sábado, 9 de agosto de 2008

UMA LIÇÃO DOS CHINESES


Todos nós, pela vida fora, ocupamos parte do nosso tempo a pensar no mundo que nos rodeia, naquele que se encontra à nossa volta, mas também no que está afastado geograficamente mas que, com a rapidez das notícias que as modernas tecnologias nos oferecem, por vezes tocam-nos mais perto do que um acontecimento que se tenha dado mesmo à nossa porta. E quando me refiro a “nós”, quero dizer os que se interessam pela evolução do mundo, pelo aparecimento de novos problemas, geralmente criados pelos homens, pelas novidades tristes mas também pela evolução favorável de situações que o mesmo homem consegue transpor. E tudo isso dá que pensar, a menos que passemos por este mundo completamente indiferentes ao que sucede, admitindo sempre que “não é nada connosco!” .
Mas, queiramos ou não, por muito longínqua que seja a situação que ocorra, mais tarde ou mais cedo alguma faúlha nos acaba por cair, por muito ao de leve que ela nos atinja.
Podia apresentar aqui uma dezena de exemplos, mas creio que os tais “nós” não precisam de explicações para atingir o que pretendo dizer nesta minha afirmação.
Por agora, fico-me no acontecimento que todo o mundo acompanha e refiro-me ao espectáculo inigualável, preparado com todos os requintes de uma organização que mostrou não tomar as iniciativas de ânimo leve e não as pôr em prática sem um profundo estudo e uma programação que assenta em preparativos meticulosamente ensaiados. Nada daquilo que o mundo viu foi fruto de uma improvisação a ver se saia bem. No que a nós diz respeito, não temo afirmar que nós, portugueses, sobretudo os que nos governam, tivemos e tiveram ocasião para aprender alguma coisa: que, na vida, é fundamental levarmos mais tempo a estudar bem a resolução dos problemas, para depois tudo sair dentro do programado, do que atirarmo-nos de cabeça para as ideias que surgem e, a meio ou no final da obra, depararmo-nos com atrasos, enganos nas contas, numa palavra, sair tudo ao contrário do que se tinha previsto. A bom entendedor, meia palavra basta…
A abertura, embora bastante limitada ainda, que a morte de Mao-Tsé Tung provocou no enorme País que é a China, com o seu bilião e 300 milhões de habitantes, provocou, no mínimo, a saída para o estrangeiro de muitas centenas de milhar de habitantes que, fora de portas e por tudo que é sítio, se empenham em dar mostras da sua capacidade de trabalhar e do esforço físico que empregam onde quer que actuem, sem exigências e limitando-se a expandir os seus próprios produtos pelo mundo fora, criando comunidades pacatas, quase silenciosas, que dão mostras bem contrárias às de muitas outras manchas de imigrantes que, após se instalarem, levantam problemas de ordem social e fazem exigências que, ainda que com algum direito, por se tratarem de seres humanos, por vezes dão mostras de impaciência pouco salutar.
Ora, é nisto que me dá para pensar nesta altura, Sobretudo logo a seguir ao assalto ao banco que, com reféns e tudo, provocou uma alteração na ordem que, no nosso País, não é costume ocorrer. Eram brasileiros os autores da atitude criminosa, o que não quer dizer que seja um caso que ponha os nossos irmãos na língua na lista dos indesejáveis em Portugal. Nem por sombras, embora haja alguns exemplos de outras nacionalidades que merecem uma cuidadosa atenção.
Mas aqui está o que constitui o início deste texto. Dá que pensar a evolução que está a sofrer o nosso País com a entrada de tantas nacionalidades que escolheram Portugal como ponto de assentamento das suas vidas, Mas não podemos esquecer que, quando, noutra época, os portugueses tiveram necessidade de deixar para trás as nossas fronteiras, foram acolhidos, de uma forma quase geral, com agrado e com amizade.
Faz-nos pensar que, afinal, este Povo que somos, é bem comportado, paciente, sofredor. Por isso fácil de ser governado.
Sendo assim, muito embora a situação actual não seja fácil de conduzir com agrado geral, podemos todos aprender dos chineses que as acções devem ser tomadas com sensatez, ponderação e sentido prático assente em estudo para não serem cometidos erros de precipitação.
Podemos não ganhar nenhuma medalha olímpica, mas o que sim pode ser já um prémio valioso é aprendermos a lição dada pelo espectáculo oferecido pelos chineses. Mais não posso dizer.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

DESMISTIFICAÇÃO


Eu quero que quem me observa
Acabe com má ideia
Que poesia conserva
De tristeza a mão cheia

Não senhor, não é verdade
Que o pessimismo impere
E que se incuta a vontade
De só ver o mal que fere

Alguma angústia, é certo
Invade a poesia
Nem de longe, nem de perto
Constitui a maioria

Cá por mim posso falar
Faço esforço quando escrevo
Ficarei no limiar
Da desgraça e do enlevo

Por vezes me escapa a mão
P’ra lágrimas e suspiro
Sendo assim peço perdão
Tudo que disse retiro

No fundo há sempre fé
Que amanhã seja melhor
A vida é o que é
Antes assim que pior

Afinal o que é verdade
É que os poemas chorados
Dão mais ar de piedade
Levam mais longe os recados

Ao reler o que está escrito
O triste encontro mais
Pois perdura no que é dito
E lido em jogos florais

Quero que fique bem claro
Não sendo um contentinho
Também não sou tão amaro
Com a mente em desalinho

Basta de falar de mim
O que importa é o mundo
Com seu princípio e fim
E coisas belas em fundo

PORTAGENS EM LISBOA


De facto, há problemas que surgem a quem tem de tomar decisões relacionadas com a orientação de uma cidade, que a única forma de os solucionar parece ser a de tomar medidas drásticas, tipo daquelas que se sabe serem usadas na China, drásticas, de alto a baixo. Apetece, de facto, mas a vida em sociedade humana não pode estar sujeita aos apetites daqueles que mandam, sem olhar a consequências e a precauções que têm de estar sempre na mira de quem tem o poder na mão.
Já sabemos que é assim e, portanto, não vale a pena fazer apelo aos direitos de todos e não às conveniências e aos apetites de alguns.
Isto vem a propósito daquilo que, há já bastante tempo, constitui uma preocupação da nossa capital, como representa um problema que muitas cidades pelo mundo fora enfrentam e que é o excesso de circulação de automóveis nas ruas que, quando foram feitas, não contavam com tamanha enchente de carros.
Já em tempos este tema foi levantado, mas voltou agora a aparecer e, de novo, surgem os defensores da redução de entrada de motorizados em Lisboa, aparecendo propostas que assentam no que é mais fácil: o pagamento de portagens para as viaturas que tragam apenas um passageiro, nem que ele seja o seu condutor.
Na China, de novo apelo ao seu caso pouco exemplar, também em Pequim, devido à afluência de população por via dos Jogos Olímpicos, já se instalou uma lei que só permite a circulação de viaturas de acordo com as suas matrículas, uns dias pares outros dias ímpares. Isso já aconteceu em Portugal, durante a II Guerra Mundial, em que as limitações de combustível obrigaram a tal medida. Mas era a guerra! E nessa altura até se vivia à base de senhas de racionamento. Mas agora, faz-nos pensar se não existe outra forma de solucionar o excesso de automóveis dentro de Lisboa, mesmo com os problemas de poluição que se vão sentindo caca vez mais.
Apetece recordar, no caso da capital, recordar o Município de que existem não sei quantos milhares de casas vazias, à espera de obras, e que todas essas residências representam milhares de famílias que tiveram de optar por viver fora de portas e que, por via disso, constituem uns milhares de automóveis que, todas as manhãs, açambarcam as ruas para trazer os seus usuários para a sua vida que se faz na cidade.
Impor a esses milhares de cidadãos a ter de pagar portagem para entrar na cidade que é a deles ou impor que tragam companhia para lhes reduzir os custos, é uma medida que se toma no papel com a maior facilidade, mas, na prática, não parece ser a mais adequada num país europeu que ainda não chegou aos extremos da… extrema China.
Comecem, quanto antes, por legislar quanto aos milhares de prédios vazios, muitos deles propriedade do Estado e de entidades oficiais e instituam a obrigação dos alugueres, que é uma das formas de solucionar também o drama que se vive hoje de ex-compradores de andares que se encontram perante a impossibilidade de liquidar os empréstimos bancários, como me referi ontem no respectivo blogue.
Já é muito tarde? Pois é. Como sempre não somos capazes de prever os fogos antes de ver as labaredas já em plena evolução. Mas essa de pagar portagens, todos os dias, a quem vive nos arredores e trabalha na capital, essa só pode lembrar ao mesmo que estabeleceu a proibição de circularem carros aos domingos no Terreiro do Paço. Isso serve, de facto, para alguma coisa?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

TAEDIUM VITAE



Felizes são os que têm
Todo o tempo do mundo
Os que vão depois e vêm
Sem ter problemas de fundo

E se existem não se ralam
A vida são só dois dias
De coisas tristes não falam
Não têm essas manias

Estão contentes, podem crer
Conseguem sorrir até
E nada os faz deter

Já lhes chega o saber
Que em latim taedium vitae
É cansaço de viver

OS QUE AVISAM E OS QUE NÃO!...


