terça-feira, 30 de setembro de 2008

FAZER DE CONTA

Nem sempre o que é possível se consegue
fará falta algo, mesmo a fé
é preciso que o que se persegue
deixe de estar longe e fique ao pé

Muitas vezes tem que se dar o passo
ainda que não seja nosso agrado
há que manter fortes nervos de aço
e esquecer o que está ao lado

Por muito que se trate de uma afronta
aquilo que é preciso p’ra vencer
nada poderá ser de grande monta

Pois por mais longe que esteja pronta
o que queremos ver alvorecer
o importante é não fazer de conta


ALBERTO JOÃO


Não se trata de evidenciar regozijo por tomar conhecimento de que um compatriota foi condenado por uma condenação judicial. Mas, sabendo-se de quem se trata, de uma pessoa que usa e abusa dos termos menos apropriados para atingir outras personalidades políticas, sobretudo se pertencerem a grupos partidários diferentes do seu, pelo menos a mim, que não sou madeirense nem faccioso, esta condenação, confesso, provocou-me alguma satisfação.
Eu explico melhor: Alberto João Jardim, o tal desbocado que bem merece que, de vez em quando, seja chamado à colação para ver se consegue interiorizar que a responsabilidade do lugar que ocupa lhe deveria merecer um respeito mais visível pelo conjunto de intervenientes na política, quer se tratem de governantes quer se situem noutras posições menos valorizadas, esse ainda presidente da Madeira, foi agora condenado em 20 mil euros de indemnização a Edite Estrela, eurodeputada, por a ter difamado – é o que diz o veredicto -, chamando-lhe “delinquente”. E, caso curioso, foi o Tribunal Judicial do Funchal quem considerou que Jardim “se excedeu na crítica política”. A razão da fúria jardinista assentou no facto de Edite ter declarado que “a política regional madeirense se consideraria de fachada e sem sensibilidade social”.
Faço este exposição toda porque, primeiro, considero a especialista em língua portuguesa uma pessoa de trato agradável e, segundo, porque deveria a forma como ela usa a nossa língua ser exemplo a seguir pelo deslinguado Jardim, que não respeita ninguém, atirando pela boca fora os maiores despautérios, acabando sempre por perder até a razão, quando a tem, pois quando uma figura pública se exibe, deve ter o maior cuidado em não se exceder, utilizando termos que a população ouve e que, perante essa atitude, não se retrai também quando se confronta verbalmente com um parceiro. Os maus exemplos são mais fáceis de seguir…
Os madeirenses, que têm votado sempre na mesma personalidade política, poderão estar muito contentes com a governação que os dirige. Muito bem. Mas seria bom que levassem em conta que muito do dinheiro que tem contribuído para o progresso, sobretudo urbanístico da Ilha, vem dos cofres do Continente, o que não retira valor ao Alberto João, porque tem dado mostras que o utiliza bem. Mas, mesmo assim… a paciência tem limites!
Agora, o que está ainda para ver é qual a decisãodo Tribunal, perante o recurso com que Jardim respondeu à sua prima condenação. Eu não poria as mãos no fogo por uma decisão antecipada. Pode-se esperar de tudo!...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

SALA DE ESPERA

Estou na sala à espera
do médico para consulta
no estrangeiro, quem me dera
chegar atrasado é multa

Mas aqui nesta terrinha
onde tudo é ao contrário
dá tempo p’ra ladainha
rezar contas do rosário

Paga-se caro aos doutores
mas há que esperar que atendam
mesmo assim fazem favores
doentes que não se ofendam

Os que sofrem de maleitas
e por isso estão doentes
engolem suas desfeitas
são chamados pacientes

Em Portugal é sabido
ninguém tal pergunta faz
pois como certo é tido
de aguentar é capaz

Pergunta-se de rompante
mesmo sendo coerente
quem é o mais importante
o médico ou o doente?

Se se esperam sempre horas
que o médico faça o favor
descontemos as demoras
na consulta do doutor

Acabam-se logo as esperas.


PROBLEMAS RESOLVEM-SE ?









