a sua missão. A da chave e a do olho.
Mas, a imaginação é sempre a melhor forma de, sem intromissão de terceiros, se alimentarem expectativas. De se fomentarem ilusões. De satisfazer um desejo de se possuir, em ilusão, o que não se encontra, de momento, disponível. E talvez nunca venha a estar. E, só o cansaço de não se conseguir atingir o objectivo, poderá, com o tempo, liquidar tal ilusão.
O desconsolo, porém, é quando, satisfeita que seja a ambição alimentada, se depara com a realidade. E o concreto não coincide com o abstracto. Tudo o que se desejava não corresponder àquilo que se tinha construído na imaginação. Enquanto encoberta a verdade, foi alimentada uma ideia que, perante o facto consumado, caiu como um castelo de cartas.,

DISCURSOS



O Presidente da República, como se está fazendo um hábito salutar, aproveitou mais um acto solene para debitar um discurso. E, desta vez, foi a comemoração do 5 de Outubro que, para os republicanos e no regime em que vivemos, se tratou de um momento que não poderia passar em claro e que, sobretudo na situação difícil que se atravessa, merecia conhecer o que pensa o Magistrado da Nação.
Bem, nunca é demais conhecermos, todos nós cidadãos deste País, como interpreta o ocupante do Palácio de Belém a governação que temos e aquilo que se pode extrair das suas palavras e até mesmo das entrelinhas das afirmações que faz. Pertence ao Chefe do Estado mostrar a sua opinião quanto à forma como o Governo tem desempenhado a sua missão, posto que, das palavras do chefe do Governo, são vastamente conhecidos os elogios em boca própria, no que é seguido pelos seus colaboradores directos dos ministérios, os bons, os sofríveis e os maus, grupo em que tem a primazia aquele do “jamé” – sim, eu sei que se escreve “jamais”, escusam já de estar a preparar a crítica -, personagens essas que nunca têm a humildade de reconhecer um erro, de aceitar um conselho, de emendar um passo mal dado. Mas isso é um mal dos portugueses, em geral, e por essa razão não podemos esperar excepções dos “portugas” que são governantes ou políticos de um modo geral.
Refiro-me agora às palavras de Cavaco Silva naquele referido discurso na Praça do Município. Disse ele que “o Estado deve garantir dois factores essenciais: a justiça e a segurança”.
Ora bem, farto de saber estará o que também já comandou um governo, que, desde passadas direcções de executivos e até hoje, não houve um só capaz de meter na ordem a desgovernada justiça que é o mal que mais pesa nas acções de quase todos os cidadãos. E, no que se refere à segurança, sabendo-se que ela tem vindo a enfraquecer desde que esta nova onda de assaltos, roubos, furtos se instalou no nosso País, a fragilidade das medidas e das penalizações que são necessárias para pôr um cobro razoável à malandragem, tudo isso, com ligação sempre à justiça, não têm chegado para podermos dizer a Cavaco Silva que ele tem de “apertar” com Sócrates para que ele se deixa de “fanfarronices” de que nunca há razão para queixas.
Não sei se outro que estivesse ou que venha a estar no seu lugar seria ou será capaz de solucionar o problema, nem é isso que interessa agora. Mas nós, os que servimos apenas para pagar impostos e sofrer com as más governações, temos direito à tal indignação. Ao menos é u
isso que nos resta desta Democracia que nos calhou na rifa...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

GRITAR BEM ALTO



Penso nisso muitas vezes
se melancólico estou
chegam-me à cabeça teses
direito ao papel eu vou
vontade vem-me da alma
de dizer alto e bom som
não fazendo apelo à calma
nem mostrar ser de bom tom
porque no tempo é que penso
no que me falta ainda
ponho de parte o bom senso
porque já nada se alinda
e face a tal realidade
se tudo que fiz não conta
não deixo nada a metade
vamos a isso: à afronta !

Portugal está num beco
bem difícil a saída
é como um País já seco
sem água nem na descida
há que fazer qualquer cousa
e jamais ficar parado
não desculpar quem repousa
e se põe sempre de lado
por muito que esteja errado.

Faz falta gritar bem alto
apontar o que está mal
se o País não der o salto
mantendo-se sempre igual
então as crianças de hoje
amanhã descobrirão
que em Terra do bate e foge
não há qualquer salvação
e o mais perto aqui ao lado
que também foi ditadura
já oferece o seu telhado
para vida menos dura
e não se queixem depois
os do aljubarrotismo
que se julgam heróis
mesmo deixando um abismo

Penso nisso a miúdo
e não sendo exemplar
ponho na balança tudo
e paro para analisar
o que passa à minha volta
e é ao estudar o mundo
que me ressalta a revolta
à superfície e no fundo
e ao pela manhã ler
os jornais que tenho à mão
fico logo a saber
que se vive em tensão
que há mortes e há guerras
que só vencem os mais fortes
os que dominam nas terras
mesmo provocando mortes
os mais ricos, poderosos
que têm primos e primas
e não são os valorosos
os que merecem estimas.
Fico, pois, desanimado
só me resta é gritar
ver onde chega meu brado
não passa do poemar
mas se mais longe não vou
se só me ouvem ao pé
não vou sair donde estou
na mesa do meu café

Estou limitado por isso
ao que a minha voz alcança
poder dos outros cobiço
dos que usam a gritança
mas que posso fazer eu
para além de encher papel
tal como pobre plebeu
perante um rei cruel
de manhã escrevo poemas
poemas… que fantasia !
abordo somente uns temas
com rima, por teimosia
são centenas, já milhares
que acumulo sem saber
se serão assim vulgares
mas dão-me tanto prazer
ao vê-los surgir na folha
que descubro a qualidade
numa miragem zarolha
que desperta caridade.
E de tarde vou pintando
quadritos a óleo puro
e com isso vou gritando
para mim e sem futuro.