Por cá nós queixamo-nos da situação que vivemos, da crise que não nos larga e que até se vai mostrando cada vez mais severa, não surgindo ninguém das Forças Públicas que tenha a coragem de fazer o retrato exacto daquilo a que se pode chamar o Estado da Nação. Pelo contrário, cada vez que um responsável governamental, sem excluir, evidentemente, o Chefe do Executivo, surge perante os jornalistas, seja na escrita, na rádio e sobretudo na televisão, a preocupação que se nota nas diferentes declarações é a de garantir que vai tudo bem, que caminhamos na boa direcção e, quando muito, se não é possível esconder uma realidade, se está a proceder no sentido de solucionar rapidamente o problema. Portanto, só optimismos.
É de estranhar, na verdade, que não apareça um único governante a dar razão a queixas, a explicar o motivo do desagrado mesmo que seja momentâneo, e a prestar todas as explicações para as múltiplas culpas que se sabe pertencerem a alguém, alguém esse que escapa sempre às críticas directas que merecem por ter actuado em erro.
Vejamos agora a diferença entre a maneira de proceder dos nossos responsáveis e o que sucede aqui ao lado, em Espanha: no diário “El Pais”, numa edição de há dias, logo na primeira página e como manchete, é esta a frase do vice-presidente económico – “A situação económica é pior do que prevíamos todos”.
Ora bem, disfarçar ou até mentir à população qual é a situação que atravessa um País, em lugar de oferecer confiança aos governados o que lhe transmite é a descrença sobre a qualidade e, por via disso, a competência que se deve aferir aos responsáveis do Estado.
O vice-presidente espanhol põe o preto no branco ao afirmar que “o que havia prometido o PSOE na campanha eleitoral era mais uma ambição que uma análise técnica”. E acrescentou sem complexos: “Sempre pensei que havia uma “borbulha” imobiliária, pois construir 800.000 habitações por ano não parecia situação sustentável e alargar as hipotecas a 40 anos não foi sensato”.
Comparemos, pois, o que se passa na vizinha Espanha com aquilo que acontece entre nós, sobretudo na área imobiliária, que atravessa um período de grande preocupação, pois, por um lado, o aumento das prestações aos bancos dos empréstimos recebidos num período de mais facilidade de vida que, por sua vez, também foram exagerados os montantes comprometidos, esse aumento não corresponde agora às disponibilidades financeiras das famílias endividadas e, nesta altura, ao desejarem ver-se livres dos apartamentos adquiridos deparam com a dificuldade em encontrar interessados.
O tema dos andares de aluguer, que devia ser discutido a nível superior, especialmente na Câmara da capital, cidade onde existem tantas casas degradadas a exigirem reparações urgentes para se voltar a ver os saudosos triângulos colados nos vidros das janelas a anunciar que estavam livres para receber inquilinos, esse problema não é levantado por ninguém e mantemo-nos na situação actual de, por um lado, a compra com empréstimos bancários se encontrar sufocada pelos custos sempre a subir dos juros e, por outro, não haver motivações para se voltar ao sistema antigo do aluguer.
Vejam lá o assunto que eu fui hoje buscar para encher o meu blogue! Mas não me digam que não é uma situação que está a levantar problemas a milhares de famílias e que, pelo que se contempla quanto a soluções, não se trata de uma questão que esteja em vias de ter solução.
E já que os responsáveis governativos não abrem o bico, pois que seja alguém que dispõe deste blogue para dar largas à uma preocupação que está aí e que, mesmo que não tenha evitado que as férias fossem gozadas por quem consegue descansar mesmo com a consciência pesada, ainda assim aqui fica uma notinha inocente!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

CÍRIO



As lágrimas que correm neste mundo
A fome, a doença, os desgostos
Obrigam a que lá muito no fundo
Os homens escondam nas mãos os rostos

Sofrer é caos que ataca os mortais
Ricos e pobres, de todas as cores
É alguém que nos envia sinais
De que p’ra viver há que sofrer dores

É isso, a vida fácil não é
P’ra uns melhor, p’ra outros um martírio
Mas é quando se chega ao rodapé

Que já na fase final do delírio
Se toma consciência do que é
Quando então para nada serve um círio

CÍRIO


Mas é quando se chega ao rodapé

Que já na fase final do delírio
Se toma consciência do que éAs lágrimas que correm neste mundo
A fome, a doença, os desgostos
Obrigam a que lá muito no fundo
Os homens escondam nas mãos os rostos

Sofrer é caos que ataca os mortais
Ricos e pobres, de todas as cores
É alguém que nos envia sinais
De que p’ra viver há que sofrer dores

É isso, a vida fácil não é
P’ra uns melhor, p’ra outros um martírio

Quando então p’ra nada serve um círio

A MELHOR POLÍTICA


Foi Alexander Soljenitesine, o Prémio Nobel da Literatura de 1970, que foi hoje a enterrar em Moscovo, com todas as honras da Federação Russa, com 89 anos vividos em pleno alvoroço, impedido até de entrar no seu País, onde esteve mesmo preso durante o período que não admitia que fossem divulgadas opiniões contrárias ao sistema então vigente, foi ele que deixou dito que “o Povo tem o direito de ter o poder, mas é esse Povo que não o quer”.
Sujeitas a todas as controvérsias que as frases que circulam e são de origem de cabeças pensantes que merecem o respeito do mundo que as admira, esta também não se exclui das opiniões contrárias que se sabe serem proclamadas por todo o mundo. Direito ao poder a ninguém deve ser negado, desde que se sujeite às regras de escolha e obedeça aos princípios de se dedicar a prestar toda a sua actuação em favor da maioria da população. Ninguém pode contestar esse direito. Agora, saber se quem assume essa função a que se entrega de livre vontade cumpre as obrigações plenas de imparcialidade, coloca em lugar secundário os seus interesses particulares, não actua unicamente a pensar no agrado que podem produzir os seus actos a determinadas áreas, apenas para garantir votos em próximo escrutínio e, pelo contrário, não temer desagradar sempre que uma medida é justa em sua consciência e, no caso de dúvidas, não temer ouvir as opiniões de diferentes sectores, ter consciência de que segue essas regras e estar sempre disposto a prestar contas publicamente, não deixando no vazio dúvidas que se podem levantar a quem é governado, em resumo, quem procede desta forma está a exercer um direito que merece o aplauso da maioria dos cidadãos. Porque oposições têm sempre de haver e é mesmo necessário que se manifestem.
Referindo agora a segunda parte da frase de Soljenitsine, de que o Povo não quer o poder, aqui é mais difícil dar o pleno acordo, pois sabe-se que o ser humano, quando reunido em multidão, quando se transforma em Povo, logo se vê conduzido por algumas figuras que procuram distinguir-se e que fazem suas as palavras que afirmam ser de todos. E é assim que nascem os chamados líderes, umas vezes saindo figuras merecedoras da confiança que os seguidores lhes dedicam, outras, figurões que trazem na manga a chama do mando, e que se aproveitam da ocasião e do seu poder de convencimento dos mais fracos para, a partir daí, quererem e até conseguirem, por vezes, serem donos de uma população inteira e de uma Nação por completo. Os resultados são-nos dados pela História de todos séculos, as antigas e as mais modernas. E depois de estar feito, o difícil é desfazer o erro.
Também Churchil afirmou que a Democracia era a menos má das políticas. E assim andamos todos à busca de um sistema político que se possa considerar como o ideal…

terça-feira, 5 de agosto de 2008

EI


Lembrar, já muitas vezes me lembrei
criar coisas novas, isso criei
estudar, sem dúvida estudei
e trabalhar, como eu trabalhei!
vamos ver se desta me sairei
de pôr em ordem sentenças, porei?
todas elas terminadas em ei:
Cantar na minha vida eu cantei
em coro de ópera operei
pintar, disso gosto, sempre gostei
emendar, quantas vezes emendei!
errar, dessa nem sempre escapei
fruto daquilo que eu inventei
pelo que tive de pagar, paguei
desatando nós, como eu desatei
ou então atando pontas, atei
sem poder adiar, adiei
sem cair, várias vezes tropecei
quer servindo ou quando comandei
porque a bota sempre descalcei
mesmo a resmungar como resmunguei
pois recear, lá isso receei
mas, que me lembre, nunca ajoelhei
embora saiba que desagradei
com quem eu muitas vezes discordei
só que, por meu lado, nunca odiei
mesmo a quem, sem querer, enxovalhei
ou, por casmurrice, envinagrei
fruto de um contínuo “enjoei”
e devia avisar, não avisei
mas mesmo assim eu nunca caluniei
e orgulho, isso nunca ostentei
nem eu jamais fingi que concordei
como mostrava a cara que fechei
pois engraxar sapatos, isso engraxei
mas apenas os meus, isso eu sei,
como mamar por aí, não mamei
coisa alheia nunca apalpei
fumar, só os meus cigarros fumei
mas desse mau vício me curei
pelo que eu nunca aceitarei
ver gente morrer, sem dó e sem lei
sem pensar como eu antes pensei
que basta o mau mundo que eu herdei
e que vai ficar para a nova grei.
Hoje, como antes, esperarei
que com ou sem mesmo um Agnus Dei
a escrita que faço e abracei
venha ser amada como a amei
que lhe dêem o valor que lhe dei
e se não for assim também direi:
olhem, caguei!

ANIMAIS NOSSOS AMIGOS


Não é fácil retirarmos de uma pessoa que passamos a conhecer as suas características, aquilo que se chama de índole. Normalmente, o ser humano, na sua primeira impressão, mostra-se simpático, agradável, cooperante na conversa. Por aí não se fica a saber grande coisa ou, quando muito, a imagem que nos é deixada é de uma companhia afectuosa e que apetece
manter como amigo.
No entanto, há um pormenor que, se vem a talho de foice, faz abrir um pouco as portas do interior do novo conhecido: é falar de animais e ficar a saber se aqueles que consideramos nossos amigos suscitam algum sinal de afeição da sua parte. Quem é verdadeiramente afeiçoado a qualquer ser vivo e, naturalmente, em particular quanto aos irracionais que nos rodeiam na vida do dia a dia, de uma forma geral – o que não quer dizer que não haja excepções -, pode-se considerar como sendo uma pessoa que merece mais confiança, no capítulo da sua formação moral, chamemos-lhe assim.
Eu, pelo menos, tenho este princípio como regra de convivência e raramente me equivoquei na apreciação.
Quem tem como companhia – porque as condições em que vive permitem oferecer o mínimo de movimentação do seu amigo de quatro patas - um cão ou um gato que, habituados como estará ao local onde se instalou, considera as instalações como sendo a sua casa, sem ser necessário muito tempo constata que essa sua companhia lhe tem uma afeição que qualquer outro animal racional não demonstra tão abertamente. Saltar para o colo, pedir festinhas, acompanhar para todo o lado, mesmo dentro da própria casa, o seu dono, é atitude que não se espera que um racional faça. Essa afeição quase doentia que o nosso protegido sente, não se encontra nos humanos, mesmo quando se declaram entre dois sexos paixões juradas“até â morte”.
Vem este texto a propósito de quê? Da notícia saída hoje na Imprensa de que, três em cada quatro cães são abatidos no canil municipal de Lisboa. E acrescenta a nota de que o canil/gatil alberga em média cerca de 150 animais. E que o forno crematório funciona, em média, cinco vezes por dia naquele local.
Nem é preciso perguntar como é que tantos animais vão parar ao que é o seu destino fatal. São abandonados pelos donos ou encontrados em residências com condições insalubres e, no caso dos cães, geralmente presos com correntes, já sem comida e água por perto. É horroroso tomar conhecimento destes casos, mas que eles existem, disso há a certeza.
Pelo menos, garantem-me, no Canil Municipal os animais que são mortos, antes são eutanasiados, coisa que, tempos antes, não sucedia.
São as compensações das más acções dos homens. Se a maldade humana vai ao ponto de abandonar um ser com quem conviveu – ou porque foi seu parceiro na caça, o mais vulgar, ou porque passou a ser um incómodo e se fartou do animal que recebeu em pequenino e depois, naturalmente, cresceu -, não se pode esperar dessa chamada “pessoa” que seja aquilo que vulgarmente chamamos de “bem formada”.
Por isso eu comecei este texto com a apreciação que faço dos indivíduos que passamos a conhecer quando nos são apresntados.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