Julgo que não causará grande espanto que eu recorra, com frequência, à ajuda das notícias da Imprensa para encontrar assunto que preencha os meus blogues diários. O que vai acontecendo e que constitui motivo para os jornais tirarem partido dessas novidades, evidentemente por se tratarem de casos merecedores de serem assinalados, suscita-me a mim, que não perderei nunca este vício do jornalismo que pratiquei durante mais de cinquenta anos, a vontade de também dizer de minha justiça.
E isso sobretudo agora, que já lá vai há anos essa maldita Censura e que, neste momento, em que outra tesoura afiada também espreita na comunicação social, esta comandada pelos interesses capitalistas, publicitários e outros e que estão atentos às faltas de domínio nos rapazes das Redacções, pois que nem sempre se pode dizer a verdade, sobretudo quando ela briga com factores que contribuem para que interesses criados sofram moléstias, eu, pelo menos, neste blogue estou isento de tais intervenções.
Vamos então ao que saquei hoje da Imprensa que despertou a minha vontade de dizer de minha justiça: em primeiro lugar, não posso deixar passar um tema que se refere às câmaras municipais e que divulga a notícia de que os municípios de todo o País estão a “arder” com milhões de euros, em virtude das rendas sociais que não conseguem ser cobradas e de que pouco têm valido os planos de pagamento faseados e as acções em tribunais. Quanto a estas últimas, não causa a menor admiração, sabendo-se como se sabe como anda a Justiça neste nosso País. No caso do município lisboeta, a notícia é clara ao anunciar que o montante por cobrar atinge já os 13 milhões de euros e que muitas das rendas em dívida não chegam a uma centena por mês. E o escândalo maior é que se sabe que há famílias que não pagam as rendas das suas casas sociais mas têm rendimentos que ultrapassam o milhar de euros mensais e algumas delas ostentam à porta dos seus lares viaturas de alto custo.
Isto é um dos muitos casos que se podem apontar neste nosso belo País solarengo, em que a Justiça, quer para um lado quer para outro, anda de olhos, de ouvidos e de nariz fechados. Tudo dorme nos nossos tribunais, apesar das montanhas de papel que se descortinam nos seus corredores, cada vez que temos necessidade de entrar num desses edifícios. E não há ninguém, com “eles” no seu sítio, que seja capaz de, uma vez por todas, meter juízes, sistemas, leis, seja lá o que for na ordem.
Vamos agora ao segundo assunto: João Loureiro, o filho do outro, o major, deve 77 mil euros à Segurança Social. Tratam-se de quotizações retidas dos salários de trabalhadores do clube axadrezado, referentes ao período de Maio a Novembro de 2007. E a lista de ordenados sobre os quais recaem as faltas de pagamento pelo Boavista Futebol Clube, que vão desde os 6 mil até aos 84 mil euros mensais. Uma ninharia!... Claro que, também neste caso, a Justiça marca passo. E não é contras os devedores que se justifica este texto. É sempre e só para assinalar que o nosso Ministro da Justiça – este e os anteriores -, os serviços judiciais de uma forma geral, toda essa gente que, em muitos casos, funciona em verdadeiros palácios ou edifícios imponentes (veja-se o caso de Sintra – para não deixar de referir também, e em contradição, certos pardieiros onde o respectivo pessoal se movimenta), mas que, quanto a resultados são aqueles que todos os portugueses conhecem.
Finalizemos, então, com o derradeiro tema de hoje: é que há 4.287 médicos estrangeiros a exercer a sua profissão nos hospitais públicos portugueses, número este que vai aumentar, pois que os existentes não chegam para as necessidades. E são das mais variadas origens esses profissionais da medicina que cá estão a prestar a sua actividade, desde a América do Sul até à União Europeia e da própria Europa de Leste. Isto, enquanto se mantém por cá, teimosamente, a norma de exigência de uma média muito elevada dos alunos saídos do secundário, fazendo até que bastantes desses estudantes sejam forçados a seguir a carreira de medicina em Espanha, onde essa obrigatoriedade não se verifica. Isto que eu escrevo para aqui são assuntos que, de uma forma geral, os portugueses conhecem e comentam entre portas. Todos saberão? Não, os homens dos Governos que nos têm “governado”, esses andam por outros espaços, Não se dão conta de nada do que é mais urgente solucionar neste cantinho que se agacha aqui na Península Ibérica. Claro, que andam preocupados com os tais submarinos, com os novos aeroportos, com as TVG e com tudo que, por mais útil que seja… só não é o mais urgente. Pode esperar

domingo, 28 de setembro de 2008

CHULARIAS

Eu não brinco às escondidas
com tudo sério nas vidas
enfrento bem de frente, o tufão
por maior empurrão
vários por cá já passaram
que tristes marcas deixaram
ao apurar o saldo, qu' alegria
saber que nunca recebi alforria
sempre recusei alpista
na minha profissão de jornalista
isso grande desconsolo
dos que queriam o bolo
sobretudo dos favores
dos louvores
das honrarias
que lhes dão as chularias
de quem sobe à custa dos demais
e que quer sempre mais e mais.
Mas comigo, não
nunca fui mamão !