Pensando sempre assim
pois isso ninguém me impede
sigo a gritar para mim
sequinho cheio de sede
sede de ver melhorar
este mundo, tão maldoso
sem crença já de chegar
a tempo de ter o gozo
de ver o Homem mudar.
Morrerei desiludido
o depois a lastimar
que eu não fui um protegido
pois a vera felicidade
está naquele que acredita
que o Homem tem qualidade
para mudar onde habita
que a água não faltará
e oxigénio também
e a cura haverá
p’ra se viver mais além
E em todo o globo cabe
cada um no seu lugar
a fazer só o que sabe
sem andar a empurrar
o vizinho que incomoda.
Se os velhos forem tantos
mesmo não estando na moda
não se afastando p’ros cantos
mas com amor para dar
se vier a ser assim
se tudo se alterar
coisa em que eu não creio
não é preciso chinfrim
e muito menos receio.

Se o mundo se endireita
Portugal imitará
e a malta satisfeita
as hossanas cantará
eu é que não acredito
nem no mundo ou só cá
e é por isso que eu grito
p’ra me ouvir Deus e Alá
qualquer Buda ou seu parente
que p’ro caso tanto faz
já que o Homem é que não sente
o mal que lhe vem de traz
do jardim do Paraíso
no tempo de Adão e Eva
quando se perdeu o siso
e se caiu na treva
como dizem Escrituras
e a maçã desfez perdão
e s’inventaram figuras
e com nova situação
os cristão recomeçaram
a encarar o seu mundo
e nunca mais descansaram
convencidos bem no fundo
de toda a sua verdade

Faço, pois, mal em gritar
contra quem contente diz
tudo vai continuar
o ser humano é feliz ?
Tenho de dar grito alto
mesmo sem ter resultados
a vida é um sobressalto
nós andamos enganados
e num futuro qualquer
mais próximo ou nem por isso
seja homem ou mulher
verá que não foi enguiço
aquilo de que avisaram
os que estavam mais atentos
para o pior alertaram
apelando aos sentimentos.

VIRTUAL


Têm razão se me acusarem de eu bater excessivamente na tecla da má justiça que temos neste nosso País que não há forma de proceder a um exame de consciência e fazer todos os esforços para emendar os erros clássicos que nos perseguem, alguns desde o nascimento da nossa nacionalidade. E este dos processos demorarem anos até chegar o momento da sentença, é um daqueles casos que não se entende como é que os sucessivos governos que surgem não são capazes de solucionar uma falha que atinge todos os sectores da existência de Portugal como Nação.
Nação? Mas é possível que este cantinho à beira-mar plantado, com uma situação geográfica invejável, um clima que, até hoje, é também considerado, em relação à Europa toda, como apetecível, com um povo que, sob o ponto de vista do acolhimento de estranhos é até submisso, é possível que chamemos a isto País? Não tenho nenhum receio que os facciosos nacionalistas, até aqueles que foram agora julgados e condenados e que fazem o gesto do braço estendido, me julguem como anti-patriota. Porque não sou nada disso e quando defendo a criação da Ibéria, como espaço nacional, com mais do que uma língua – no que não seriamos sequer inéditos -, isso apenas para que terminasse um minúsculo bocadinho de terra ao lado de outro que também necessita muito da nossa influência para se tornarem, os dois, num bloco de peso e de influência europeu, quando, desde sempre tomo essa posição o que desejo é que não fossem nem a França, nem a Alemanha e até a Grã Bretanha a dominarem sempre a zona europeia. Passaríamos todos, os da Ibéria, a ser parceiros a sério.
Mas o que volto hoje a referir é o mau funcionamento da Justiça que temos, em que, apenas como exemplos passageiros, constatamos que o julgamento das FP 25 levou mais de dez anos em tribunal, em que o caso Camarate foi arquivado, depois de vinte anos após o acidente, o processo Costa Freire terminou por prescrição, os dirigentes da UGT esperaram quinze anos pela sentença, o problema com a Universidade Moderna tardou que se fartou, tudo isso para não se falar do doentio processo Casa Pia que ainda aguarda pelas alegações finais. Pergunta-se então: no meio judicial, nas mãos dos poderes nessa área, no próprio Governo anda tudo a dormir na forma? Ninguém dá o murro na mesa e grita BASTA!
É por estas e por outras que eu duvido que o nosso comportamento seja o de um país a sério. Tem de ser virtual, que é uma palavra que anda muito na moda. É assim como o “digamos”, que está mesmo a calhar para um povo que também finge que existe… pelo menos algum dele, o que também usa e abusa do “de alguma maneira”. Isto só dá para brincar… também virtualmente
!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

MODERNISMOS

Com tantos recursos o português
sem necessidade de quaisquer ismos
não queremos que com desfaçatez
nos imponham até brasileirismos

Falta de gosto, grande ingratidão
para bastantes dos nossos antanhos
que foram os mestres da ilusão
e que não merecem erros tamanhos

Pois querem mostrar que são bem falantes
largam o “digamos”, falta-lhes a língua
não são afinal mais do que talantes
nem sabem falar como nós falamos

Passou depressa o tempo do “pois”
houve ainda aquele do “portanto”
e outros vícios vieram depois
não parou por aí o nosso espanto

Hoje em dia ”de alguma maneira”
gentes que se dizem profissionais
lançam nos ares sem eira nem beira
o termo horroroso do “logo mais”

Como poderá ser que o nosso povo
consiga usar esta língua bem
se os ignorantes largam como novo
palavras, expressões de Zé-ninguém

E também por dá cá aquela palha
espantam “espectáculo” para tudo
é expressão de quem só se baralha
quando melhor seria ficar mudo

Que nas rádios e nas televisões
só se admita gente preparada
p’ra defender aquilo que Camões
deixou a Portugal: a língua amada

Qualquer língua avança, é bem certo
mesmo com aquele “boé” horrível
mas não podemos deixar de ter perto
tudo que tem de estar inamovível

Se são esses os apresentadores
que merecemos, há que resignar,
para os puristas são só as dores
já sem esperança de os ver mudar