POR AQUI VOU


Eu por aqui vou
sem saber caminho,
pergunto quem sou
olho pr’o vizinho
p’ra ter uma ideia
vou fazer o quê?
Nem mesmo à boleia
daqui que se vê?
Mas vou caminhando
não há mais remédio
e enquanto andando
pleno de tédio
percebo o final
o que lá no fundo
que me faz sinal
para deixar o mundo
tenho pois de ir
ficar é parar
hei-de conseguir
cá estou a tentar

Eu por mim vou
deixo-me levar
se eu nem sou quem sou
posso caminhar
para ir, para ir,
ver passar as horas
não posso fugir
nem ter mais demoras
com angústia, porém
da longa espera
em vez de eu ir, vem
já não é quimera
é sim pesadelo
grande sofrimento
pois deixou de sê-lo
que até o talento
que nunca apareceu
foi coisa de sonho
a ver não se deu
e bem me envergonho
de o ter procurado
e me ter escapado

Por isso aqui vou
estou pronto, sem sustos
ao lume me dou
ao sono dos justos





ENFERMEIROS


A dívida é uma situação natural que se vive no nosso País. Já lá vão muito longe os tempos em que chegar-se a uma posição de devedor e não poder liquidar os seus compromissos levava os faltosos a atitudes extremas, incluindo o suicídio. Eram épocas em que um aperto de mão representava uma escritura. Selar uma promessa com a garantia dada de boca, constituía um juramento cujo significado da expressão não tem, nem de longe nem de perto, nada que se possa agora comparar com o significado de então.
Dá para perguntar se a forma de vida dessa época constituía uma maior tranquilidade, em que só se gastava o que se podia e nunca se ultrapassava o que a carteira dava como folga; ou se, como hoje acontece, o essencial é fazer a vontade aos desejos, mesmo que os mesmos se sobreponham à possibilidde do seu pagamento.
São as condições criadas pelas instituições de crédito, as ofertas largamente publicitadas do “compra agora e paga depois”, as tentações provocadas pela ânsia de comercialização, é tudo isso que está na origem da mudança que ocorreu desde os tempos da vergonha em dever e do depois se vê como se resolve a dívida.
Aliás, o exemplo vem de cima. O Estado é o primeiro a não pagar dentro dos prazos e a não evidenciar vergonha por ter contas pendentes. São inúmeras as empresas que estão “penduradas” com contas por saldar pelo sector oficial e nunca surge, por parte dos responsáveis pelo sectores caloteiros, uma explicação ou, no mínimo, alguma documentação que permita aos credores, quantas vezes em sérias dificuldades, recorrer a um apoio estranho, com garantia e que o culpado principal não vai deixar de cumprir as suas obrigações… mesmo tarde.
Pois neste País em que estamos e de que temos de ser cidadãos obedientes das instâncias governativas, são essas as que dão o exemplo de que pagar com atraso não é falta de maior. Câmaras municipais, que mudam de primeiros responsáveis com certa frequência, até por esse motivo criam compromissos para deixar uma boa imagem junto do eleitorado, dado que o que se segue que resolva as situações conforme puder, essas são as entidades públicas que maior número de credores acumulam. O caso, ainda na memória de todos, do Município alfacinha se ter visto obrigado a contrair um empréstimo de muitos milhões de euros para evitar que algumas empresas de construção caíssem na falência, esse triste exemplo, que nem foi fácil de resolver por discordância das oposições na Assembleia Municipal, demonstra como isso de dever é já uma situação normal no nosso País.
Esta agora do Estado dever 19 anos de trabalho aos enfermeiros, por não pagar horas extraordinárias há imenso tempo a esses profissionais da referida área nos hospitais públicos, daria para rir se não se tratasse de um drama para muitos das vítimas da impunidade oficial em cumprir os seus deveres sofrem.
Por mim, nem faço comentários.

domingo, 3 de agosto de 2008

CANTAR


Cantar, cantar, cantar
é melhor que falar
sem dizer nada.
Cantar ao amor,
cantar de cor
com fervor
ou com humor.
Cantar à felicidade,
cantar à amizade,
cansar de tanto cantar,
não parar.

Cantar à esperança
no futuro,
trespassar o muro
do obscuro.
Cantar à poesia,
à fantasia,
à paz no mundo,
ao mar sem fundo,
à beleza
da Natureza.

Cantar até faltar o ar,
em qualquer lugar
sob o Sol a escaldar
ou com chuva a fustigar.
Cantar de pé,
olaré,
ou sentado,
sem enfado.
Cantar sempre muito
com o intuito
de expandir a alma
e dar voz a Talma
do teatro, sim senhor,
um autor
exemplar
para ver, ouvir,
sentir
… e cantar !

POBRE TURISMO!


Para quem, como eu, que sempre esteve ligado à actividade turística dentro do jornalismo, tendo deixado centenas de crónicas em publicações da especialidade, para além de ter feito parte de organizações internacionais que reúnem os profissionais da escrita dedicada ao tema turismo, não é com indiferença que acompanho a actividade que, desde tempos passados e até na época em que existia um certo controlo político também nesta área, constituía uma forte ajuda ao equilíbrio económico de Portugal. Foram dois sectores que contavam muito nas contas públicas: o turismo e as remessas dos emigrantes. Quem não passou por essa fase da vida nacional não tem consciência da importância que representavam esses dois pólos.
Tomar agora conhecimento de que a crise que actua em diferentes sectores da vida portuguesa também está a afectar e muito o turismo, sendo o Algarve a zona onde se sente mais profundamente tal situação, a todos nós portugueses tem de provocar preocupação, mas quem sente mais têm de ser aqueles que assentam a sua actividade principal numa área que envolve, sobretudo nas épocas consideradas altas, dezenas de milhar de trabalhadores, ao ponto de, quase sempre, ser necessário recorrer a mão de obra estrangeira, sobretudo de brasileiros que imigraram para o nosso País.
As notícias são claras: as taxas de ocupação no sector hoteleiro baixaram 6% e as vendas oscilam entre os 25 e os 50%, sendo os restaurantes os mais afectadas. Daí se conclui que não são só os portugueses que influenciam tal descida de consumo, posto que é sabido que os turistas estrangeiros, especialmente os ingleses, que são os que, nesta época, mais afluem às praias algarvias.
O aumento do preço das viagens de avião, o custo elevado da gasolina e a subida das dificuldades que também se sentem fora das nossas fronteiras, tudo isso tem de influir na recessão do turismo no nosso País, sobretudo porque a promoção que se faz no estrangeiro dos prazeres de férias em terras lusitanas é, sobretudo, dirigida à classe média e é essa precisamente que sente mais directamente as dificuldades que o custo de vida em alta se faz notar.
Desde há muitos anos que a recomendação que tem sido feita por aqueles que têm conhecimento das técnicas de turismo é que a publicidade em devemos insistir sobre as características da nossa oferta tem de ser dirigida às classes altas. E isso porque não temos dimensão para receber carradas de visitantes de recursos médios e até baixos que constituem a maioria dos que se instalam em pleno período do calor naquilo que, para eles, é um “paraíso” de bom tempo. O investimento de propaganda que é feito em diversos meios no estrangeiro, incluindo os centros de turismo que temos instalados em várias cidades, tudo isso teria que ser orientado para dar a imagem do nosso turismo como sendo dirigido a clientes com meios e que procuram algo de especial e não mais um sítio para, por pouco dinheiro, gozarem umas férias económicas.
Por nosso lado, o esforço que fazemos para preparar pessoal de hotelaria deve ser orientado também na qualidade, no bom serviço, até no requinte. Mas isto não é novidade. Já foi dito e recomendado há muito tempo, mas, somo sempre sucede neste País, temos dificuldade em aceitar os conselhos dos que são previdentes.
O turismo no nosso País sofre, portanto, ele também, os efeitos da crise que nos envolve. Que podíamos nós esperar, quando se fez agora uma remodelação das leis de turismo e nada do que aprendemos ao longo dos anos de prática foi levado em conta, porque quem sabe são os “sábios” que acabam de chegar aos lugares e os antigos sofrem do mal da “velhice”.

sábado, 2 de agosto de 2008

E DEPOIS?


Sempre há um depois do que agora passa
Alguma coisa de que se suspeita
Ou de que se tem só ideia escassa
Mas que está bem ao pé de nós à espreita

Esse depois assusta muita gente
Pode ser p’ra melhor ou nem por isso
Quem pode saber é só o que sente
Que esta vida é toda um compromisso

Se o depois é tão grande mistério
E se há também quem tal não entenda
Esteja só ou tenha vida a dois

Será bom ver o amanhã a sério
Estar sempre pronto para a contenda
Para não perguntar sempre: e depois?...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

FÉRIAS GRANDES


Neste primeiro dia de férias, pelo menos de acordo com o calendário, caindo a uma sexta-feira, está-se mesmo a ver que os espertos dos portugueses marcaram o início deste período para segunda-feira, dia 4, o que sempre permite acrescentar de seguida mais um fim de semana que se juntam aos cerca de 30 dias que a lei estabelece. Bem, mas este aparte não constitui motivo de um texto de blogue, embora dê mostras de como não perdemos uma ocasião para tirar partido das facilidades que as ocasiões podem proporcionar.
Mas, falando de férias, o que diferencia este ano o período de Agosto das épocas anteriores, é, nos estacionamentos de automóveis que, normalmente neste mês sobram, ou seja encontra-se com facilidade lugar para arrumar os carros nas nossas ruas, ao contrário do que sucede durante o ano inteiro que se tem de contar com a sorte para, ao chegar a casa ao fim do dia, encontrar um espaço onde caiba a nossa viatura. E porquê isso? A resposta é simples: dado que uma grande parte dos moradores em Lisboa já está a fazer contas à vida, não precisa de recomendações para não ultrapassar o limite dos gastos e vai ocupar o período de férias sem saídas onerosas e mantendo o automóvel arrumadinho durante quase todo o mês. O preço dos combustíveis não permite fantasias e, quando muito, uma ida curta a uma praia nos arredores da capital já constitui uma extravagância.
Estou a exagerar? Então façam um exercício de análise dos automóveis que permanecem estacionados junto aos passeios e alguns deles até com cobertura para os poupar da sujidade que se acumula mais quando os carros não saem do mesmo lugar durante algum tempo.
E já que estou a referir-me a este tema, ocorre-me fazer uma pergunta à Câmara Municipal de Lisboa: Como está a funcionar o contrato com a EMEL, a empresa que tem o encargo de cuidar da cobrança dos parqueamentos de que os moradores de cada freguesia gozam do benefício de não ter esse encargo? É que, em muitos bairros lisboetas, por exemplo em Campo de Ourique, embora existam os parquímetros para serem colocadas as moedas, como não se verifica vigilância aos automóveis que não colocam o selo no para brisas, quase ninguém se preocupa em cumprir essa obrigação e os poucos que o fazem também não beneficiam a EMEL, pois todas as noites se assiste à actividade de uns indivíduos, dizem que são romenos, que dispõem de uma chave que permite fazer a recolha das poucas moedas que entraram durante o dia.
Não era este o tema que eu tinha pensado destinar ao meu blogue de hoje. O caso do comunicado do Presidente da República transmitido ontem ao País, mereceria, sem dúvida, um espaço e uma opinião. Mas eu disse ontem o que tinha a dizer. Durante o dia ouvi vários “sábios” largarem os seus pontos de vista. A conclusão a que cheguei foi a de que ninguém entendeu nada ou, pelo menos, não encontraram assunto que merecesse aquele mistério todo feito em redor do que Cavaco Silva iria dizer à noite. O País ficou descorçoado. Vamos, pois, esperar por algum acréscimo que surja com o assunto mais desenvolvido. Até talvez a Madeira receba também a sua parte de comentário.
Porque uma coisa é certa: não pode ser retirado ao Presidente da República o direito e o poder de dissolver, quando entender que o deve fazer, qualquer das Assembleias, a da República e as duas das Regiões Autónomas. Fora isso, são ninharias que se solucionam sem discursos ao País.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

QUE DISCURSO!