MÁRIO SOARES


Foi hoje publicada num diário uma extensa entrevista com Mário Soares. Aí, a frase de chamamento para a as perguntas e respostas é a de que “José Sócrates é o anti-Guterres”, realçando que o antigo primeiro-Ministro é um homem “que não sabe dizer não”.
Isto fez-me recordar tempos passados em que o que foi Presidente da República, antes de ocupar esse cargo e na altura em que exercia funções de chefe do Governo, proclamava à boca cheia que se considerava, perante os seus ministros no Executivo, como “uno inter pares”, o que, na altura, levantou até uma questão entre mim e o homem de Estado. Na verdade, tendo eu tido oportunidade de, na qualidade de jornalista e de director de um semanário, ter acompanhado Mário Soares em dez viagens que então foram efectuadas a diversas partes do mundo, sobre tudo na Europa, pois havia a preocupação, aliás bem sucedida, de convencer os parceiros do nosso Continente a aceitarem Portugal como futuro membro da Comunidade Europeia, como veio a suceder depois, pois foi numa dessas viagens, em que conversávamos bastante durante os trajectos, que eu mostrei o meu desacordo quanto a isso de um primeiro-ministro poder ser mais um parceiro do conjunto governamental, em lugar de exercer o exercício com plena autoridade sobre os seus colaboradores mais directos na governação, não tendo até complexos em substituir os que não estivessem a corresponder às funções que lhes tinham sido confiadas. Estávamos, portanto, em desacordo. Isso do “uno inter pares” com a responsabilidade de levar com competência as rédeas de um governo, poderia ser muito “porreiraço” mas não correspondia ao que um país exigia do seu principal governante. Sobretudo, se existisse no seio do seu grupo, um ou mais que não estivessem a ser capazes de executar as tarefas que lhes cabiam.
Logo, vir agora acusar Guterres de ter sido um governante incapaz de dizer não, a mim, que conheci bem Mário Soares naquela época atrás referida, parece-me um dos esquecimentos que também sei que lhe são muito correntes, numa memória seguramente muito preenchida com outros assuntos mais importantes do que este. Estou certo de que este meu Amigo já não se recorda que, uma vez em Nova Iorque, ao termos ficado instalados num hotel que eu já conhecia de outras visitas anteriores, sentindo-se ele muito aperreado pela segurança americana demasiado apertada, me mostrou o desejo de ir comprar uma camisa e não querer ser seguido por aqueles polícias. Foi aí que valeu eu conhecer uma porta do hotel nas traseiras que utilizámos, e lá fomos os dois a caminho das lojas na rua 7ª (parece-me) e quando regressámos com embrulhos, o meu Amigo Mário fez questão de utilizar a porta principal, onde se encontravam vários dos seguranças de serviço que, ao vê-lo vir do exterior, ficaram todos claramente surpreendidos. Foi uma verdadeira partida à Mário Soares, de que eu tenho outras para contar um dia, caso venham a talho de foice… O fim da minha longa actividade jornalística, antes e depois do 25 de Abril, provocou depois entre nós um afastamento que me deixa muitas saudades, pois eu posso assegurar que, como companheiro de viagem, é das mais interessantes figuras que tenho conhecido e vem-me sempre à memória um célebre jantar que tivémos um dia no aeroporto de Londres, quando o nosso avião, que se dirigia dalí a Washington, teve de voltar para trás por motivos técnicos. Que engraçado que foi tudo, apesar das contrariedades com o cumprimento de horários, sobretudo para o então ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira...

sábado, 27 de setembro de 2008

ÁGUA

Já cá estavas quando eu nasci
bebi-te ainda sem saber quem eras
terei gostado, sim, gostei deveras
matando a sede, por isso sorri

Ó água pura que ainda existes
nem nisso pensam as gentes de hoje
se algum dia esse bem nos foge
será então que ficamos mais tristes

E esse dia terá que chegar
mesmo dizendo não os optimistas
é preciso não desviar as vistas
do mal que poderá todos matar

Água salgada, essa aumentará
mas tirar-lhe o sal é difícil cousa
na terra a que ainda repousa
virá o dia em que acabará

A Igreja chama-lhe água benta
e com esta baptiza as criancinhas
serão elas talvez, as pobrezinhas,
que terão de enfrentar tal tormenta

É ainda o líquido precioso
que tem servido para enganar
misturado no que se vai provar
pois é vício deste mundo enganoso

E na vida faz bem ter certa fé
é muito bom crer no que quer que seja
e em vez de água beber cerveja
como em seu lugar tomar água pé

Mas para ambas é essencial
essa água que não pode faltar
da mesma forma que não haver ar
é morte certa p‘ra qualquer mortal

Mas será que neste mundo em mudança
onde tudo se inventa cada dia
alguém conseguirá a utopia
de atingir a bem-aventurança?

Não sendo a água já tão necessária
ficamos nesse caso descansados
temos de olhar para outros lados
para outra coisa também primária

Porque não acabam as aflições
excesso de gente causa problemas
e serão tais os vários dilemas
que o melhor é não ter ilusões



ÁGUA POTÁVEL


Já cá não estarei em 2025. Logo, o problema não me diz respeito. Mas, de acordo com uma notícia publicada hoje, de que, nesse ano, Portugal e Espanha serão os dois países europeus mais afectados pelo aquecimento global, razão pela qual, segundo afirmação do periódico, não vai haver nessa altura água potável na Península Ibérica, levando em consideração previsões das Nações Unidas, o que justifica que vão aumentando as recomendações para se poupar, o mais possível, aquele precioso líquido, repito, aceitando esse prognóstico, temos todos de começar a estar preocupados, sobretudo os mais novos, levando em conta que essa altura fatídica apanhará em plena vivência milhões de cidadãos, quer os que habitem esta ponta da Europa quer os outros que, a pouco e pouco, poderão ir sentindo os efeitos daquela carência que, os que já atravessaram um deserto, conhecem bem o que significa escorropichar o fundo da garrafa e não sentir sair nem pinga dessa bebida inimitável que se chama água.
Claro que os do copo meio cheio vêm já afirmar que o Homem, com o seu poder de ir inventando soluções para os problemas, irá buscar, talvez mesmo aos oceanos, a resposta a tamanha catástrofe. Já se sabe que isso é possível, mas também se conhece que o custo e a escassez de quantidade que se pode obter hoje com essa operação, não conseguem dar resposta às necessidades do consumo de todos os habitantes da Terra.
Bem. Mas deixemos esse assunto para ser resolvido quando chegar a altura de ter de ser resolvido. Ainda faltam para aí uns dezassete anos. E as centrais de dessalinização que já existem serão certamente desenvolvidas para afastar o susto que muita gente irá apanhar. Por agora, ficamo-nos – e não é pouco – com a ameaça que cientistas já não escondem de que o degelo que se está a verificar vai aumentar o nível da água do mar cerca de sete metros. E que esta subida da água salgada irá invadir e contaminar os depósitos de água doce. Isto já chega, por agora., como susto.
Resta-nos esperar pelas frases de sossego dos optimistas, pois graças a eles diminuirá a preocupação que possa ir surgindo, não só nos que lêem este blogue mas em todos que fazem os possíveis para não andar distraídos neste mundo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