TEMPOS PASSADOS


Eu sou do tempo em que os jovens casais, quando faziam projectos para a união, o primeiro com que se preocupavam era em encontrar casa para alugar, fazendo contas aos rendimentos para poderem fenfrentar o custo mensal da renda.
Claro que, nessa época, tanto em Lisboa como fora dela, a indicação para encontrar um lar eram os quadrados de papel colados nas janelas e, quando se tratavam de triângulos, sabia-se que as casas para arrendar eram mobiladas. Tudo muito fácil e sem grandes gastos para os comprometidos. Era até muito divertido “ir ver casas”, ao ponto de haver gente idosa que, aos domingos, ou pelos anúncios nos jornais ou pela simples descoberta dos tais quadrados de papel nas janelas, iam passar um bocado e ocupar o tempo.
Para alugar um andar bastava fazer o contrato com o senhorio e entregar o valor de dois meses de renda, um, o do mês em causa e outro, o que se dava como caução, que garantia o último mês do arrendamento.
Conto isto, claro, para que a gente que não é dessa época passe a ficar a saber como era fácil dar o passo do matrimónio – ou o mudar de morada -, não sendo por aí que as coisas se complicavam. O pior era o recheio, mas isso já é outra matéria…
A pouco e pouco, porém, as casas para alugar foram rareando e isso porque, na ânsia de construção e de venda de andares, o que invadiu o mercado foram os andares para venda e, logo se seguida, surgiram os negócios dos bancos, estes a oferecer facilidades de pagamento na compra a prestações mensais. E, feitas as contas, mesmo que os pagamentos completos tardassem 30, 40 e até 50 anos, a verdade é que o dispêndio mensal equivalia ou, por vezes, era ainda mais baixo, do que o valor pedido pelas rendas. E, lentamente, os tais escritos nas janelas foram rareando, ao ponto de desaparecerem de todo. E o compromisso de levar uma vida a pagar a compra da casa, sabendo-se de antemão que a falha dessa obrigação implicava no risco da perca da propriedade e de grande parte do já liquidado (isso na situação de se não encontrar comprador substituto para suportar o prejuízo ou possa até representar um lucro, no caso do valor pedido ser superior ao já liquidado ao banco), o tal pagamento lá se ia suportando enquanto o ordenado estivesse garantido.
Tudo isso até que chegámos à actualidade. E o que é que se enfrenta nos dias de hoje? Primeiro, o continuar a não se verem casas para alugar – muito por culpa da C.M. de Lisboa, como já me referi em blogues anteriores -, e só se verem por Lisboa e por esse País fora prédios em ruína, pois os senhorios, não tirando proveito das suas propriedades, também não fazem obras e, dada a crise que se espalhou rapidamente, os bancos retraem-se e só emprestam menos do que o valor dos andares respectivos e atribuem juros tão elevados que, em muitos casos, criam obrigações de pagamentos mensais que não são suportáveis pelos rendimentos normais da população. Isto, para não falar no desemprego que é uma ameaça que grassa por muitas áreas e que, quando ataca, deixa sem condições os arruinados devedores dos empréstimos.
Esta é uma história que até parece ser contada por um defensor das maldades do Diabo, mas que é verdade… lá isso é !

terça-feira, 30 de setembro de 2008

FAZER DE CONTA

Nem sempre o que é possível se consegue
fará falta algo, mesmo a fé
é preciso que o que se persegue
deixe de estar longe e fique ao pé

Muitas vezes tem que se dar o passo
ainda que não seja nosso agrado
há que manter fortes nervos de aço
e esquecer o que está ao lado

Por muito que se trate de uma afronta
aquilo que é preciso p’ra vencer
nada poderá ser de grande monta

Pois por mais longe que esteja pronta
o que queremos ver alvorecer
o importante é não fazer de conta


ALBERTO JOÃO


Não se trata de evidenciar regozijo por tomar conhecimento de que um compatriota foi condenado por uma condenação judicial. Mas, sabendo-se de quem se trata, de uma pessoa que usa e abusa dos termos menos apropriados para atingir outras personalidades políticas, sobretudo se pertencerem a grupos partidários diferentes do seu, pelo menos a mim, que não sou madeirense nem faccioso, esta condenação, confesso, provocou-me alguma satisfação.
Eu explico melhor: Alberto João Jardim, o tal desbocado que bem merece que, de vez em quando, seja chamado à colação para ver se consegue interiorizar que a responsabilidade do lugar que ocupa lhe deveria merecer um respeito mais visível pelo conjunto de intervenientes na política, quer se tratem de governantes quer se situem noutras posições menos valorizadas, esse ainda presidente da Madeira, foi agora condenado em 20 mil euros de indemnização a Edite Estrela, eurodeputada, por a ter difamado – é o que diz o veredicto -, chamando-lhe “delinquente”. E, caso curioso, foi o Tribunal Judicial do Funchal quem considerou que Jardim “se excedeu na crítica política”. A razão da fúria jardinista assentou no facto de Edite ter declarado que “a política regional madeirense se consideraria de fachada e sem sensibilidade social”.
Faço este exposição toda porque, primeiro, considero a especialista em língua portuguesa uma pessoa de trato agradável e, segundo, porque deveria a forma como ela usa a nossa língua ser exemplo a seguir pelo deslinguado Jardim, que não respeita ninguém, atirando pela boca fora os maiores despautérios, acabando sempre por perder até a razão, quando a tem, pois quando uma figura pública se exibe, deve ter o maior cuidado em não se exceder, utilizando termos que a população ouve e que, perante essa atitude, não se retrai também quando se confronta verbalmente com um parceiro. Os maus exemplos são mais fáceis de seguir…
Os madeirenses, que têm votado sempre na mesma personalidade política, poderão estar muito contentes com a governação que os dirige. Muito bem. Mas seria bom que levassem em conta que muito do dinheiro que tem contribuído para o progresso, sobretudo urbanístico da Ilha, vem dos cofres do Continente, o que não retira valor ao Alberto João, porque tem dado mostras que o utiliza bem. Mas, mesmo assim… a paciência tem limites!
Agora, o que está ainda para ver é qual a decisãodo Tribunal, perante o recurso com que Jardim respondeu à sua prima condenação. Eu não poria as mãos no fogo por uma decisão antecipada. Pode-se esperar de tudo!...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

SALA DE ESPERA

Estou na sala à espera
do médico para consulta
no estrangeiro, quem me dera
chegar atrasado é multa

Mas aqui nesta terrinha
onde tudo é ao contrário
dá tempo p’ra ladainha
rezar contas do rosário

Paga-se caro aos doutores
mas há que esperar que atendam
mesmo assim fazem favores
doentes que não se ofendam

Os que sofrem de maleitas
e por isso estão doentes
engolem suas desfeitas
são chamados pacientes

Em Portugal é sabido
ninguém tal pergunta faz
pois como certo é tido
de aguentar é capaz

Pergunta-se de rompante
mesmo sendo coerente
quem é o mais importante
o médico ou o doente?