Quem não está muito identificado com estes fenómenos da economia, perante as notícias que saltaram nos jornais não foi capaz de evitar esta exclamação: só faltava mais esta! De facto, tomar conhecimento que a Banca portuguesa atravessa neste período uma crise que e traduz num título bem expressivo como “Banca lucra menos 43% com crise sem fim à vista”, deixa os cidadãos não sei se mais consolados do que extremamente preocupados. Aqueles que contam os cêntimos nas bolsas e que, todos os dias, deparam que o que compravam ontem com uma certa quantia já hoje se encontra fora do seu alcance, esses rir-se-ão perante o que se chama de crise bancária. Já não somos só nós!
Mas a coisa não dá para rir. Quando são os quatro principais bancos portugueses, o BCP, o BPI, o Santander Totta e o BES a declarar que o primeiro semestre deste ano apresentou queda de lucros, impacto negativo na bolsa e, de uma forma geral, redução de movimentos, o resultado disso é que, se não entra dinheiro a saída também diminui, ou seja, os financiamentos são medidos cautelosamente e quem precisa de uma ajuda vê grandes dificuldades em ser atendido.
É sabido que o crédito mal parado aumentou, nos últimos tempos, de uma forma perigosa, quer dizer as dificuldades em liquidar os empréstimos cresceram de forma excessiva, o que se reflecte naquilo que está já â vista e que são as casas à venda que estão a aparecer por toda a parte, pois quem não pode pagar o que adquiriu a crédito bancário, ao ver-se impossibilitado de cumprir as suas prestações não tem outro remédio que não seja entregar a residência que tinha anos para ficar totalmente paga.
É verdade que o exagero de dependências bancárias por todo o País e, na capital então, chega a ser um exagero, porta sim porta sim com uma sucursal de qualquer banco de portas abertas, o que, por um lado, permite oferecer trabalho a bastante pessoal que, com algumas qualificações, ali obtêm o seu ganha-pão, por outro lado, no caso de Lisboa elimina a existência de outros tipos de estabelecimentos que dariam mais alegria à cidade. Por exemplo, a ausência dos velhos cafés, onde as populações dos bairros se reuniam, liam o jornal, discutiam os seus problemas, tudo isso tem desaparecido com uma velocidade que entristece. Embora se compreenda que se tratam de negócios que não sustentam facilmente as exigências de gastos que o estilo de vida económica dos dias de hoje exigem.
E antes de pôr fim a este tema, acrescento a outra notícia que correu hoje nos órgãos de comunicação: que as seguradoras também estão a evidenciar resultados mais baixos daqueles que se verificaram no ano transacto. São, pois, companheiras das outras poderosas empresas que não estão habituadas a não apresentar saldos líquidos elevados.
Este texto foi redigido enquanto, ansiosamente, se aguardava a hora em que o Presidente da República iria fazer uma declaração, até aí secreta, ao povo português. Não vale a pena fingir que a Nação não andou, durante este dia, moída pela curiosidade. Não sendo um hábito Cavaco Silva expor os seus pontos de vista sem ser em datas estabelecidas, não podia deixar de constituir surpresa este aparecimento do Presidente assim anunciado de repente. Foi, pelo menos, o que se passou comigo. Esperei pela hora marcada para o acontecimento e, tal como deverá ter acontecido a um enorme número de portugueses, coloquei-me de fronte do écran da televisão e, a olhar para o relógio, despertei todos os meus sentidos. Tratava-se de um momento solene. E o Presidente da República começou a debitar o seu discurso.
Não foi, de facto, muito longo. Embora com um tom de importância que fazia acreditar que todo o comunicado se revestia de algo que iria solucionar vários problemas do País, à medida que prosseguia na leitura do texto que trazia preparado, o desconsolo por parte dos ouvintes foi-se avolumando. O tema dos Açores, tratado noutro contexto, noutra altura e sem o ar de mistério de que se revestiu, merecia a importância que, de facto tem. Mas, ter criado o clima de tema de gravidade nesta altura em que os portugueses lutam contra as dificuldades de subsistência que se agravam de dia para dia, não se ter referido a essa situação que é a que o Povo neste momento mais entende, não chega a ser compreendido, como se viu até logo a seguir os comentadores referirem, pela camada populacional que, essa sim, precisa de ouvir palavras verdadeiras sobre o que se passa e sobre o que está para vir. Até parece que eu adivinhava tendo feito a introdução deste texto com um assunto que, pelo menos esse, poderia ter servido de tema ao conteúdo do discurso do Presidente. Embora também fosse escasso.
Cavaco Silva não foi feliz. E se foi algum dos seus assessores que lhe terá dado o conselho para surgir com aquela palestra e naquelas condições, o melhor é pensar em arranjar-lhe outro serviço. Isto digo eu, para arranjar, assim à pressa, alguém que arque com as responsabilidades.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

DISTRAIDO


Distraído ?
Só num momento
oiço o alarido
e o bramido
até oiço o vento
Estou a pensar em algo distante
não quero olhar
nem num esgar
ainda que num instante
para o que me rodeia
que não é do meu mundo
é coisa alheia
ao meu sentir profundo
ao falar para dentro
ao que é o meu centro
quando tento descobrir
discernir
palavras com sentido
que penetram no ouvido
e que sejam poesia
sinfonia
para o coração
e não um trovão
desconexo
sem nexo
como as que oiço à volta
neste mundo de revolta
que me faz estar sofrido…
… distraído.



terça-feira, 29 de julho de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!




Como é possível que, num País situado no extremo ocidental da Europa, identificado como atravessando um período demasiado longo de dificuldades várias, sociais, económicas, financeiras e de desenvolvimento, e com uma população que mostra bem a sua falta de esperança quanto a melhoras num futuro próximo, tendo como vizinho, que lhe antecede no caminho para quem vem do território europeu, uma nação em crescente progresso, perante tudo isto como se pode compreender que imigrantes vindos de Leste, romenos sobretudo, se instalem entre nós e se dediquem à profissão da pedincha?
Deve haver uma explicação lógica, mas não a encontrei ainda. Tratando-se de uma imigração, a maioria de raça cigana, que chega por terra e que se faz transportar em caravanas, com toda a família em conjunto, significa isso que, antes de se plantarem no nosso território, passaram por países onde o nível de vida é muito superior ao nosso, o que poderá querer dizer que, por onde transitaram, era mais fácil obter a esmola que constitui o objectivo da sua actividade. Porquê, então, não se fixaram em qualquer dos locais que encontraram pelo caminho e vieram até Portugal, no extremo do Continente europeu, local onde à sua frente já só existe o oceano e, portanto, não há possibilidade de experimentar o país que se segue?
Será porque, apesar de apertados com as dificuldades, os portugueses são mais esmoleres do que os espanhóis, os franceses, os alemães e do que todas as nacionalidades onde antes experimentaram estender a mão à caridade?
No local onde me encontro a escrever este desabafo, assisti há pouco à chegada de um homem, dos seus trinta e poucos anos, que se sentou encostado à parede, junto à porta de um estabelecimento que tem razoável movimento de entradas e saída de clientela, cruzou as pernas debaixo do rabo e, puxando de um cartaz com uma lenga-lenga que não dava para distinguir o texto escrito no papel amarrotado e sujo, começou a chocalhar num púcaro algumas moedas, ao mesmo tempo que, sempre que passava um transeunte, resmungava uma ladainha que não era compreensível..
Passado algum tempo e dado que o “negócio” não parecia estar a ser muito interessante, o indivíduo arrumou os seus pertences e abalou do local anteriormente escolhido.
Quando, chegada a minha hora de sair do café, me coube a vez de também arrumar a minha trouxa, ao passar mais adiante por um supermercado dei com o mesmo fulano, desta vez acocorado ao lado de uma outra pedinte, esta aparentemente de idade, com um “embrulho” ao colo que dava a impressão de ser um bebé, todo enroladinho num xaile, mas sem dar o menor sinal de vida.
É este o espectáculo a que nos é dado assistir nas ruas de Lisboa e talvez por esse País fora. Se a moda pega, qualquer dia também veremos pedintes portugueses, com cartazes a contar histórias e a sacudir o púcaro com moedas no fundo. Ao ponto a que se chegou neste cantinho, que já tem a idade suficiente para se ter atingido uma situação bem diferente da que o País atravessa, não há razão para se ser muito optimista. No entanto, como somos todos portugueses e não deixámos pelo caminho a réstia de esperança que ainda nos acompanha, vamos repetindo: enquanto há vida…