DESCOBRIR O ÍNTIMO

Fiquei surpreendido? Talvez nem tanto. Quem, no grupo em que me julgo poder incluir, de pessoas que, durante toda a vida ouviu mais do que disse coisas, já é possível aceitar afirmações de que o interior do próximo está à disposição de qualquer um, não constituindo segredo mesmo aquilo que nós próprios não temos muito a certeza de poder descrever sem erro, tomar conhecimento dessa opinião a nosso respeito pode-se aceitar e mesmo que não coincida muito com o que julgamos ser a realidade, é um gesto do próximo que, pelo menos a mim, não me deixa boquiaberto.
Vem isto a talho de foice porquê? Porque provoquei e, por isso, li aquilo que uma parente minha me enviou por mail, abrindo-se completamente num julgamento que, provavelmente, terá os seus laivos de razoabilidade.
Falou da tristeza das minhas prosas e, sobretudo, das minhas poesias que, sem o afirmar, poderá ter apelidado de choronas. Fez um elogio às minhas pinturas, mas mostrou desapontamento por eu não ser conhecido nesse campo artístico, e, no fundo, apesar da grande diferença de idades que nos separa, estudou uma estatística em que pretende provar que, ao longo dos meus 78 anos, uma grande percentagem foi de felicidade, o que não justificava os poucos momentos de alegria que ainda consigo mostrar.
Fiquei a pensar, o tempo que considerei bastante, nestas considerações e pus-me a esmiuçar grande parte dos momentos da minha vida passada. E cheguei à conclusão de que será excessivo pretensiosismo nós querermos analisar o íntimo dos outros e ainda mais concluir sobre a felicidade ou infelicidade que cada um acarreta no seu íntimo. E lembrei-me da história conhecida do rei que, querendo ele ser feliz, porque o não era, mandou analisar no seu reino quem se podia considerar como um súbdito que gozasse de plena felicidade. Ao virem-lhe dizer que tinha sido encontrado um homem que resplandecia felicidade, um pastor, mandou imediatamente que lhe fossem buscar a camisa que vestia, porque um mestre em seu redor lhe teria dito que devia vestir a camisa da felicidade para poder gozar dela. O desconsolo maior foi quando lhe vieram dizer que o tal pastor pleno de felicidade… não tinha nenhuma camisa!
Esta história, que não é nova, serve-me sempre para reflectir sobre a opinião que formamos dos outros, pretendendo entrar no seu mais profundo do íntimo, apresentando recomendações e remédios como quem se avia na botica, mas esquecendo que o que o próximo necessita não está à disposição de qualquer e não é por emprestar uma camisa que se transforma uma pessoa, de má em boa, de feia em bonita, de incompetente em sábio… e assim por diante.
Se souberem de alguém que disponha em excesso de talento, por favor tragam-me à minha presença para eu lhe pedir uma mãozinha, por mais pequena que seja, desse dom.

CERTEZAS E DÚVIDAS


Mas que bom é ter certezas
e nunca se enganar
é para dissimular
muitas de outras fraquezas

Não se pode acreditar
em quem se julga perfeito
porque um ser sem defeito
deve ser de agoniar

Por pequenina que seja
qualquer saída da norma
é ser-se de qualquer forma
alguém que às vezes graceja

Mas são assim os sisudos
e por certo convencidos
têm de ser atrevidos
e estar muito tempo mudos

Reconheço erros meus
não me deixo equivocar
estou-me sempre a enganar
tal qual sucede a Deus

Quando aceita homens desses
que se julgam infalíveis
o Criador baixa os níveis
e não ouve bem as preces

Ainda bem, eu cá digo
que as dúvidas não me deixam
como disso alguns se queixam
não será pois um castigo

Antes dúvida parece
para ajudar a saber mais
em abrir novos canais
e é prova do interesse

Gente, pois, só com certezas
e a isso um dom chamam
estão nos que as não proclamam
e não entendem as defesas

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

HÁ VELHOS E VELHOS!...