Se se esperam sempre horas
que o médico faça o favor
descontemos as demoras
na consulta do doutor

Acabam-se logo as esperas.


PROBLEMAS RESOLVEM-SE ?









Julgo que não causará grande espanto que eu recorra, com frequência, à ajuda das notícias da Imprensa para encontrar assunto que preencha os meus blogues diários. O que vai acontecendo e que constitui motivo para os jornais tirarem partido dessas novidades, evidentemente por se tratarem de casos merecedores de serem assinalados, suscita-me a mim, que não perderei nunca este vício do jornalismo que pratiquei durante mais de cinquenta anos, a vontade de também dizer de minha justiça.
E isso sobretudo agora, que já lá vai há anos essa maldita Censura e que, neste momento, em que outra tesoura afiada também espreita na comunicação social, esta comandada pelos interesses capitalistas, publicitários e outros e que estão atentos às faltas de domínio nos rapazes das Redacções, pois que nem sempre se pode dizer a verdade, sobretudo quando ela briga com factores que contribuem para que interesses criados sofram moléstias, eu, pelo menos, neste blogue estou isento de tais intervenções.
Vamos então ao que saquei hoje da Imprensa que despertou a minha vontade de dizer de minha justiça: em primeiro lugar, não posso deixar passar um tema que se refere às câmaras municipais e que divulga a notícia de que os municípios de todo o País estão a “arder” com milhões de euros, em virtude das rendas sociais que não conseguem ser cobradas e de que pouco têm valido os planos de pagamento faseados e as acções em tribunais. Quanto a estas últimas, não causa a menor admiração, sabendo-se como se sabe como anda a Justiça neste nosso País. No caso do município lisboeta, a notícia é clara ao anunciar que o montante por cobrar atinge já os 13 milhões de euros e que muitas das rendas em dívida não chegam a uma centena por mês. E o escândalo maior é que se sabe que há famílias que não pagam as rendas das suas casas sociais mas têm rendimentos que ultrapassam o milhar de euros mensais e algumas delas ostentam à porta dos seus lares viaturas de alto custo.
Isto é um dos muitos casos que se podem apontar neste nosso belo País solarengo, em que a Justiça, quer para um lado quer para outro, anda de olhos, de ouvidos e de nariz fechados. Tudo dorme nos nossos tribunais, apesar das montanhas de papel que se descortinam nos seus corredores, cada vez que temos necessidade de entrar num desses edifícios. E não há ninguém, com “eles” no seu sítio, que seja capaz de, uma vez por todas, meter juízes, sistemas, leis, seja lá o que for na ordem.
Vamos agora ao segundo assunto: João Loureiro, o filho do outro, o major, deve 77 mil euros à Segurança Social. Tratam-se de quotizações retidas dos salários de trabalhadores do clube axadrezado, referentes ao período de Maio a Novembro de 2007. E a lista de ordenados sobre os quais recaem as faltas de pagamento pelo Boavista Futebol Clube, que vão desde os 6 mil até aos 84 mil euros mensais. Uma ninharia!... Claro que, também neste caso, a Justiça marca passo. E não é contras os devedores que se justifica este texto. É sempre e só para assinalar que o nosso Ministro da Justiça – este e os anteriores -, os serviços judiciais de uma forma geral, toda essa gente que, em muitos casos, funciona em verdadeiros palácios ou edifícios imponentes (veja-se o caso de Sintra – para não deixar de referir também, e em contradição, certos pardieiros onde o respectivo pessoal se movimenta), mas que, quanto a resultados são aqueles que todos os portugueses conhecem.
Finalizemos, então, com o derradeiro tema de hoje: é que há 4.287 médicos estrangeiros a exercer a sua profissão nos hospitais públicos portugueses, número este que vai aumentar, pois que os existentes não chegam para as necessidades. E são das mais variadas origens esses profissionais da medicina que cá estão a prestar a sua actividade, desde a América do Sul até à União Europeia e da própria Europa de Leste. Isto, enquanto se mantém por cá, teimosamente, a norma de exigência de uma média muito elevada dos alunos saídos do secundário, fazendo até que bastantes desses estudantes sejam forçados a seguir a carreira de medicina em Espanha, onde essa obrigatoriedade não se verifica. Isto que eu escrevo para aqui são assuntos que, de uma forma geral, os portugueses conhecem e comentam entre portas. Todos saberão? Não, os homens dos Governos que nos têm “governado”, esses andam por outros espaços, Não se dão conta de nada do que é mais urgente solucionar neste cantinho que se agacha aqui na Península Ibérica. Claro, que andam preocupados com os tais submarinos, com os novos aeroportos, com as TVG e com tudo que, por mais útil que seja… só não é o mais urgente. Pode esperar

domingo, 28 de setembro de 2008

CHULARIAS

Eu não brinco às escondidas
com tudo sério nas vidas
enfrento bem de frente, o tufão
por maior empurrão
vários por cá já passaram
que tristes marcas deixaram
ao apurar o saldo, qu' alegria
saber que nunca recebi alforria
sempre recusei alpista
na minha profissão de jornalista
isso grande desconsolo
dos que queriam o bolo
sobretudo dos favores
dos louvores
das honrarias
que lhes dão as chularias
de quem sobe à custa dos demais
e que quer sempre mais e mais.
Mas comigo, não
nunca fui mamão !