segunda-feira, 28 de julho de 2008

CONTRADIÇÕES


Não se trata de uma novidade. Já se sabe que onde o Homem põe a mão, logo se deparam as situações extremas, o mais e o menos, o muito e o pouco, o grande e o pequeno, o excelente e o péssimo. É da condição humana colocar em confronto posições que se situam em margens opostas e, pior do que isso ainda, é visualizarem-se essas diferenças e, na maior parte das vezes, nada se fazer para se encontrar uma forma de suavizar os que se encontram em piores condições.
Refiro-me, está bem de ver, aos muito ricos e aos excessivamente miseráveis. Àqueles que lhe sobra tudo e aos que só conseguem muito pouco. E isto, obviamente, sem entrar em linha de conta com as características, as capacidades, as habilidade, os esforços que, aos mais favorecidos tenham servido de trampolim para atingir as posições superiores. E em que o elemento sorte também tem a sua parte de participação.
Pois por cá não se verifica qualquer excepção àquilo que é regra no mundo em que vivemos. E se não vale a pena fazer referência às excentricidades dos tais que, sobretudo lá pelos Algarves, gozam dos prazeres de umas férias a dar nas vistas nas páginas das publicações dos que tudo fazem para se mostrar, o que sim é importante que se registe são as contrapartidas das dificuldades daqueles que, sendo a maioria dos portugueses, atravessam um período que, apesar dos desejos dos optimistas, não conseguem ver passar este período negro.
E aí vão dois exemplos de casos que, na maior parte das vezes, passam despercebidos do público leitor de jornais: segundo um relatório de uma Associação que acompanha este sector, os vários fundos que servem para os pequenos investidores depositarem os seus aforros com juros modestos, desceram cerca de 22 milhões de euros nestes últimos seis meses, o que quer dizer que os respectivos valores tiveram de ir fazer face a necessidades inadiáveis. Por outro lado, as devoluções de casas aos bancos, por dificuldades em liquidar as dívidas que as mesmas representam, estão a atingir um número que já está a criar problemas no negócio das habitações. Só por Lisboa fora se vêm inúmeros cartazes nos prédios a anunciar que se encontram disponíveis, o que também poderia alertar para a conveniência de se poder voltar ao período dos alugueres, o que solucionava igualmente a questão da desertificação da capital de casais que fogem para os arredores, com todos os inconvenientes conhecidos e que nem vale a pena descrevê-los neste texto.
Agora, o que constitui uma vergonhosa provocação à fome na Terra é a notícia largamente divulgada de que, no jantar realizado no Japão e em que se reuniram os líderes de oito economias mais industrializadas do mundo, os chefes de Estado e de Governo deliciaram-se com 24 pratos num festim que incluía as mais requintadas ementas e os mais raros vinhos, onde não podia faltar o caviar, as trufas e todas as esquisitas especiarias vindas das mais diversas origens. O custo total deste repasto oferecido na Cimeira do G8 não foi escondido. Atingiu os 358 milhões de euros, o que seria bastante para adquirir 100 milhões de mosquiteiros para ajudar a impedir a difusão da malária em África ou para tratar os milhares de doentes com sida que existem por toda a parte.
Por aqui se vê a massa de que é feita o Homem. Aqueles mesmos que se reúnem para tentar encontrar soluções para os problemas do mundo, são esses que não sofrem de indigestão quando gastam em jantaradas verbas que tanta falta fazem aos que morrem de fome.
Só se espera que, por cá, haja a consciência dos gastos excessivos, pensando, em primeiro lugar, nas dificuldades por que passam os que não conseguem arranjar emprego… e, claro, querem trabalhar.

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Lá disse Camilo José Cela, o escritor espanhol, Prémio Nobel,
que a morte é de uma vulgaridade absoluta,
não houve um ser humano que tenha fugido a essa regra.
Logo, por mais que queiram fugir a esse conceito, todo o ser vivente é vulgar.
Por muito que, em vida, se esforcem por se distinguir dos restantes, na hora da verdade todos se igualam.
Todos se vulgarizam.
Os ricos, os pobres, os superiores de intelectualidade, os menores de espírito e de cabeça, os capazes e os incapazes.
Que vulgaridade!...

domingo, 27 de julho de 2008

CORRUPÇÃO


Que há a referir hoje, domingo de Verão, em que as novidades, boas e más, não abundam? O que sobressai e irá, seguramente, ser motivo de alguma controvérsia, até no interior do próprio Partido Socialista, é a entrevista concedida por João Cravinho que, aos microfones de uma rádio não se fez rogado e pôs o dedo na ferida que, de uma forma geral, é a que menos é focada por poder estilhaçar muitos telhados de vidro que estão por aí instalados. Referiu-se, sem cerimónias, à corrupção que grassa por todo o lado, desde que cheire a subtrair alguns lucros com uma operação que esteja a passar perto. E isso acontece aos mais diversos níveis, desde os mais rasteiros onde interfiram apenas indivíduos que possam ser mais lestos ou mais demorados a passar qualquer documentação de um sector para outro, até aos que, já no alto escalão, são os que põem o carimbo e emprestam uma assinatura.
Não vale a pena fazerem ares de ofendidos sujeitos que se recusam a aceitar esta verdade. Quem já foi obrigado a lutar para ver resolvida uma licença de qualquer índole – não entro em pormenores, cá por coisas! -, sabe perfeitamente que, se ficou a aguardar, pacientemente, a obtenção de tal papel dentro dos prazos que os “guichets” indicam, tem de fazê-lo bem sentado. Se cair nessa ingenuidade, seja qual for a repartição que tenha de solucionar o seu problema, verá como o melhor é desistir… ou seguir o conselho que um sabedor dessas coisas lhe cochiche ao ouvido. E não ponho mais na carta.
Pois foi sobre a corrupção que se pavoneia incólume pelo nosso País que João Cravinho entendeu dizer de sua justiça. E sobretudo porque nunca são castigados os corruptores, os que estão sempre à espera do sobrescrito.
E, nem a propósito, embora se deva juntar a essa praga a outra da incompetência, está bem quentinho o caso da ponte que já nem se sabe se se chama Europa ou Santa Isabel, ali em Coimbra. É que, para além da demora em concluir a obra, pois sofreu um atraso de 700 dias dado que deveria estar concluída em Dezembro de 2001, ultrapassou o custo estimado de 38 para 111 milhões de euros, ou seja sofreu uma derrapagem de 288%.
A pergunta que qualquer cidadão do nosso País não pode deixar de fazer é que medidas toma o Governo nestes casos, tornando completamente claros os passos que forem dados e indicando, sem tibiezas, os nomes dos culpados de tamanha incompetência… se é que a isto só se pode dar apenas este nome.
Fico à espera para ver se os governantes e as oposições deixam passar este caso (já tantos caíram no esquecimento sem que um passo de esclarecimento tivesse sido dado), tanto mais que, com as eleições já à vista, todas as situações que se prestem a críticas constituem uma oferta de bandeja aos que espreitam a sua oportunidade para empurrar os que estão no Poder.
Mas estou eu aqui a ensinar o Padre-Nosso ao cura!

sábado, 26 de julho de 2008

A CRISE E A MANUELA


Ainda bem que nem tudo que se passa por aqui constitui más notícias. Bem precisamos de, com a maior regularidade possível, receber alguma que outra novidade que ajude a não calcar tanto o moral que, diga-se a verdade, não navega muito à superfície. O ficar-se a saber que, em negociações que tem corrido com a empresa brasileira Embraer, se assentou na instalação na zona de Évora de uma fábrica de componentes que se aplicarão em 13 aviões por mês, o que representa um investimento da ordem dos 148 milhões de euros e, em contrapartida, dará trabalho a 3.500 pessoas, tal boa novidade deu-nos ânimo, mesmo levando em contya que o início das actividades só está previsto para 2011.
Por outro lado e no Norte, a notícia é a de que ali se está a estudar a montagem de um consórcio de fabricação de computadores pessoais de baixo custo. Também anima.
Por agora, são estas as boas novas que o fim de semana nos trouxe. E não constituindo tais informações nada que espectacularmente nos faça lançar os braços ao alto, sempre é melhor que isso vá ocorrendo, mesmo a pouco e pouco, do que ficarmos inertes a assistir a uma crise, que se instalou por toda a parte e que nos coube também a nós sentir os seus efeitos.
E a propósito de crise, por muito que se queira fugir de perspectiva pessimistas, não é possível fazermo-nos desentendidos quanto às afirmações feitas ao “Expresso” deste sábado por uma autoridade em recessões económicas, George Soros, que vem afirmar que “estamos ainda a entrar na tempestade”, que é como quem diz, preparem-se para o que está para vir e que os próprios E.U.A. não vão escapar aos efeitos da recessão. E compromete-se com tão más notícias tendo publicado um livro, já traduzido em português, onde se apontam erros cometidos por diferentes responsáveis políticos de todo o mundo, assim como a regulação e globalização e, claro, não perdoa à administração Bush.
A nós, agora o que nos interessa é tudo fazer para conseguirmos ultrapassar a situação. E, para isso, o bom senso é fundamental. O evitarmos o aumento das dificuldades, levando bem em conta que não é esta a melhor altura para desenvolver greves, para criar desavenças entre responsáveis de diversos agrupamentos, nomeadamente nos partidos políticos, o que não quer dizer que se deixem de fazer críticas aos que governam, pois agora, mais do que nunca, os erros que possam ser cometidos têm de ser levados em conta para efeitos da escolha que está aí a chegar para encontrar quem vai ter maioria no Parlamento. Que é como quem diz, quem ficará com o encargo de governar.
Quanto a isto, uma breve referência à entrevista que Manuela Ferreira Leite concedeu ao “Expresso” e que acabei de ler agora mesmo. Não, não era tanta precaução que eu esperava da mulher que se prepara para entrar numa luta que ela sabe que não vai ser fácil. Quem se mete em trabalhos não pode esconder-se atrás de evasivas. Tem de pegar o touro pelos cornos, como se diz na boa linguagem ribatejana. Apontar erros e dizer como faria se fosse ela a deliberar. Não deixar para depois o que pode fazer agora.
É que a crise está aí. Não vem a caminho. Não espera por quaisquer eleições.
Eu, por mim, não deixo de dizer que fiquei desconsolado com o quase nada que diz a candidata a primeira-Ministra de Portugal. Não sendo, nem de longe, esse o meu papel, vou apontando os erros que tenho encontrado na actividade de Sócrates e tenho referido os pontos fracos que, segundo a minha opinião, encontro no governante que temos. Só que isso não serve para nada. Não vou estar sujeito a votações!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

