sexta-feira, 19 de setembro de 2008

HELENA ROSETA


Não há nada mais claro para demonstrar a capacidade dos que assumem a responsabilidade de exercer uma função pública, do que ser anunciada a entrega dessa responsabilidade e, tempos depois, analisarmos os resultados do trabalho executado. Os que não são distraídos – e esse, por enquanto, ainda não é o meu estado – avaliam com atenção aquilo que resultou da actividade que a personalidade pública aceitou tomar a seu cargo.
É o caso do que se passa agora com Helena Roseta que, depois de ter desistido da tarefa de reconstruir a chamada “Baixa-Chiado”, se propôs agora apresentar um programa de habitação da capital e isso ainda este mês.
Não é um compromisso fácil de levar a cabo, temos de reconhecê-lo, mas como a vereadora de Lisboa se compromete a submeter esse trabalho a debate público – vamos a ver como -, pelo menos terá a possibilidade de efectuar alterações naquilo que a opinião dos cidadãos não for a mesma da autora do documento.
Como eu tenho afirmado ao longo de vários anos em que dedico, nas minhas escritas, profunda atenção ao que nos mostra Lisboa e o que deveria ser se houvesse alguém que se entregasse de alma e coração a efectuar a enorme transformação que a capital pede, é urgente, há muitos anos, introduzir vida nesta cidade que, a partir de certas horas do dia, se apresenta como que um local abandonado pelos cidadãos. E isso, sobretudo porque na parte pombalina – mas não só – os prédios estão abandonados de famílias, substituídos por escritórios, e as velhas casas, a cair aos bocados, não merecem sequer ser olhadas.
Logo, o que há a fazer é muito. Basta haver bom senso e disposição para levar por diante uma tarefa que, no que a mim diz respeito, me daria enorme satisfação de levar a cabo, muito embora seja necessário contar com um apoio profundo de toda a Edilidade e conseguir que algumas leis dos tempos do era uma vez sejam modificadas, por forma a não se perder tempo com as reivindicações dos velhos senhorios, se bem que estes, que não possam efectuar obras, tenham de ser compensados justamente.
Daqui envio a Helena Roseta o estímulo para que faça aqui em Lisboa aquilo que não fez em Cascais, quando lá foi presidente. Mas o tempo que passou deve-lhe ter servido para alguma coisa.

LOUCOS


Tu, que és louco
louco como te chamam,
que vives no teu mundo
isolado do resto da maralha
falando contigo mesmo
respondendo às tuas questões,
que és o interlocutor de ti próprio,
para ti não há vida.
E morte?
talvez também não
pois se não te calhou tal sorte
e, como Pessoa diz,
nem Deus,
tudo se passa ao lado,
és prisioneiro de ti próprio
mas não dás por isso,
os outros, os que te olham,
surpreendidos,
dizendo-se pesarosos,
esses não compreendem,
como têm os seus problemas
não sabem quais são os teus,
não descortinam se, no fundo,
isso em ti é felicidade,
se aquilo que é a tua imaginação,
até a tua capacidade
de seres outro,
diferente,
real ou inventado,
te transporta a uma vida etérea,
a séculos atrás,
a anos passados
ou ao futuro sonhado.
Que sabem os que te miram,
que se passa no teu íntimo?
Se é melhor que te droguem
ou que te deixem flutuar
nos teus sonhos,
nas tuas maravilhas,
nas tuas reflexões?
Que, desde que não interfira no mundo,
seria preferível
não te transportar até ele
esse que se afirma ter justiça,
a dos homens,
a dos não loucos,
a dos sapientes.
Tu, que és louco
como te chamam
deixa-te ficar
não ligues àqueles
que te atafulham
de pastilhas,
que te metem na cama
a horas certas,
no mesmo sítio,
que te dão de comer
a horas certas,
no mesmo sítio,
que te acordam
a horas certas,
no mesmo sítio.
És tu o louco, afinal?
Ou isolas-te da loucura do resto?
Dos das horas certas,
Dos do mesmo sítio.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