Vou agora tratar de dois temas que, entre si, aparentemente não têm nada a ver um com o outro. Mas, se pensarmos bem, talvez encontremos alguma ligação. Vamos a isso.
Primeiramente refiro-me a uma notícia dada à luz hoje por um diário que, embora nesta altura, se encontre longe da conquista de leitores, continua ainda a gozar de certa reputação, reputação essa que lhe vem do passado, até do tempo em que fazia todos os fretes ao situacionismo salazarista: o “Diário de Notícias”.
Muito embora se trate de um tema que nós, os que vamos estado atentos ao que nos rodeia no nosso dia-a-dia, sejamos despertados a cada passo com essa realidade, nem sempre paramos para pensar nas consequências respectivas. Trata-se desta triste verdade de que o Porto perde população e Lisboa envelhece a olhos vistos.
De facto, ainda hoje me pus a observar, da janela da minha casa, na capital, as pessoas que iam passando, e deparei com o que já me tinha despertado curiosidade, mas que, neste momento, depois de ter absorvido a notícia, me causou a maior das tristezas. A percentagem de gente de idade que passava aparentava ser superior à juventude e até mesmo a pessoas no meio da vida que por aqui circulavam. Tratando-se de uma capital que atingiu mais de 1 milhão e oitocentos mil habitantes – o que não quer dizer residentes na cidade propriamente dita -, se o estudo efectuado pela União Europeia não estiver muito enganado e se for certo que a percentagem de gente com mais de 65 anos que por cá se movimenta é de 24 por cento, isso quer dizer que a gente nova está a encontrar outros lugares para seguir a sua vida, o que também não é uma novidade muito surpreendente, pois sabe-se que as condições de vida por estes sítios não são de molde a convidar, quer os licenciados quer os que estão disponíveis para utilizar a mão-de-obra, a permanecerem na terra onde nasceram, porque as perspectivas de futuro não são suficientemente convidativas.
Esta, uma notícia que deve fazer pensar os governantes, os que estão e os que surgirem depois. Porque quer dizer que o futuro se apresenta tristonho. A menos que… e com estes três pontos, deixo a quem me ler a possibilidade de imaginarem tudo o que acharem mais adequado à situação.
Bem, vamos agora à segunda questão que, não se relacionando directamente com este País de velhos, alguma coisa a liga, dada a idade do visado na notícia que também surgiu hoje num diário. Trata-se do Ministério Público voltar a acusar o presidente do Município de Gondomar de prevaricação, no caso numa operação que envolve a compra e revenda de um terreno, num processo conhecido pela Quinta do Ambrósio, e cujo negócio permitiu aos intervenientes um lucro de três milhões de euros. Para além de Valentim Loureiro, foram também notificados mais dez arguidos e, ademais do crime de prevaricação, o major é ainda acusado de burla qualificada, participação em negócio como titular de cargo público.
É sabido que o antigo capitão que foi expulso do Exército por acusação de ganhar dinheiro com a compra de mantimentos para a tropa (pelo que passou a ser conhecido pelo “capitão das batatas”), acusação essa de que foi ilibado, recuperando a sua integração de novo na tropa e então com o posto imediatamente superior, o de major, tendo-se reformado posteriormente, este agora primeira figura do Município de Gondomar, cujo lugar ganhou pela segunda vez, não sendo um jovem e dando sempre mostras de uma ambição política que o coloca constantemente nas primeiras páginas dos jornais e nas aparições televisivas, exactamente pela força da idade atingida, que lhe proporcionou sempre não ser uma ignorada figura pós-25 de Abril, relaciona-se com a notícia do envelhecimento da população portuguesa, pois só muita experiência de vida poderá proporcionar a um homem como o Major, não se deixar abater perante situações, várias, que o têm feito desbravar e, pelos vistos, com sucesso e com fortuna.
É caso para perguntar: se houvesse muitos portugueses assim, já fora da altura da juventude, capazes de não se deixarem abater quando os revezes lhes colocam obstáculos, isso seria um mal ou, pelo contrário, uma vantagem que se ia buscar à velhice dos cidadãos nossos compatriotas?
Não respondo, está bem de ver.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

CORRUPÇÃO



A corrupção é um defeito que ataca o Homem desde que ele existe, talvez mesmo venha de épocas em que os primeiros seres humanos se viram confrontados com apetências de qualquer coisa que o parceiro detinha mas que não estava na sua posse. Roubar, matar, confrontar-se pela força para passar a ser possuidor desse bem desejado, essas foram, na verdade, as primeiras acções a que o animal tido como inteligente recorreu. Mas, com o tempo, descobriu que tinha possibilidade de conseguir o mesmo objectivo, recorrendo à utilização de outro parceiro mais bem colocado para o efeito, trocando favores, normalmente sem dar a conhecer essa habilidade. Assim, terá nascido a corrupção que, com o andar dos tempos, se foi estilizando, se foi aperfeiçoando, ao ponto de ter chegado até à nossa época que, lá muito de vez em quando, é detectada.
Por cá, com este Povo que começou muito cedo a especializar-se em tirar benefícios dessa artimanha, encontra-se neste momento a tirar partido dessa especialização de comprar favores através de manhas que, normalmente mais tarde, são detectadas.
Isto de ter saído a notícia de que há cerca de 925 inquéritos de corrupção pendentes nos Distritos Judiciais do País, boa parte dizendo também respeito a peculato e branqueamento, não estando incluídos nestes números os processos os caos relacionados com as investigações à Câmara Municipal de Lisboa, que têm tratamento autónomo, tal conhecimento do que se encontra em averiguações e, por isso, em segredo de justiça, com o risco de muitos ficarem pelo caminho, mostra perfeitamente como, entre nós, o uso e abuso da compra de influências, que vãodesde os favores para ocupar lugares estratégicos na administração pública, como o conseguir casas para morar, através de falcatruas, como tem sido divulgado todos os dias, tudo isso à custa, muitas vezes, de intervenções político-partidárias, toda essa actuação parece ser a única forma de se conseguirem até licenças camarárias, que nem precisam da actuação de grandes figuras, pois basta o acesso a uns fiscaisitos, que facilmente fecham os olhos, olham para o lado, assobiam uma marcha popular.
Não querer aceitar esta verdade que todos nós conhecemos e, provavelmente, até já nos servimos desses enleios para conseguir o que, pela via normal e correcta, não é possível obter, pôr a cabeça na areia é aceitar aquilo que somos e ficarmos satisfeitos com a realidade, é a maneira mais prática de continuarmos todos na mesma, com crise ou sem ela, satisfaitos com o que somos. E então, é bem feita!