CACILHEIROS



Apeteceu-me um dia
recordar o passado,
andar para trás
muitos anos,
pôr o saudosismo em acção.
E fui ao Cais das Colunas
às que lá não estão
mas que eu as vi
na memória
e descendo aqueles degraus
molhei os pés no Tejo,
que frescura!
que odor!
que beleza as gaivotas em liberdade.
Como me recordo
dos cacilheiros que saiam logo dali
e chegavam ao mesmo sítio,
os cabos para os prender ao cais
eram atirados
com precisão
fixavam-se nas amarras
e as gentes,
sem aguardar o encosto completo
saltavam,
corriam para os seus destinos,
os imediatos,
enfiavam-se na praça,
nessa bela praça,
no Terreiro do Paço,
que podia ser ainda mais bonito,
muito mais bonito,
mas as gentes nem dão por isso,
a Praça do Comércio (que nome!)
não tem ajuda do poder
para a tornar muito mais atractiva.
Correm para a vida,
os populares,
os cacilheiros, já bem encostados,
deixam sair os passageiros,
os mais calmos,
também esses já sem se importar
que o Cais das Colunas
já não seja o que era antes.
É gente da outra Banda
que dorme lá
que ganha a vida deste lado,
que transformou Cacilhas,
o Ginjal,
Trafaria,
Caparica
em dormitórios.
Tu, cacilheiro, foste o culpado.
Antes da ponte
eras dono e senhor
do rio,
só tu ligavas as margens
do Tejo que,
no final, parece um oceano.
Eras o patrão do Tejo.
Agora, já não és essencial,
imprescindível,
única solução.
Mas continuas a ser útil,
desejado,
e, sobretudo, manténs a tradição
alimentas o saudosismo,
és uma relíquia preciosa
para a memória,
mas também os que não usam a ponte,
a que já teve dois nomes,
que são bastantes,
e ainda bem,
porque tu,
ó cacilheiro dos velhos tempos
pode ser que acabes por vencer
a modernidade,
a que deitou abaixo as colunas
e arredou para mais longe
o local onde te encostas para descansar,
de cada viagem,
fazendo-te perder a graça,
essa de ver entrar e sair a populaça,
no sítio certo, junto às colunas.
Foi isso que a imaginação
trouxe até mim,
o olhar para o Tejo e contemplar,
sentado em frescos bancos
de pedra,
com a barra ao fundo,
vária navegação circulando,
respirando o ar marítimo,
mastigando pipocas
e pevides,
compradas ao velho do tabuleiro,
que sonho!
E, de repente,
caí em mim.
Esta Lisboa que faz a inveja
de outras grandes capitais
que não têm este rio
a seus pés,
esta cidade que deslumbra as outras,
mas que, em lugar de olhar para fora,
para a água salgada,
para as ondas com a sua espuma,
para o reluzir do Sol no Tejo,
vira-se para dentro,
para o seu umbigo,
e nem parece ser
terra de Navegadores,
antigos mas recordados,
ficando-se com a impressão de que
se tem vergonha
de ficar à borda do mar das Descobertas.
Não merecemos o que temos,
e tu, ó cacilheiro,
ainda serás algo,
já pouco,
que tem de nos avivar a memória,
chamar a atenção para
o pouco que nos resta.
A modernidade?
Pois sim, mas sem destruir
as jóias do passado.
Que bonito é ver o cacilheiro
encolhidinho,
ao lado do grande paquete,
majestoso,
que passa
a abarrotar de tecnicismo,
orgulhoso do seu porte,
transportando uma multidão
a olhar sobranceiro
o pequeno cacilheiro,
a ínfima embarcação
a cruzar o Tejo na sua humildade
como um pedinte
se aproxima
do carro de luxo
num semáforo.
Ó cacilheiro,
modesto trabalhador que
nasce, vive e morre
sempre com o mesmo mister,
com a mesma viagem,
repetitiva,
monótona,
mas prestando um serviço,
sendo útil,
indispensável,
com gente sempre à sua espera,
que o aguarda a olhar para o relógio,
como quem combinou com o namorado
um encontro.
Ó cacilheiro,
Tu, em que as gaivotas
tuas conhecidas
poisam na amurada
saudando-te,
lembrando-te quem és,
não te deixando sonhar com fantasias,
com luxos,
com atitudes que não são as tuas.
Tu és o que és
e nós queremos-te assim.

PRODUZIR MAIS E VENDER MELHOR




Se queremos progredir e não perder ainda mais terrenos em relação às evoluções, tecnológicas e outras, dos nossos parceiros, há, pelo menos, uma coisa que tem de ser feita: o estarmos atentos aos avanços que se produzem lá fora e, se possível, aprender alguma coisa com as experiências que cada um vai fazendo. Não se trata de espionagem, que é uma expressão guerreira, mal sonante aos ouvidos e que representa o espreitar sem consentimento dos outros. Pelo contrário, o aproveitar os passos seguros e progressistas dos outros, o juntar esforços acrescentando até alguma coisa de útil, significa contribuir para todos, sem invejas e sem prosápias de ser o primeiro. Não ser dos últimos, dos atrasados, dos vagarosos é que se impõe que nós, no nosso País, nos empenhemos em ser.
Quando, nos meus textos me refiro tantas vezes à colaboração que devemos fomentar com os nossos vizinhos espanhóis, formando um bloco a que eu, há mais de 50 anos, ainda nas páginas do velho “Jornal do Comércio”, chamava de Comunidade Ibérica, não sendo só isso é também essa coisa de andarmos de mãos dadas e de procurarmos, sempre que possível, juntar forças para, com economia de meios, darmos passos seguros e fortes, especialmente na área da produção, proporcionando ao mundo aquilo que, por exemplo, no sector agrícola, actuando em grande escala (acabando com as ínfimas culturas) é capaz de oferecer, sobretudo dado o clima favorável de que se goza nesta Península, pode fazer surgir novidades antes que o resto da Europa as veja surgir na terra.
E na área industrial, em lugar de nos dividirmos a fabricar o mesmo nos dois lados da fronteira, um pacto de produção de produtos, uns cá outros lá, reduziriam de forma espectacular os custos e beneficiariam a qualidade. Por exemplo, na área dos de automóveis, de que não se justifica haver competição onde só teria lógica a junção de marcas.
Vem isto a propósito dos namoros que se têm verificado por estes dias do “chefe” Sócrates com colegas de países que, embora tenham de ser mantidas e desenvolvidas profícuas relações, na fila de interesses têm de ser colocados em posições mais afastadas. É com Espanha, Senhor primeiro-Ministro, que, para além dos sorrisos e batidelas nas costas, se têm que concretizar acordos concretos e dar início quanto antes – o que já é um atraso – a um entrelaçar de mãos que retire aos parceiros mais próximos da Europa (aqueles que sempre tudo fizeram para que os nossos dois Países nunca se entendessem muito bem) a ideia de que serão sempre eles os mais importantes, em área, população e, igualmente de grande valor, posição geográfica, que essa ninguém nos pode tirar.
Como sempre procuro fazer, aqui deixo uma nota que merece reflexão: os jornais espanhóis estão a dar enorme destaque aos ensaios que ali se estão a realizar no capítulo dos estudos do aproveitamento das ondas marítimas para a produção de energia. A Cantábria, o País Vasco e a Galiza estão já empenhados nestes trabalhos, confiando que a fonte de electricidade com aquela origem poderá estar em acção entre 2011 e 2020. E sem entrar em pormenores quanto a custos e resultados, pois não seria descabido que, por cá, os nossos sábios nesta matéria, se prestassem a efectuar um trabalho conjunto, porque se se vier a concluir que é compensador nos nossos vizinhos, nós também temos uma larga costa e, quanto a ondas, é coisa de que não temos falta!
E por falarmos em mar e em ondas, outro exemplo de que não somos capazes sequer de imitar, quem, vindo ao longo da costa da Galiza e entre em Portugal, pergunta-se sempre o motivo por que se vêem do lado galego centenas daquelas armações junto à costa, onde se cultiva toda a espécie de bivalves e, do nosso lado, ainda se efectuam aquelas capturas por processos que, para além de caros, não rendem como os dos vizinhos de cima.
Mas que importância têm estes apontamentos se, por cá, outros assuntos muito mais produtivos nos ocupam o tempo e nos distraem mais o espírito? É preciso ser maçador!...




quinta-feira, 24 de julho de 2008

AS DÍVIDAS E O NOVO AEROPORTO


Isso acontece com cada um de nós. Ou, pelo menos, era o que deveria suceder com gente com bom senso e sentido de responsabilidade. Explico-me: quando começamos a sentir nos bolsos, para não falar já nas reservas quando elas já se foram, o começo da raridade dos fundos que necessitamos para fazer face aos gastos essenciais do dia-a-dia, a primeira atitude que tomamos é o corte nas despesas que podemos considerar mais dispensáveis. E a redução para metade de um certo número de consumos será o início dos inícios. Por exemplo – e saliento o que se passa comigo -, em lugar de 2 a 3 jornais diários, limito-me a escolher o que me parece mais bem informado e é o menos caro, não sendo pela oferta extra que me inclino para esse opção. Mas isso sou eu, que com o vício da profissão de jornalista, me permito querer estar atento à qualidade!
Agora, num País como o nosso, em que todos os dias constatamos as limitações financeiras em que vivemos – logo, também todas as outras que estão directamente dependentes das contas que têm de ser bem feitas antes de serem tomadas medidas que afectam o erário público -, os cidadãos que somos e, por isso, os mais afectados pelos esbanjamentos que certos governantes ainda fazem, têm de estar atentos e cabe-lhes mostrar claramente a sua indignação cada vez que deparam com um cêntimo que seja deitado à rua. Aqui estou, pois, a tocar o sino para alertar os que se encontram nas tais cadeiras do Poder e se mostram tão apressados em utilizar muitos milhões de euros (a maior parte para serem pagos pelos futuros responsáveis do Governo que se tenham habilitado a isso) para serem aplicados em obras que, neste momento, obrigam a uma reflexão profunda e a uma extrema e rigorosísima selecção.
Nesta altura do nosso “campeonato”, sabe-se que a dívida dos contribuintes portugueses ao Estado é de 3 mil e 200 milhões de euros. Uma barbaridade! Pois o custo do novo aeroporto de Alcochete, igualmente pelas contas de hoje, é de um montante praticamente igual, tendo sido divulgado também que o final daquelas obras se prevê (?!) para 2017, sendo que, em Março de 2009, o respectivo Plano Director da obra será presente ao Governo de então, para ser apreciado.
E aí está o panorama que se apresenta aos portugueses, se tudo correr segundo o estabelecido, que, como se sabe, é garantia que ninguém pode dar nesta Terra de imprevistos, em que o desenrascanço é a nossa especialidade e a não existência de responsáveis em nenhuma acção em curso é também outra das características.
Pois é, digam que a falta de confiança paira nestes blogues e o pessimismo é sinal de marca dos mesmos. Guardem-nos, guardem-nos, para serem lidos lá mais para diante. E, se formos todos vivos, logo tiraremos as conclusões. Porque o que é preciso é que tenhamos saúde para aguentar tanto tempo a aguardar pelos momentos em que as obras em Portugal já estarão pontas!
Prontas! deixem-me rir...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A POESIA



O que é isso afinal da poesia
das palavras emparedadas
por vezes rimadas
contadinhas as sílabas
em ritmos marcados
doces ao ouvido ?
Quem sabe que o diga
que deixe bem claro
aquilo que eu, por mim, não sei definir.
Algo que emerge
que sai quando quer
quando lhe apetece
e só dá sinal de si cá para fora
quando o vento corre de feição.
Nada há a fazer
é a inspiração a tal que existe
mas não quer antes ser vista,
só pode sentir-se
após exibir-se
na escrita, na tela, na pauta,
onde quer que seja,
onde quer que esteja
sujeita ao apreço,
ao desprezo,
à indiferença
de quem não a tem,
essa, a inspiração.