D.QUIJOTE DE LA MANCHA



Viver sonhando, cavaleiro andante,
fidalgo adormecido com leituras
acompanhado por seu ajudante
Sancho Panza, o homem das gorduras
foi pela pena de Miguel Cervantes
que nasceu Don Quixote de la Mancha
uma obra das mais extravagantes
que nos livros provocou avalancha.
Limpou armas velhas de antepassados
estudou nome para o seu cavalo
pôs nisso todos os melhores cuidados
passou a ser mais um fiel vassalo
Rocinante se veio a chamar
embora belo exemplar não fosse
também de princesa veio precisar
uma donzela com um fundo doce
e a uma moça de bom parecer
que pouco conheceu o cavaleiro
crendo que seria sua mulher
e que daria força ao guerreiro
Dulcinea de seu nome criou
e sem mais esperas, de corpo inteiro
os seus trajos de guerra enfiou
com os cuidados de homem solteiro
colocou a espada e a lança na mão
e sem ter de dar contas a ninguém
montando Rocinante com paixão
partiu por aqueles campos além.

São longas histórias do trajecto
com dormidas em casebres bem pobres
imaginando-se sob bom tecto
e crendo comer à mesa dos nobres
falando a sós com muitas fantasias
procurando os moinhos de vento
quais gigantes que eram manias
mais do que isso eram tormento
pois que as suas velas que giravam
eram para Quixote braços compridos
que aos cavaleiros ameaçavam
com seus rodopios e seus grunhidos
o escudeiro Sancho Panza, coitado,
bem procurava o amo acordar
pois não seria um qualquer malvado
mas apenas moinho em seu rodar.
E também em suas mulas dois frades
foram alvo do sonho de Quixote
que picou Rocinante com vontades
de dar aos dois monges um chifarote.
Vinham de preto duas criaturas
pareceram a Quixote malvados
sendo autores das mais negras loucuras
merecendo assim ser castigados.
Teve o escudeiro de acudir
mas mesmo assim acabou tudo mal
pois não foi nada fácil conseguir
convencer que era gente de moral
pelo que Quixote clamou aos gritos
por Dulcinea, flor da formosura
para que o salvasse dos atritos
a si mesmo, o da boa figura.
De tudo que ao fidalgo sucedeu
engenhoso de tristes aventuras
não se daria com qualquer plebeu
por maiores que fossem as bravuras.
Mas aos famosos também o fim chega
p’ra D. Quixote não houve perdão
e o Céu não lhe deu nenhuma achega
dando como finda sua missão
morreu rodeado de alguns amigos
de Sancho Panza e do seu barbeiro
e de outros que correram perigos
sofrendo alguns enganos do guerreiro
a todos confessou naquela hora
no mais belo e puro castelhano
pois devia afirmá-lo sem demora
que o seu nome era Alfonso Quijano
e D. Quixote já não se chamava
odiava histórias profanas
assim como uma atitude brava
com antigas manias espartanas.

Esta a confissão de Miguel Cervantes
depois do seu belo livro terminar
não era possível fazê-lo antes
mas foi uma atitude exemplar