GAVETA


Gaveta que guarda
segredos de outrora
é coisa que tarda
‘inda não é hora
de querer abrir
p’ra não recordar
e ter de engolir
o que a guardar
ficou na gaveta

Era então desgosto
mazelas d’antanho
hoje é já sol posto
papéis não apanho
reler hoje em dia
o que então guardei
isso não faria
nem jamais farei
não abro a gaveta

Não vou eu abri-la
falta-me a vontade
não quero senti-la
dar-lhe liberdade
outros que o façam
sem eu estar a ver
e que se desfaçam
não quero saber

Não estando presente
no mundo dos vivos
quem não vê não sente
nem dá mesmo ouvidos

Também não importa
não estarei p’ra ver
fechou-se a porta
que posso fazer?

Gaveta não puxo
falta-me a coragem
será mesmo um luxo
oferecer viagem
ao que há tantos anos
está encafuado
não causando danos
por estar olvidado

Não vejo agora
quem ficando cá
após minha hora
s’interesse quiçá
por ler o que fica
pois se enquanto vivo
não ligam nem nica
ao que é meu activo
de escrita, pudera,
que o outro se houvesse
seria quimera
seria benesse
bem apetecida
coisa que um poeta
ao longo da vida
não deixa em gaveta.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

MUNDO NOVO

Eu imagino um mundo todo novo
nada parecido com o que temos
albergando também outro povo
outro povo, porém com outros demos

Tudo nada igual ao que temos hoje
nem parecido sequer ao que há
se não, quero um sítio que m’aloje
que me acolha ou me acolherá

No futuro talvez isso aconteça
quem sabe se será a salvação
não é que a geração d’hoje mereça
outro planeta com melhor visão

Mas se não se der tamanho abanão
se tudo se mantiver como agora
nesse caso o que temos então
será a terra sumida de aurora

O ocaso põe-se todos os dias
lembrando os mortais no fim da vida
e que bom seria se as alegrias
sarassem de vez todas as feridas

As feridas com que o homem briga
As doenças, os desgostos, enfim
todos esses males que o obriga
a ser perverso e a ser ruim

Somente com homem diferente e novo
será possível um mundo melhor
podemos esperar algo de um povo
que lhe seja igual ir p’ra onde for ?

Borrar la pizarra y empezar de nuevo
dizem os espanhóis para animar
será que isso pode ter relevo
e a solução é essa: começar!

Segundo as Escrituras foi assim
Deus criou as coisas bem a seu gosto
haverá opiniões e por fim
faz falta ter um mundo mais composto

Já basta de castigo por pecado
oh! Maldita maçã que foi mordida
Eva e Adão pertencem ao passado
Não se quer a História revivida

Gritarão os ventos que a memória
faz parte do viver dos nossos dias
mas por mais que não se esqueça a História
não se pode viver só de agonias

Por mais certo que seja o Testamento
tantos milhões de anos que passaram
justificam que a força do vento
arraste as ideias que pararam

Há que pedir agora ao Senhor
com fé ou sem ela, mas com despacho
que Deus ordene o Paraíso pôr
onde ele faz falta, cá em baixo

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO !


Com frequência arrima-se-me ao pensamento a pergunta para a qual ainda não encontrei resposta: francamente, será que eu gostaria de ter a característica dos fingidores? E, neste particular, sobretudo a de ser capaz de transmitir a ideia de que aquilo que acabou de me ser dito e que não dá sinais de ter o mínimo interesse para sustentar uma conversa, essa palavra ou frase não foi ouvida por mim, dando eu os ares de ouvir com dificuldade? Serei eu, portanto, capaz de fazer o papel de surdo, quando isso me convém?
Eu, por mim, já dei com pessoas que utilizaram esse truque comigo. Sobretudo quando, fazendo uso da minha condição de ser mais velho e de evidenciar mais saber que o meu interlocutor, pretendendo fazer uma correcção no discurso que estava a ser proferido pelo outro, avancei com uma sentença e deparei, depois disso, com o tal ar de quem não tinha entendido uma palavra que fosse possível extrair da minha fala.
Agora, da minha parte, nunca recorri a essa fuga para não ter de alimentar um diálogo que não merecia o menor segundo de atenção. Sempre caí na tentação de dar réplica, de alimentar a asneirada, de deitar achas para a fogueira do disparate. Replicar, tentar convencer o parceiro de que aquilo que ele acabou de dizer não tem ponta por onde se lhe pegue, esse é o meu hábito, talvez possa considerar de mau hábito…
Porque eu tenho considerado que o mais natural, o mais lógico e até mesmo o mais humano é fazer frente ao que acaba de ser proferido e tentar ser didáctico, corrigindo, argumentando com lógica, mas não deixando que persista o erro que grassa no outro. Só que, na maioria dos casos, este sinal de boa-vontade, este interesse em ajudar não é bem acolhido pela outra parte, criando-se até uma situação de mal-estar e de indignação por parte de quem é corrigido. E o mais sensato nestes casos é deixar passar e não intervir com propósitos de corrector.
No meu caso, porém, tenho grande dificuldade em fazer de fingidor. A minha cara não condiz com o gesto. Pôr o ar de quem é surdo, tendo ouvido perfeitamente o que me foi dito, não é fácil. Não tendo o espírito do enganador, será necessário muito treino e, mesmo assim, não há garantia de sucesso com essa interpretação de palco. Fazer de conta necessita de muito treino, para além da forma de ser própria que alguns cultivam. E quando me atiram com expressões como “espectacular”, por tudo e por nada, e intercalam no meio das frase aquele “digamos” que não vem nada a propósito, nessas ocasiões não há fingimento que resista.
Bem me apetece, por vezes, fazer o tal papel do surdo, de deixar correr o discurso do outro sem a menor intervenção da minha parte, de pôr até um sorriso simpático de quem está a apreciar muito a conversa. Mas sinto que não sou convincente. Fico até com a impressão de que deixo um rasto de falsidade que saberá ainda pior do que a franqueza que pusesse nas minhas observações.
Mas a vida é assim. Ingrata. Fomentadora de enganos e deslealdades. Há, pois, que suportá-la tal como ela se nos apresenta. Se não nos adaptamos às suas circunstâncias e procuramos fazer intervenções correctivas à nossa maneira, o menos que nos pode acontecer é ficarmos isolados do mundo, sendo tidos como seres insociáveis.
Ao fingimento, então!...


domingo, 21 de setembro de 2008

SEMPRE LISBOA, SEM DESCANSO!




Eu tenho a pretensão de pensar que, ninguém que me conheça pelos escritos que divulgo há anos, muitos, se admirará pela persistência que demonstro em temas que considero merecedores de uma atenção especial e em ocasiões específicas. A minha paixão por Lisboa, a tal que tem sido motivo de inúmeras crónicas saídas em diferentes órgãos de comunicação, vem à baila sempre que me surge uma oportunidade de chamar a atenção dos que se encontram em condições de fazer algo de positivo por esta cidade, que muitos outros países, bastante mais ricos do que o nosso, bem gostariam de poder considerar como sua e que, nesse caso, tirariam um enorme partido das belezas naturais e da situação geográfica, com um Tejo a seus pés, de que goza.
Quando ontem e já antes me referi a Helena Roseta que aceitou o convite que lhe foi dirigido por António Costa para tomar a seu cargo a função de terminar com as casas a cair de velhas que, ou abandonadas ou ainda com inquilinos, enxovalham a vista de quem gostaria de ver a capital, com o seu tipicíssimo, isso sim, mas sem o ar de abandono como chegou até agora, quando escrevi há 24 horas estava longe de imaginar que a vereadora já tinha concedido uma entrevista ao “Diário de Notícias”, a que foi publicada hoje e que li com a maior atenção.
Basta-me acrescentar neste espaço que, de uma forma geral, me congratulo com a minha posição de sempre em relação à capital, pois o que Helena Roseta diz de essencial na referida entrevista coaduna-se com o meu pensamento. Só que eu talvez tenha ido mais longe ao apresentar uma hipótese de solução, embora compreenda que a vereadora não poderia abrir tanto o jogo. Até a questão da Banca poder contribuir para a solução do problema, até aí coincidimos. E, quanto à criação de uma Lei de Bases da Habitação, também aí parece que estivemos a conversar sobre o assunto.
Agora, só resta ver o que sai para além das afirmações d entrevistada. Se andamos para a frente e depressa, porque não há tempo a perder, ou se, como é hábito deste País de molengões, ficamos todos satisfeitos com o enunciar soluções, mas depois, dar os passos decisivos doa a quem doer, isso já é outra tarefa que, de uma forma geral, se tem medo de desagradar a este ou àquele e aí, metem-se as mãos nos bolsos e assobia-se para o lado.
Eu, por mim, por muito que me chamem derrotista, não temo tal apodo. O que quero é ver, ainda em vida, alguma coisa a mudar no meu País. E não só em Lisboa. Obviamente no bom sentido.

PENSAMENTO DE ÚLTIMA HORA



A FORÇA PODE AUMENTAR COM A UNIÃO;

O QUE NÃO GARANTE É A RAZÃO

sábado, 20 de setembro de 2008

É A HORA!