E quando ela surge
no meio da noite
despertando os justos
do sono profundo ?
Saltam as palavras,
as ideias,
os temas,
tudo em cascata
de frases poéticas;
mas não há papel no escuro da noite
depois se verá à luz do dia.
Mas a manhã chega
só resta o nada da escuridão.
Foi-se a inspiração !

O que é então a poesia ?
Será a doçura,
a ternura,
a contemplação,
a que não se esgota,
que muda de mão
e nunca é igual ?
É boa, é má, suporta-se enfim
mas é o produto
do esforço,
da busca,
da dura insistência,
do apelo às entranhas
para que a revolta,
o amor,
a fraternidade
passe para a obra
mude do etéreo
para o material,
o palpável,
o apreciável,
até o descartável.
É a insatisfação,
a consciência do seu valor,
a auto-crítica
que faz com que só haja um caminho,
um destino,
um fim
para aquilo que a inspiração
afinal não era destinada:
o cesto dos papéis,
o caixote do lixo,
o monte dos imprestáveis

Por vezes, porém, algo escapa
derrapa entre os dedos
salva-se do desespero
do desgosto de não ser capaz.
Será isso ainda poesia ?
Tem isto que aqui fica algo de poético ?
Se não, passou as malhas da auto-censura
E fugiu para as páginas de um livro,
deste livro.
Não respondeu à questão.
Não diz o que é poesia.
Não acrescenta nenhuma sentença
a qualquer definição já dada,
fica-se por aqui.
Mas se não é poesia
Representará pelo menos o esforço
de querer sê-lo.
Já não é pouco !

QUEM MATA A BUROCRACIA?


Fala-se tanto de um determinado político português, refere-se bastante aquela personalidade lusitana que dá muito nas vistas pelas sentenças lançadas nos jornais ou proclamadas nas rádios e nas televisões, aponta-se com certa admiração para uma determinada figura que dá respostas aos jornalistas com o ar de ser assim e não haver mais conversas, em resumo, são às centenas os indivíduos que, por qualquer motivo mais saliente, pretende dar mostras de que a sabedoria chegou ali e parou.
Os génios são uma espécie que não falta por estes sítios e que a comunicação social, tão escassa de gente nova para ouvir e ver e também de quem falar, repete, insiste, cansa, reproduz incessantemente fotos, quer novas quer rebuscadas nos arquivos onde não chegam a aquecer lugar.
É isto o Portugal que temos! Repetitivo, chato, a dar-lhe sempre na mesma e a não ter imaginação para novidades. Os próprios jornais, fracos de títulos, parecendo hoje incapazes de resumir em poucas palavras as ideias dos textos produzidos abaixo, não inovam, repetem hoje o tema que tem vindo a ser debatido há dias.
E isto para querer dizer o quê? Pois simplesmente por que não somos capazes de inovar, de ter imaginação para lançar novas pedradas no charco, para criar movimentos, algo de novo e de diferente.
A Imprensa, tal como está a suceder agora às editoras do nosso País, têm-se agrupado sob a protecção de um confortável capital, copiando o que tem sucedido com outros meios de comunicação com peso, para que não se diga que existe diferença quanto ao mundo do futebol, em que se disputam a peso de oiro artistas da bola, ao ponto de os melhores mudarem de sítio... mas tudo continuando na mesma, com falta de imaginação, de novidade, de independência, de amor à camisola.
Daí que, tudo que ocorre neste Portugal dos velhos costumes, se vai mantendo tal como sempre sucedeu ao longo dos tempos. Com Revoluções ou sem elas!
Somos lentos, pegajosos, desconfiados dos outros, mesmo que tenham boas ideias, e assim nos vamos mantendo por mais governos que mudem ali em S. Bento. Uns atrás dos outros.
E querem um exemplo rápido? Pois aí vai:
Sempre foi uma operação demoradíssima, de anos atrás de anos, isso de dar acolhimento familiar a crianças que tão têm progenitores em lares onde existe amor, vontade e meios para prestar educação e encaminhar seres que são vítimas da má sorte desde que nascem. Há 5 anos, mudaram as regras, no sentido de criar facilidades às normas de adopção. Verificou-se, apesar de tudo, alguma melhoria, a julgada conveniente pelos temerosos de darem grandes passos. Mas, a situação mantem-se um pesadelo, quer para a miudagem ansiosa de família quer para os candidatos – e são muitos – a receber no seu ambiente familiar os desejosos de amor.
A malfadada burocracia portuguesa com que se tropeça em todas as áreas de decisão da área oficial, essa gentinha que se continua a manter por aí, por detrás de secretárias que acolhem os “não prestam”, é tudo isso que, desde que este País se fundou tem vindo a gerir as nossas vidas e atrasar, cada vez mais, a ansiada evolução que nos foge a olhos vistos. Sobretuo agora, que há objectivos visíveis.
Perante tamanha mania do “empata”, já estou como aquele que, num rasgo de raiva por ver tudo sempre na mesma, não hesita em largar a sua frase preferida: “mais vale fazer mal, mas fazer, do que não ser muito perfeitinho, não fazendo nada!

terça-feira, 22 de julho de 2008

DEPUTADOS DA NAÇÃO

Os exemplos têm sempre de vir de cima. Se os maiores se sacrificam, nós, os cá de baixo, temos de mostrar maior adesão a todos os esforços que sejam feitos por aqueles que se dispõem a dar tudo pela Nação e pelo bem-estar da Pátria. Esta uma frase que bem poderia figurar em qualquer quadro pendurado nos Passos Perdidos, da Assembleia da República.
Isto vem a propósito das reformas que estão já programadas e que durarão enquanto os 230 parlamentares gozam as suas férias, prolongando-se até meados de Setembro. Tardarão quatro meses, e levando em conta a informação que corre em toda a comunicação social, fica-se a saber que os 230 representantes do Povo, quando regressarem à Sala das Sessões, terão à sua disposição 690 computadores, para além de um terminal destinado a cada um dos respectivos usuários. Tudo isso para juntar aos computadores fixos que cada deputado possui no seu gabinete e ao portátil que lhes é atribuído no início de cada legislatura.
Mas não ficam por aqui as benesses que estão destinadas a Suas Excelências. O ar condicionado será renovado, o som e a iluminação sofrerão melhorias, para além da instalação de dois écrans que serão colocados no local das reuniões Tudo isso não custará mais do que 2,9 milhões de euros, e os trabalhos terão lugar aos sábados e em dois turnos diários.
Não se põe em causa a necessidade de serem prestadas todas as condições essenciais para o bom exercício das funções dos elementos que ali se encontram em nome do Povo. A extrema exigência que tem de estar sempre presente quanto ao excelente desempenho das suas funções – e oxalá sempre assim fosse -, impõe que as condições de trabalho sejam as melhores. Sobre isso ninguém deve levantar dúvidas.
Vamos agora ver se todos aqueles senhores que são eleitos para trabalhar bem em favor da Nação, se todos, repito, (e não apenas alguns, as minorias), vão ser assíduos, cumpridores de todas as suas obrigações e intervenientes em lugar de mudos, como sucede com uns tantos, muitos, de que nunca se lhes ouviu a voz.
Temos de estar bem atentos, porque é o nosso dinheirinho que está em jogo e os tempos que correm e, sobretudo, os que vêm a caminho, não dão para gracinhas.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Quando me levanto de manhã e pocuro chamar à memória um tema me terá surgido durante a noite e que, nessa tranquilidade, me pareceu merecedor de ser passado ao papel, em muitas ocasiões, quando isso sucede,
face à claridade do dia de sol realizo tratar-se, afinal,
de um assunto vulgar, de uma matéria que não parece ser assim tão interessante como eu teria chegado a admitir.
Encaro a realidade.
Raciocinando enquanto estou mergulhado no banho, concluo que a luz ambiente que nos envolve transforma completamente o que o cérebro vê na escuridão. Logo, constato que a luminosidade é inimiga da imaginação.
De facto, por alguma razão eu produzo mais – não diria melhor – numa certa mesa do café que me acolhe, do que noutras que se encontram mais expostas à luz do exterior.
O ideal será, portanto, poder escrever às escuras.
Para não ver eu… nem ninguém!

SE SÓCRATES TIVESSE TEMPO PARA LER!...




Já ontem me referi às duas viagens relâmpagos de José Sócrates, uma a Angola e outra, 24 horas depois, à Líbia. E fiz a pergunta que ficará sem resposta, posto que nós, portugueses sem importância, não temos nada que saber o motivo por que se fazem tais gastos com as idas e vindas aéreas a países que, por muitas outras razões que possam existir, neste momento não se verificam a olho nu interesses de ordem económica que justifiquem esses rompantes.
Apareceu, entretanto, a notícia de que o nosso primeiro-Ministro considera a Líbia como um “parceiro estratégico” e que existe um enorme desequilíbrio desfavorável a Portugal no que diz respeito à balança comercial entre os nossos países. E, ara além de ser reaberta a nossa embaixada em Tripoli, depois de nove anos encerrada, só se ficaram pelas intenções de animar as “oportunidades” para a terra de Muammar Kadhafi, apontando-se o imobiliário, o turismo e a petroquímica, em contrapartida dos produtos petrolíferos que atingem os 1.500 milhões de euros.
Valerá a pena fazer comentários a estes sonhos socrateanos, de que teremos alguma vaga capacidade de compensar a grande diferença de valores nas trocas económicas entre os nossos dois países? Mas andamos a enganar quem? Terá essa fantasmagórica imaginação nascido na tenda que se montou quando o homem da Líbia nos visitou nos finais de 2007? Só pode ser isso, sobretudo porque a lista de tentativas para desenvolver as nossas exportações para terras alheias é tão vasta, que não lembraria efectuar agora esta viagem relâmpago das Mil e Uma Noites!
Já quanto a Angola, o outro destino nesta corrida aérea do chefe do Governo português, o problema põe-se de outra maneira. De facto, a antiga Colónia portuguesa atravessa um período de desenvolvimento que, sem dúvida, a riqueza própria do seu território – petróleo, diamantes, oiro, ferro, para não ir até às perspectivas próprias que a sua dimensão proporciona – oferece condições que, da nossa parte e como faladores da mesma língua, para além do entendimento humano que nos liga como povos, podem proporcionar um intercâmbio que seja considerado interessante em termos de trocas de actividades que seja útil a ambas as partes. Por aí, valerá a pena, sob todos os aspectos, desenvolver entendimentos que, segundo se sabe, outros países não lusófonos têm procurado levar a cabo. E com êxito!
Mas, como o período que atravessamos não se tem mostrado muito favorável às nossas conveniências, até a escusa de José Eduardo dos Santos em vir a estar presente na cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, muito embora Sócrates, na sua aparente ingenuidade, tivesse garantido em Angola que o Presidente angolano se deslocaria a Portugal por essa ocasião, a sua ausência não pode ser considerada como uma prova de estima declarada, o que, do nosso ponto de vista, não pode deixar de ser considerada uma lástima. Mas, ao fim e ao cabo, uma posição tomada terá uma importância que, com o decorrer dos tempos, poderá representar um elevado benefício: a ser considerado na prática e a não ser mais uma intenção que fica guardada nas gavetas, o envio de 200 professores portugueses destinados a apoiar o ensino secundário em terras angolanas representa um passo da maior importância que, agora, em 2008, não podemos deixar de considerar como sendo uma atitude tardia, lenta, tímida. Com tantos professores por cá a necessitarem de actividade, quantos milhares não se disporiam a tomar conta desse trabalho e como ganharia a divulgação da nossa cultura lusa por terras onde nos instalámos há cerca de500 anos!
E já agora, Governante Sócrates, haja alguém que lhe diga que o envio, em condições muito favoráveis para os angolanos, talvez com algum suporte de editores portugueses, de livros que estão a ser postos de parte por cá – recordamos que há novas empresas editoriais portuguesas que, com a junção abrutalhada de produções empresariais de livros, estão neste momento a destruir material de leitura em fornadas de labaredas - , essa medida teria os seus efeitos muito significativos na criação do espírito de leitura em português que, como se sabe, nunca foi atitude que interessasse a Lisboa, em todas as suas governações desde tempos remotos.
Tanto que há a fazer em favor do nosso País e que, ficando para segundas e terceiras núpcias, acabam sempre por não ser consideradas prioritárias!
Mas isto é só um insignificante blogue, escrito por um português que, tendo sido apenas um jornalista de toda a vida, que teve a mania de se interessar pelos problemas nacionais e nunca se escusou a prestar a sua opinião em temas que sempre considerou e considera ainda positivos, sobretudo os que passam despercebidos aos que nos governam, não tem, por isso, outra importância que não seja a de tentar ter a sorte de ser lido e pensado por alguém que terá o mínimo de Poder para decidir.
É pouco, bem sei. Mas quem dá o que tem e, sobretudo, não custa ao erário público um centavo que seja…