AJUDA POR UM LADO, DESPERDÍCIO POR OUTRO


Surgiu a notícia de que Portugal recebeu este ano 12 milhões e meio de euros para dar comida aos pobres., dentro do Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados. E esclarece que, com esta verba, devemos adquirir várias toneladas de cereais, leite em pó desnatado e arroz para distribuir por instituições de solidariedade social.
Ora, não me cabe ter dúvidas quanto à isenção e honradez posta nas entidades que se situam no centro da recepção e na distribuição daquilo que surge por ordem de Bruxelas e se destina aos mais necessitados. Mas que, perante tanta falta de honestidade que todos os dias chega ao conhecimento da população, é compreensível que surjam dúvidas, pois que se é comunicado que recebemos o auxílio, o natural é que a distribuição também fosse motivo de notícia, e isso, com toda a clareza, não constitui preocupação para os que têm a seu cargo p mais importante da acção, que é o fazer chegar os produtos às mãos dos necessitados.
Poderão chamar a isto desconfiança excessiva. Será. Mas quem não deve não teme e por isso levanto aqui a situação, como o faria nas páginas de um jornal que, como aconteceu tempos atrás, tinha â minha disposição.
Mas, para não me ficar por aqui, aponto ainda outro assunto que, não sendo a primeira vez que constitui motivo dos meus escritos, por continuar tudo na mesma nesta cidade de Lisboa, me causa a maior das indignações, sobretudo quando um Município como o da capital se mostra tão débil de finanças. Trata-se da actuação da EMEL que, tratando-se de uma empresa dependente da Câmara Municipal, deveria actuar com toda a eficiência.
Como é sabido, em grande parte das ruas lisboetas, onde existem os postos de pagamento do tempo utilizado como estacionamento de automóveis, esses aparelhos não funcionam, até porque se montou uma máfia de arrombadores das caixas com o dinheiro que ali é posto pelos automobilistas cumpridores. Daí que a própria EMEL se conforme e não faça a fiscalização dos carros que não exibem nos para brisas os bilhetes com a indicação da hora a que têm de voltar a pagar.
A pergunta a fazer é esta: então não se preocupa a C.M.L. em tornar rentável uma disposição que, para além de tudo, proporciona aos residentes em ruas estabelecidas que tenham lugar para aparcar as duas viaturas, dado que, numa autêntica anarquia, existem carros que permanecem meses sem conta a ocupar espaços como se se tratassem de estacionamentos definitivos? E ao Município não lhes faz falta esse dinheiro?
São muitas destas ineficiências por parte daqueles que têm o mando na mão que nos deixam boquiabertos. E nós temos de suportá-los, sem nada poder fazer para os acordar do torpor em que os mantém sentados nos seus cadeirões.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

DIREITOS E DEVERES


O Homem tem seus direitos
os gregos foram primeiros
e a demo com seus defeitos
teve aí os seus obreiros

Os romanos se seguiram
as Doze Tábuas criaram
mas os plebeus não se riram
longe dos nobres ficaram

A Revolução Francesa
fez algo p’lo cidadão
trouxe alguma firmeza
na sua Declaração

Mas só a França lucrou
a Europa estava fora
e o mundo nem se atinou
com tais sinais de aurora

Foi precisa uma guerra
que espalhou p’lo Universo
malefícios de quem erra
mostram o Homem perverso

No fim as Nações Unidas
lá do Homem se lembraram
p’ra tapar muitas feridas
a Declaração criaram

A segunda, a que existe
extensiva a todo o mundo
mantendo o dedo em riste
mas pouco eficaz no fundo

Muçulmanos, por exemplo
tolerância não conhecem
e mesmo crentes no templo
as mulheres só obedecem

Respeitar opiniões
é coisa que não aceitam
provocando explosões
aos que o Islão rejeitam

Porém há tantos que tais
que aos outros não dão direitos
e mandando querem mais
julgando-se até perfeitos

Pois todas as ditaduras
de quaisquer ideologias
têm as mesmas posturas
de severas tutorias

Mas de direitos falando
úteis p’ra todos os seres
é bom não ir olvidando
que também há os deveres

Uns e outros são irmãos
até gémeos por sinal
e todos os cidadãos
devem ter esse ideal

Direitos têm de haver
essa regra é de ouro
mas deveres não esquecer
fazem parte do tesouro

Nunca é demais lembrar
quem os direitos quer ter
que os deveres têm de estar
ao lado de cada ser



NÃO MUDAM ALGUNS MINISTROS'?