MÁRIO SOARES


Foi hoje publicada num diário uma extensa entrevista com Mário Soares. Aí, a frase de chamamento para a as perguntas e respostas é a de que “José Sócrates é o anti-Guterres”, realçando que o antigo primeiro-Ministro é um homem “que não sabe dizer não”.
Isto fez-me recordar tempos passados em que o que foi Presidente da República, antes de ocupar esse cargo e na altura em que exercia funções de chefe do Governo, proclamava à boca cheia que se considerava, perante os seus ministros no Executivo, como “uno inter pares”, o que, na altura, levantou até uma questão entre mim e o homem de Estado. Na verdade, tendo eu tido oportunidade de, na qualidade de jornalista e de director de um semanário, ter acompanhado Mário Soares em dez viagens que então foram efectuadas a diversas partes do mundo, sobre tudo na Europa, pois havia a preocupação, aliás bem sucedida, de convencer os parceiros do nosso Continente a aceitarem Portugal como futuro membro da Comunidade Europeia, como veio a suceder depois, pois foi numa dessas viagens, em que conversávamos bastante durante os trajectos, que eu mostrei o meu desacordo quanto a isso de um primeiro-ministro poder ser mais um parceiro do conjunto governamental, em lugar de exercer o exercício com plena autoridade sobre os seus colaboradores mais directos na governação, não tendo até complexos em substituir os que não estivessem a corresponder às funções que lhes tinham sido confiadas. Estávamos, portanto, em desacordo. Isso do “uno inter pares” com a responsabilidade de levar com competência as rédeas de um governo, poderia ser muito “porreiraço” mas não correspondia ao que um país exigia do seu principal governante. Sobretudo, se existisse no seio do seu grupo, um ou mais que não estivessem a ser capazes de executar as tarefas que lhes cabiam.
Logo, vir agora acusar Guterres de ter sido um governante incapaz de dizer não, a mim, que conheci bem Mário Soares naquela época atrás referida, parece-me um dos esquecimentos que também sei que lhe são muito correntes, numa memória seguramente muito preenchida com outros assuntos mais importantes do que este. Estou certo de que este meu Amigo já não se recorda que, uma vez em Nova Iorque, ao termos ficado instalados num hotel que eu já conhecia de outras visitas anteriores, sentindo-se ele muito aperreado pela segurança americana demasiado apertada, me mostrou o desejo de ir comprar uma camisa e não querer ser seguido por aqueles polícias. Foi aí que valeu eu conhecer uma porta do hotel nas traseiras que utilizámos, e lá fomos os dois a caminho das lojas na rua 7ª (parece-me) e quando regressámos com embrulhos, o meu Amigo Mário fez questão de utilizar a porta principal, onde se encontravam vários dos seguranças de serviço que, ao vê-lo vir do exterior, ficaram todos claramente surpreendidos. Foi uma verdadeira partida à Mário Soares, de que eu tenho outras para contar um dia, caso venham a talho de foice… O fim da minha longa actividade jornalística, antes e depois do 25 de Abril, provocou depois entre nós um afastamento que me deixa muitas saudades, pois eu posso assegurar que, como companheiro de viagem, é das mais interessantes figuras que tenho conhecido e vem-me sempre à memória um célebre jantar que tivémos um dia no aeroporto de Londres, quando o nosso avião, que se dirigia dalí a Washington, teve de voltar para trás por motivos técnicos. Que engraçado que foi tudo, apesar das contrariedades com o cumprimento de horários, sobretudo para o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira...

sábado, 27 de setembro de 2008

ÁGUA

Já cá estavas quando eu nasci
bebi-te ainda sem saber quem eras
terei gostado, sim, gostei deveras
matando a sede, por isso sorri

Ó água pura que ainda existes
nem nisso pensam as gentes de hoje
se algum dia esse bem nos foge
será então que ficamos mais tristes

E esse dia terá que chegar
mesmo dizendo não os optimistas
é preciso não desviar as vistas
do mal que poderá todos matar

Água salgada, essa aumentará
mas tirar-lhe o sal é difícil cousa
na terra a que ainda repousa
virá o dia em que acabará

A Igreja chama-lhe água benta
e com esta baptiza as criancinhas
serão elas talvez, as pobrezinhas,
que terão de enfrentar tal tormenta

É ainda o líquido precioso
que tem servido para enganar
misturado no que se vai provar
pois é vício deste mundo enganoso

E na vida faz bem ter certa fé
é muito bom crer no que quer que seja
e em vez de água beber cerveja
como em seu lugar tomar água pé

Mas para ambas é essencial
essa água que não pode faltar
da mesma forma que não haver ar
é morte certa p‘ra qualquer mortal

Mas será que neste mundo em mudança
onde tudo se inventa cada dia
alguém conseguirá a utopia
de atingir a bem-aventurança?

Não sendo a água já tão necessária
ficamos nesse caso descansados
temos de olhar para outros lados
para outra coisa também primária

Porque não acabam as aflições
excesso de gente causa problemas
e serão tais os vários dilemas
que o melhor é não ter ilusões



ÁGUA POTÁVEL


Já cá não estarei em 2025. Logo, o problema não me diz respeito. Mas, de acordo com uma notícia publicada hoje, de que, nesse ano, Portugal e Espanha serão os dois países europeus mais afectados pelo aquecimento global, razão pela qual, segundo afirmação do periódico, não vai haver nessa altura água potável na Península Ibérica, levando em consideração previsões das Nações Unidas, o que justifica que vão aumentando as recomendações para se poupar, o mais possível, aquele precioso líquido, repito, aceitando esse prognóstico, temos todos de começar a estar preocupados, sobretudo os mais novos, levando em conta que essa altura fatídica apanhará em plena vivência milhões de cidadãos, quer os que habitem esta ponta da Europa quer os outros que, a pouco e pouco, poderão ir sentindo os efeitos daquela carência que, os que já atravessaram um deserto, conhecem bem o que significa escorropichar o fundo da garrafa e não sentir sair nem pinga dessa bebida inimitável que se chama água.
Claro que os do copo meio cheio vêm já afirmar que o Homem, com o seu poder de ir inventando soluções para os problemas, irá buscar, talvez mesmo aos oceanos, a resposta a tamanha catástrofe. Já se sabe que isso é possível, mas também se conhece que o custo e a escassez de quantidade que se pode obter hoje com essa operação, não conseguem dar resposta às necessidades do consumo de todos os habitantes da Terra.
Bem. Mas deixemos esse assunto para ser resolvido quando chegar a altura de ter de ser resolvido. Ainda faltam para aí uns dezassete anos. E as centrais de dessalinização que já existem serão certamente desenvolvidas para afastar o susto que muita gente irá apanhar. Por agora, ficamo-nos – e não é pouco – com a ameaça que cientistas já não escondem de que o degelo que se está a verificar vai aumentar o nível da água do mar cerca de sete metros. E que esta subida da água salgada irá invadir e contaminar os depósitos de água doce. Isto já chega, por agora., como susto.
Resta-nos esperar pelas frases de sossego dos optimistas, pois graças a eles diminuirá a preocupação que possa ir surgindo, não só nos que lêem este blogue mas em todos que fazem os possíveis para não andar distraídos neste mundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