Já Pessoa alto gritava
Sua Mensagem divina
Que esta Pátria mal andava
Que navegava à bolina
Sujeita a toda a rapina
De quem bem se colocava

É a hora, dizia ele
P’ra sair do nevoeiro
Surgir a força que impele
Em momento derradeiro
Que transforma o fel em mel
E que venha um novo obreiro

Mas atenção, olho alerta
Que seja alguém desta terra
Que não tenha ordem por certa
Que fuja de qualquer guerra
Sendo denso o nevoeiro
Liberdade por inteiro
É sempre janela aberta

Se Pessoa ‘inda existisse
Cantando a sua “É a Hora”
Diria o que então não disse
Deitava p’la boca fora
Que em lugar de um Bandarra
De alguém com força e mão dura
Seja quem com uma fanfarra
Toque contra a ditadura

Outro rei Sebastião
Mas sem ares de salvador
E com determinação
Que se empenhe com rigor
Na governação do País
É o que se espera afinal
Para um futuro feliz
Desta Pátria: Portugal

VELHINHA LISBOA

Quando um semanário, saído hoje, com uma tiragem que, pelo menos, justifica a aceitação que merece do público, apresenta em letras garrafais a informação de como “Portugal vai fazer para resistir à crise”, o que demonstra a tentativa de criar ilusões aos crentes nas medidas que são indicadas, pois, quanto a mim, nenhuma das medidas apresentadas vai fazer o “milagre” de obrigar a crise mundial a passar em redor do nosso País e não nos atingir minimamente, embora, devo dizê-lo, qualquer das quatro principais actuações previstas, não sejam pior do que não fazer nada, repito, quando um jornal semanal chama a si a responsabilidade de apontar medidas que considera serem remédios para a situação dramática que temos vivido e que dá mostras de se agravar ainda alguma coisa, encho-me eu de coragem e aponto também, embora mais modestamente, a forma de acabar com a horrorosa demonstração de velhice crónica que é o espectáculo dos prédios a cair de velhos que existem em Lisboa.
É verdade, este tema tem sido debatido por mim em diferentes ocasiões. Muito antes até de existir este meu blogue, mas, como a solução que eu defendo não tem custos elevados para o erário público – neste caso para os cofres do município da capital, atrevo-me a expor aqui o que eu faria se me chamasse Helena Roseta e me calhasse a responsabilidade de resolver um problema que, há anos, muitos, pede uma atitude positiva da Câmara. Mas, acima de tudo, requer muita imaginação, força de trabalho, honestidade absoluta para não aproveitar uma ocasião que pode dar ganhos a quem não for completamente isento de abusos, em obviamente, apoio de toda a Edilidade, pois que sozinho, contra más vontades políticas de outros sectores, não é possível levar avante tamanha tarefa.
Passo a explicar em teoria o que se poderia fazer para obter bons resultados em tempo aceitável: Suponhamos uma situação modelo. Uma velha casa, de dois andares, onde ainda vive uma família de gente idosa e bastante pobre. O senhorio, também idoso e desprovido de meios para fazer obras na moradia, recebe uma renda de 100 euros mensais. E isto acontece há anos, com a teimosia do dono da casa que não quer vendê-la por ter amor a uma casita que já era dos seus avós.
Faço este cenário, para mostrar como no meio deste cenário todo entra uma certa compaixão. Nem se podem pôr na rua os inquilinos, nem é possível obrigar o senhorio a fazer obras. E é aqui que, com uma lei ajustada às circunstâncias – que se não existe deveria ser estudada rapidamente para permitir solucionar situações como esta -, deveria a Câmara Municipal substituir-se ao inquilino, continuando a entregar os 100 euros ao senhorio, arranjando residência provisória aos inquilinos que eram obrigados a sair do prédio em ruínas e dando início, de imediato, ao arranjo da casa velha, podendo até aumentar a sua área, em largura e em altura, pouca, para, dentro de um prazo aceitável, receber os inquilinos afastados, num espaço estudado pelos arquitectos que tivesse as condições mínimas de vivência, continuando estes a pagar a renda que tinham ( e enquanto fossem vivos os idosos) e dispondo o Município do resto do espaço do prédio para alugar a gente jovem, por forma a restabelecer a vivência que falta sobretudo no centro de Lisboa e nos bairros típicos, como Alfama, Mouraria e até a Baixa de uma forma geral.
Claro que haveria um período em que o Município teria de despender alguma coisa com as obras, mas é para isso que também servem os Bancos, que fariam um acordo no sentido de dar a sua contribuição para remodelar a cara e a vida da Capital.
Aí está, pois, uma ideia que mantenho há muito tempo quanto a não ficarmos a olhar, de braços cruzados, para o abandono e envelhecimento degradante de grande parte de Lisboa de outras eras. Claro que os empreiteiros de “monstros” de cimento, desses que se encontram em excessiva abundância e que retiram o carácter tão específico da nossa querida Lisboa, Mas, já basta de famílias encravadas, das que não têm possibilidade de pagar aos bancos os juros e as prestações que lhes caíram em cima, sendo agora obrigados a vender e a não encontrar quem lhes queira ficar com esse bem que foi adquirido sem prever o que aconteceria, anos mais tarde, de subida dos custos, dos desempregos e de toda a crise que se alastra por este País fora.
Chamem a esta proposta o que quiserem. Eu, por mim, farto de, ao longo dos anos, ter deixado pelo caminho propostas e soluções para que a nossa linda Lisboa não se continue a transformar numa cidade que só mostras as suas rugas de velhice e não encontra um Município que lhe preste as operações de rejuvenescimento, por mais cansado que esteja, enquanto me sentir com cabeça para opinar, não deixo de o fazer.
Por pouco que valham os meus gritos!...