VENTOS

Bem longe de mim estão esses ventos
que sopram a outros e por mim passam
sem parar, sem olhar os meus tormentos
que também tenho e me trespassam

Quero agarrar o silvo desse vento
pleno de saber, de compreensão
quero-o para mim e bem o tento
mas é todo um esforço em vão

Brisa que passa cheia de alegria
envolta em bem e com boas notícias
se eu pudesse nunca partiria

Só tempo agreste é que quer ficar
o que vem carregado de sevícias
é que insiste à minha volta rodar

VIAGENS DE SÓCRATES




Não sei responder a uma pergunta que faço a mim próprio: se, para ser primeiro-Ministro em Portugal é fundamental andar numa correria de visitas a outros países, mesmo quando geograficamente se situam muito distanciados uns dos outros. Foi o que sucedeu por estes dias, em que José Sócrates terá pretendido bater alguma competição de cumprimentos a chefes de Estado estrangeiros, o primeiro o de Angola, para onde partiu numa madrugada, regressou na outra e, mesmo sem pôr pé na nossa Terra, seguiu directamente para a Líbia, talvez porque as saudades de Kadhafi, desde que ele cá esteve com a sua tenda no final do ano passado, já eram muitas.
Isto poderia servir de graça para amenizar o mau humor que paira por cá nesta fase em que estamos envolvidos e em que, por um lado, nos encontramos no início do período de férias que não podem este ano ser gozadas com a satisfação de outras épocas anteriores, e as tristes realidades da situação em que nos encontramos.
Logo, assistir ao dispêndio que significam essas viagens que, sem serem claramente esclarecidas quanto à sua utilidade e aos eventuais resultados positivos que as mesmas podem representar, fazer essas passeatas e não prestar contas a ninguém – nem as Oposições se incomodam em levantar os assuntos -, não podem constituir atitudes que mereçam aplauso.
Mas adiante. Como não li nem ouvi nenhum comentário sobre este acontecimento, sou forçado a deduzir que não terei razão para levantar o problema e que iremos sentir em breve os efeitos positivos dessa cansativa passeata de Sócrates. Ele lá sabe! E nós que nos metamos na nossa vida…
Mas, mudando de assunto e ao tomar conhecimento de que Madrid tomou a decisão de, finalmente, ligar o continente europeu ao africano, por meio subterrâneo que sairá de Tenerife e irá até Tânger, através de um túnel ferroviário de 40 quilómetros, o qual ficará operacional em 2025 e custará 5 mil milhões de euros, ao deparar com tão importante medida a cargo dos nossos vizinhos espanhóis não pude deixar de me inquietar. É que todos nós temos acompanhado o que tem vindo a ocorrer com o nosso túnelzinho do Terreiro do Paço, e como não podemos nem devemos atribuir as más notícias apenas aos nossos casos, temos de fazer votos para que a boa sorte acompanhe os atrevimentos dos outros. Bem se sabe que, para além do Túnel da Mancha, outros quatro de grandes dimensões já se encontram a ser de grande utilidade em diferentes regiões, mas mesmo aqui à nossa porta é coisa que tem de nos causar certo mau estar…
Mas, enfim, nem tudo são situações que só os outros é que beneficiam delas. Nós, os portugueses, temos uma coisa que causa grande inveja a muita gente estrangeira: o mar de que dispomos em pleno Atlântico, essa zona económica que nos pertence, representa uma área que é 18 vezes maior do que o nosso território nacional. E essa hem?!”
Não digo mais nada. Não escrevo nem mais uma linha!...

sábado, 19 de julho de 2008

VELHOS E NOVOS




Nada como um velho para contar
aquilo que se fez enquanto moço
mesmo que muito possa olvidar
é como água límpida do poço

Os novos muito têm a aprender
se souberem seguir tanta ciência
porque a vida levada a sofrer
dá saber e dá muita paciência

Os jovens, por muito insatisfeitos
por mais impacientes que eles sejam
não é aí que perdem os direitos

Não é por aos mais velhos atender
não é por muito apressados que estejam
que não lhes sucede o mesmo, que é morrer

INJUSTIÇAS NACIONAIS


Já fiz referência à razão por que utilizo estes blogues (continuo a escrever o nome em português) e, para o caso dos eventuais seguidores que não tenham tido ocasião de tomar conhecimento, repito que este espaço me serve para exteriorizar os sentimentos que me assaltam, quase diariamente, e que considero que não os devo guardar só para mim. Mesmo não servindo para nada a sua leitura (claro que depende de quem lê!), a mim alivia-me o espírito. Criticar, tal como aplaudir, tem a sua utilidade. E é um direito que nos assiste, a nós como cidadãos que não queremos ficar indiferentes ao que se passa à nossa volta. O bom e o mau.
Neste momento não quero deixar passar em branco um acontecimento que apenas mereceu sair agora num simples rodapé de um diário. Trata-se da referência a uma investigadora portuguesa, de nome Maria Manuel Mota, investigadora do Instituto de Medicina Molecular, sim, uma instituição portuguesa, que descobriu uma “nova e barata forma de prevenção da malária, mais conhecida por paludismo”, doença que mata cerca de dois milhões de pessoas por ano – só isso! Muito embora tenha já recebido o Prémio da Fundação Europeia de Ciência, em 2004, mesmo assim, entre nós, é uma ilustre desconhecida.
Se se tratasse de uma dessas figuras que se movimentam no chamado “jet set”, pessoas da maior inutilidade para o País que somos, se se tivesse tratado de um caso ocorrido com um daqueles que, mesmo bem, dão uns pontapés na bola e, por isso, ganham milhões, se estivesse em causa alguém que tivesse mandado matar o marido para ganhar um seguro, se a sua preocupação se fixasse na escrita de um livro sobre as maneiras de se sentar à mesa ou se apresentasse como autor ou autora de uma descrição das malandrices do parceiro/a de cama…, sobretudo se esse alguém se tratar de personagem com público, e por aí fora, se fosse uma dessas figuras que enchem as páginas dos jornais de segunda e das revistas ditas de sociedade, então figuraria em tudo que é referência aos casos chamados interessantes e andaria na boca dos pobres comentadores, de escrita, de rádio e de televisão que se consideram, eles próprios, “jornalistas”, “escritores” e “personalidades perigosas”. Eu, por mim, sem o auditório e sem seguidores de leitura de tal gente que, diga-se a verdade, conta para a análise dos consumidores de notícias – tenho o público que tenho! Faço aqui um sublinhado a uma portuguesa, jovem, estudiosa e interessada em participar na melhoria do mundo em que vivemos. Só isso! Lerá, quem ler. Que não serão, certamente, aquele número de pessoas que se fixam embasbacadas nos casos dos namoros, dos casa e descasa, das agora emprenha para depois desmanchar, de todas essas situações que, diga-se a verdade embora com vergonha, vende…
E só mais um caso: não sou dos que nutre grande admiração pelo presidente do Governo da Madeira, se bem que, reconheço, se fosse madeirense, talvez nutrisse uma opinião mais benevolente sobre tal figura. Mas, ao tomar conhecimento do seu comentário quanto ao crédito que Portugal acaba de conceder a Angola, um País com petróleo e diamantes, quando recusa àquele arquipélago um empréstimo para o seu desenvolvimento, quando nós por cá atravessamos um período de “tesura” assustadora, nestas circunstâncias também não encontro explicação para este e outros actos políticos que nem os maiores são capazes de explicar… nem o querem fazer. Muito embora não deva omitir que a Madeira tem sido bastante favorecida pelos dinheiros da Metrópole.
E, por último nesta fase do blogue, terá igualmente justificação esta pergunta: é correcto e útil para Portugal que se exija aos imigrantes, os que são dotados de licenciaturas reconhecidas, que tenham de efectuar o pagamento de cerca de dois mil euros para verem acreditados os seus diplomas universitários de origem, alguns de inegável maior valor formativo de conhecimentos do que os equivalentes nacionais, isto para não falar no longo período de espera a que se têm de sujeitar os requerentes, a maior parte deles de origem ucraniana? Que ganhamos nós em não sermos capazes de receber esses apoios, de ordem técnica e científica, que nos é oferecida por pessoas que, nos seus países, não conseguem desempenhar as actividades para que têm excepcional preparação? É o que se pode chamar sermos pobres e mal agradecidos!
E pronto. Quem ligou a estes comentários, ligou. Quem encolhe os ombros e prefere ir seguindo os casos que os alcoviteiros contam por aí, sobre os amores e desamores de gente que não interessa nada ao nosso País, pois que continue. E que sejam felizes.