DESCOBRIR O ÍNTIMO

Fiquei surpreendido? Talvez nem tanto. Quem, no grupo em que me julgo poder incluir, de pessoas que, durante toda a vida ouviu mais do que disse coisas, já é possível aceitar afirmações de que o interior do próximo está à disposição de qualquer um, não constituindo segredo mesmo aquilo que nós próprios não temos muito a certeza de poder descrever sem erro, tomar conhecimento dessa opinião a nosso respeito pode-se aceitar e mesmo que não coincida muito com o que julgamos ser a realidade, é um gesto do próximo que, pelo menos a mim, não me deixa boquiaberto.
Vem isto a talho de foice porquê? Porque provoquei e, por isso, li aquilo que uma parente minha me enviou por mail, abrindo-se completamente num julgamento que, provavelmente, terá os seus laivos de razoabilidade.
Falou da tristeza das minhas prosas e, sobretudo, das minhas poesias que, sem o afirmar, poderá ter apelidado de choronas. Fez um elogio às minhas pinturas, mas mostrou desapontamento por eu não ser conhecido nesse campo artístico, e, no fundo, apesar da grande diferença de idades que nos separa, estudou uma estatística em que pretende provar que, ao longo dos meus 78 anos, uma grande percentagem foi de felicidade, o que não justificava os poucos momentos de alegria que ainda consigo mostrar.
Fiquei a pensar, o tempo que considerei bastante, nestas considerações e pus-me a esmiuçar grande parte dos momentos da minha vida passada. E cheguei à conclusão de que será excessivo pretensiosismo nós querermos analisar o íntimo dos outros e ainda mais concluir sobre a felicidade ou infelicidade que cada um acarreta no seu íntimo. E lembrei-me da história conhecida do rei que, querendo ele ser feliz, porque o não era, mandou analisar no seu reino quem se podia considerar como um súbdito que gozasse de plena felicidade. Ao virem-lhe dizer que tinha sido encontrado um homem que resplandecia felicidade, um pastor, mandou imediatamente que lhe fossem buscar a camisa que vestia, porque um mestre em seu redor lhe teria dito que devia vestir a camisa da felicidade para poder gozar dela. O desconsolo maior foi quando lhe vieram dizer que o tal pastor pleno de felicidade… não tinha nenhuma camisa!
Esta história, que não é nova, serve-me sempre para reflectir sobre a opinião que formamos dos outros, pretendendo entrar no seu mais profundo do íntimo, apresentando recomendações e remédios como quem se avia na botica, mas esquecendo que o que o próximo necessita não está à disposição de qualquer e não é por emprestar uma camisa que se transforma uma pessoa, de má em boa, de feia em bonita, de incompetente em sábio… e assim por diante.
Se souberem de alguém que disponha em excesso de talento, por favor tragam-me à minha presença para eu lhe pedir uma mãozinha, por mais pequena que seja, desse dom.

CERTEZAS E DÚVIDAS


Mas que bom é ter certezas
e nunca se enganar
é para dissimular
muitas de outras fraquezas

Não se pode acreditar
em quem se julga perfeito
porque um ser sem defeito
deve ser de agoniar

Por pequenina que seja
qualquer saída da norma
é ser-se de qualquer forma
alguém que às vezes graceja

Mas são assim os sisudos
e por certo convencidos
têm de ser atrevidos
e estar muito tempo mudos

Reconheço erros meus
não me deixo equivocar
estou-me sempre a enganar
tal qual sucede a Deus

Quando aceita homens desses
que se julgam infalíveis
o Criador baixa os níveis
e não ouve bem as preces

Ainda bem, eu cá digo
que as dúvidas não me deixam
como disso alguns se queixam
não será pois um castigo

Antes dúvida parece
para ajudar a saber mais
em abrir novos canais
e é prova do interesse

Gente, pois, só com certezas
e a isso um dom chamam
estão nos que as não proclamam
e não entendem as defesas

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

HÁ VELHOS E VELHOS!...

Vou agora tratar de dois temas que, entre si, aparentemente não têm nada a ver um com o outro. Mas, se pensarmos bem, talvez encontremos alguma ligação. Vamos a isso.
Primeiramente refiro-me a uma notícia dada à luz hoje por um diário que, embora nesta altura, se encontre longe da conquista de leitores, continua ainda a gozar de certa reputação, reputação essa que lhe vem do passado, até do tempo em que fazia todos os fretes ao situacionismo salazarista: o “Diário de Notícias”.
Muito embora se trate de um tema que nós, os que vamos estado atentos ao que nos rodeia no nosso dia-a-dia, sejamos despertados a cada passo com essa realidade, nem sempre paramos para pensar nas consequências respectivas. Trata-se desta triste verdade de que o Porto perde população e Lisboa envelhece a olhos vistos.
De facto, ainda hoje me pus a observar, da janela da minha casa, na capital, as pessoas que iam passando, e deparei com o que já me tinha despertado curiosidade, mas que, neste momento, depois de ter absorvido a notícia, me causou a maior das tristezas. A percentagem de gente de idade que passava aparentava ser superior à juventude e até mesmo a pessoas no meio da vida que por aqui circulavam. Tratando-se de uma capital que atingiu mais de 1 milhão e oitocentos mil habitantes – o que não quer dizer residentes na cidade propriamente dita -, se o estudo efectuado pela União Europeia não estiver muito enganado e se for certo que a percentagem de gente com mais de 65 anos que por cá se movimenta é de 24 por cento, isso quer dizer que a gente nova está a encontrar outros lugares para seguir a sua vida, o que também não é uma novidade muito surpreendente, pois sabe-se que as condições de vida por estes sítios não são de molde a convidar, quer os licenciados quer os que estão disponíveis para utilizar a mão-de-obra, a permanecerem na terra onde nasceram, porque as perspectivas de futuro não são suficientemente convidativas.
Esta, uma notícia que deve fazer pensar os governantes, os que estão e os que surgirem depois. Porque quer dizer que o futuro se apresenta tristonho. A menos que… e com estes três pontos, deixo a quem me ler a possibilidade de imaginarem tudo o que acharem mais adequado à situação.
Bem, vamos agora à segunda questão que, não se relacionando directamente com este País de velhos, alguma coisa a liga, dada a idade do visado na notícia que também surgiu hoje num diário. Trata-se do Ministério Público voltar a acusar o presidente do Município de Gondomar de prevaricação, no caso numa operação que envolve a compra e revenda de um terreno, num processo conhecido pela Quinta do Ambrósio, e cujo negócio permitiu aos intervenientes um lucro de três milhões de euros. Para além de Valentim Loureiro, foram também notificados mais dez arguidos e, ademais do crime de prevaricação, o major é ainda acusado de burla qualificada, participação em negócio como titular de cargo público.
É sabido que o antigo capitão que foi expulso do Exército por acusação de ganhar dinheiro com a compra de mantimentos para a tropa (pelo que passou a ser conhecido pelo “capitão das batatas”), acusação essa de que foi ilibado, recuperando a sua integração de novo na tropa e então com o posto imediatamente superior, o de major, tendo-se reformado posteriormente, este agora primeira figura do Município de Gondomar, cujo lugar ganhou pela segunda vez, não sendo um jovem e dando sempre mostras de uma ambição política que o coloca constantemente nas primeiras páginas dos jornais e nas aparições televisivas, exactamente pela força da idade atingida, que lhe proporcionou sempre não ser uma ignorada figura pós-25 de Abril, relaciona-se com a notícia do envelhecimento da população portuguesa, pois só muita experiência de vida poderá proporcionar a um homem como o Major, não se deixar abater perante situações, várias, que o têm feito desbravar e, pelos vistos, com sucesso e com fortuna.
É caso para perguntar: se houvesse muitos portugueses assim, já fora da altura da juventude, capazes de não se deixarem abater quando os revezes lhes colocam obstáculos, isso seria um mal ou, pelo contrário, uma vantagem que se ia buscar à velhice dos cidadãos nossos compatriotas?
Não respondo, está bem de ver.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

CORRUPÇÃO



A corrupção é um defeito que ataca o Homem desde que ele existe, talvez mesmo venha de épocas em que os primeiros seres humanos se viram confrontados com apetências de qualquer coisa que o parceiro detinha mas que não estava na sua posse. Roubar, matar, confrontar-se pela força para passar a ser possuidor desse bem desejado, essas foram, na verdade, as primeiras acções a que o animal tido como inteligente recorreu. Mas, com o tempo, descobriu que tinha possibilidade de conseguir o mesmo objectivo, recorrendo à utilização de outro parceiro mais bem colocado para o efeito, trocando favores, normalmente sem dar a conhecer essa habilidade. Assim, terá nascido a corrupção que, com o andar dos tempos, se foi estilizando, se foi aperfeiçoando, ao ponto de ter chegado até à nossa época que, lá muito de vez em quando, é detectada.
Por cá, com este Povo que começou muito cedo a especializar-se em tirar benefícios dessa artimanha, encontra-se neste momento a tirar partido dessa especialização de comprar favores através de manhas que, normalmente mais tarde, são detectadas.
Isto de ter saído a notícia de que há cerca de 925 inquéritos de corrupção pendentes nos Distritos Judiciais do País, boa parte dizendo também respeito a peculato e branqueamento, não estando incluídos nestes números os processos os caos relacionados com as investigações à Câmara Municipal de Lisboa, que têm tratamento autónomo, tal conhecimento do que se encontra em averiguações e, por isso, em segredo de justiça, com o risco de muitos ficarem pelo caminho, mostra perfeitamente como, entre nós, o uso e abuso da compra de influências, que vãodesde os favores para ocupar lugares estratégicos na administração pública, como o conseguir casas para morar, através de falcatruas, como tem sido divulgado todos os dias, tudo isso à custa, muitas vezes, de intervenções político-partidárias, toda essa actuação parece ser a única forma de se conseguirem até licenças camarárias, que nem precisam da actuação de grandes figuras, pois basta o acesso a uns fiscaisitos, que facilmente fecham os olhos, olham para o lado, assobiam uma marcha popular.
Não querer aceitar esta verdade que todos nós conhecemos e, provavelmente, até já nos servimos desses enleios para conseguir o que, pela via normal e correcta, não é possível obter, pôr a cabeça na areia é aceitar aquilo que somos e ficarmos satisfeitos com a realidade, é a maneira mais prática de continuarmos todos na mesma, com crise ou sem ela, satisfaitos com o que somos. E então, é bem feita!

GAVETA


Gaveta que guarda
segredos de outrora
é coisa que tarda
‘inda não é hora
de querer abrir
p’ra não recordar
e ter de engolir
o que a guardar
ficou na gaveta

Era então desgosto
mazelas d’antanho
hoje é já sol posto
papéis não apanho
reler hoje em dia
o que então guardei
isso não faria
nem jamais farei
não abro a gaveta

Não vou eu abri-la
falta-me a vontade
não quero senti-la
dar-lhe liberdade
outros que o façam
sem eu estar a ver
e que se desfaçam
não quero saber

Não estando presente
no mundo dos vivos
quem não vê não sente
nem dá mesmo ouvidos

Também não importa
não estarei p’ra ver
fechou-se a porta
que posso fazer?

Gaveta não puxo
falta-me a coragem
será mesmo um luxo
oferecer viagem
ao que há tantos anos
está encafuado
não causando danos
por estar olvidado

Não vejo agora
quem ficando cá
após minha hora
s’interesse quiçá
por ler o que fica
pois se enquanto vivo
não ligam nem nica
ao que é meu activo
de escrita, pudera,
que o outro se houvesse
seria quimera
seria benesse
bem apetecida
coisa que um poeta
ao longo da vida
não deixa em gaveta.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

MUNDO NOVO

Eu imagino um mundo todo novo
nada parecido com o que temos
albergando também outro povo
outro povo, porém com outros demos

Tudo nada igual ao que temos hoje
nem parecido sequer ao que há
se não, quero um sítio que m’aloje
que me acolha ou me acolherá

No futuro talvez isso aconteça
quem sabe se será a salvação
não é que a geração d’hoje mereça
outro planeta com melhor visão

Mas se não se der tamanho abanão
se tudo se mantiver como agora
nesse caso o que temos então
será a terra sumida de aurora

O ocaso põe-se todos os dias
lembrando os mortais no fim da vida
e que bom seria se as alegrias
sarassem de vez todas as feridas

As feridas com que o homem briga
As doenças, os desgostos, enfim
todos esses males que o obriga
a ser perverso e a ser ruim

Somente com homem diferente e novo
será possível um mundo melhor
podemos esperar algo de um povo
que lhe seja igual ir p’ra onde for ?

Borrar la pizarra y empezar de nuevo
dizem os espanhóis para animar
será que isso pode ter relevo
e a solução é essa: começar!

Segundo as Escrituras foi assim
Deus criou as coisas bem a seu gosto
haverá opiniões e por fim
faz falta ter um mundo mais composto

Já basta de castigo por pecado
oh! Maldita maçã que foi mordida
Eva e Adão pertencem ao passado
Não se quer a História revivida

Gritarão os ventos que a memória
faz parte do viver dos nossos dias
mas por mais que não se esqueça a História
não se pode viver só de agonias

Por mais certo que seja o Testamento
tantos milhões de anos que passaram
justificam que a força do vento
arraste as ideias que pararam

Há que pedir agora ao Senhor
com fé ou sem ela, mas com despacho
que Deus ordene o Paraíso pôr
onde ele faz falta, cá em baixo

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO !


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo a de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ouvir com dificuldade? Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de surdo, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito, talvez possa considerar de mau hábito…
Porque eu tenho considerado que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Só que, na maioria dos casos, este sinal de boa-vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...


domingo, 21 de setembro de 2008

SEMPRE LISBOA, SEM DESCANSO!




Eu tenho a pretensão de pensar que, ninguém que me conheça pelos escritos que divulgo há anos, muitos, se admirará pela persistência que demonstro em temas que considero merecedores de uma atenção especial e em ocasiões específicas. A minha paixão por Lisboa, a tal que tem sido motivo de inúmeras crónicas saídas em diferentes órgãos de comunicação, vem à baila sempre que me surge uma oportunidade de chamar a atenção dos que se encontram em condições de fazer algo de positivo por esta cidade, que muitos outros países, bastante mais ricos do que o nosso, bem gostariam de poder considerar como sua e que, nesse caso, tirariam um enorme partido das belezas naturais e da situação geográfica, com um Tejo a seus pés, de que goza.
Quando ontem e já antes me referi a Helena Roseta que aceitou o convite que lhe foi dirigido por António Costa para tomar a seu cargo a função de terminar com as casas a cair de velhas que, ou abandonadas ou ainda com inquilinos, enxovalham a vista de quem gostaria de ver a capital, com o seu tipicíssimo, isso sim, mas sem o ar de abandono como chegou até agora, quando escrevi há 24 horas estava longe de imaginar que a vereadora já tinha concedido uma entrevista ao “Diário de Notícias”, a que foi publicada hoje e que li com a maior atenção.
Basta-me acrescentar neste espaço que, de uma forma geral, me congratulo com a minha posição de sempre em relação à capital, pois o que Helena Roseta diz de essencial na referida entrevista coaduna-se com o meu pensamento. Só que eu talvez tenha ido mais longe ao apresentar uma hipótese de solução, embora compreenda que a vereadora não poderia abrir tanto o jogo. Até a questão da Banca poder contribuir para a solução do problema, até aí coincidimos. E, quanto à criação de uma Lei de Bases da Habitação, também aí parece que estivemos a conversar sobre o assunto.
Agora, só resta ver o que sai para além das afirmações d entrevistada. Se andamos para a frente e depressa, porque não há tempo a perder, ou se, como é hábito deste País de molengões, ficamos todos satisfeitos com o enunciar soluções, mas depois, dar os passos decisivos doa a quem doer, isso já é outra tarefa que, de uma forma geral, se tem medo de desagradar a este ou àquele e aí, metem-se as mãos nos bolsos e assobia-se para o lado.
Eu, por mim, por muito que me chamem derrotista, não temo tal apodo. O que quero é ver, ainda em vida, alguma coisa a mudar no meu País. E não só em Lisboa. Obviamente no bom sentido.

PENSAMENTO DE ÚLTIMA HORA



A FORÇA PODE AUMENTAR COM A UNIÃO;

O QUE NÃO GARANTE É A RAZÃO

sábado, 20 de setembro de 2008

É A HORA!


Já Pessoa alto gritava
Sua Mensagem divina
Que esta Pátria mal andava
Que navegava à bolina
Sujeita a toda a rapina
De quem bem se colocava

É a hora, dizia ele
P’ra sair do nevoeiro
Surgir a força que impele
Em momento derradeiro
Que transforma o fel em mel
E que venha um novo obreiro

Mas atenção, olho alerta
Que seja alguém desta terra
Que não tenha ordem por certa
Que fuja de qualquer guerra
Sendo denso o nevoeiro
Liberdade por inteiro
É sempre janela aberta

Se Pessoa ‘inda existisse
Cantando a sua “É a Hora”
Diria o que então não disse
Deitava p’la boca fora
Que em lugar de um Bandarra
De alguém com força e mão dura
Seja quem com uma fanfarra
Toque contra a ditadura

Outro rei Sebastião
Mas sem ares de salvador
E com determinação
Que se empenhe com rigor
Na governação do País
É o que se espera afinal
Para um futuro feliz
Desta Pátria: Portugal