Têm razão se me chamarem a atenção para o facto de dedicar excessivo espaço ao tema da justiça em Portugal. Mas, por mais que eu me queira afastar deste assunto, ninguém me convenceu ainda que, de todos os males que nos envolvem no nosso País, este de termos uma actuação do tribunais que não se coaduna com as necessidades de contarmos com uma justiça justa, bem aplicada, dentro dos tempos que se consideram essenciais para que não chegue quando os casos já e encontram na área do esquecimento dos acontecimentos, numa palavra, numa aplicação de leis que se ajustem com a realidade da vida.
Não me canso de sublinhar: não é isto que ocorre cá dentro das nossas fronteiras e as consequências fazem-se sentir em todas as outras áreas da nossa sociedade, logo, em praticamente todas as zonas cobertas pelas diferentes zonas governamentais.
É possível haver uma educação perfeita, uma administração interna correcta, uma economia bem organizada, uma saúde que satisfaça os cidadãos, um ambiente aceitável, uns transportes correctamente orientados e todas as outras actuações sob orientação governamental que necessitam da maior perfeição, se o sector da justiça se encontra longe da perfeição e faz gala dos atrasos imensos com que soluciona os problemas que tem em mãos?
Discute-se por aí se a culpa é dos juízes ou é das leis. Uns “sábios” dizem umas coisas e outros optam por opinião diferente. Mas o que é verdade é que se assiste a crimes sem prisão, que nem os tiros dentro das esquadras policiais merecem um julgamento severo, que são libertados autores de procedimentos que o cidadão normal se interroga se isto anda agora ao Deus dará, ao apetite dos juízes, que nunca se atingiu uma tão elevada onda de assaltos, já não só em bancos mas em qualquer lojeca que, ao fim do dia, poderá ter umas poucas centenas de euros na gaveta.
A pergunta que cabe fazer, nesta altura e a propósito do agravamento das situações por resolver, é se. De facto, o Governo não está a pedir uma renovação de alguns dos seus membros. Será que Sócrates quer chegar até ao fim do seu mandato com os mesmos fulanos que já deram provas bem nítidas de que são incapazes de levar o seu barco a bom porto?
Talvez pague caro essa teimosia. As eleições já se começam a aproximar e o descontentamento dos portugueses quanto a casos que ainda têm remédio – não me refiro, evidentemente, à crise financeira e económica que abala grande parte do mundo -, esse desagrado tem vindo a acentuar-se. Atenção, pois, sobretudo porque o principal partido da oposição ainda anda à procura de uma orientação, mas pode reabilitar-se de repente!

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O MEU JARDIM


Que lindo é o meu jardim
Todo feito sem esforço
Com seu cheirinho a jasmim
E cavado sem remorso

Os gatos do meu vizinho
Vêm dormitar ao sol
Há odor de azevinho
E lá vai um caracol

As rosas quando florescem
Fazem esquecer os espinhos
Aqueles que as conhecem
Procuram-nas pelos caminhos

Buganvílias lindas são
E há-as de várias cores
Caem folhas para o chão
Mas são sempre os meus amores

A terra e o seu cheiro
Que o estrume agudiza
Preenchem cada canteiro
E refrescam mais a brisa

De manhã, de manhã cedo
Ouvem-se as avezinhas
Não posso mexer um dedo
Que não se assustem ‘tadinhas

Minha mulher cuida delas
Das ervas de cheiro, úteis,
O seu fim são as panelas
Não se diga que são fúteis

Com a pazinha de cabo
E o sachinho de furar
Lá se mandam p’ró diabo
Ervas daninhas danar

Os cactos que alguns não gostam
São afinal bem bonitos
Coitados, até se encostam
Aos que acreditam em mitos

Quando chega o fim do dia
Meu jardim é uma festa
Um melro co’a sua cria
Ao nosso enlevo se presta

Que lindo é o meu jardim
Não me canso de cantar
Se o perdesse, então sim,
Alguém me via chorar


DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Parece-me que, noutro escrito, já me referi a este tema. Se sim, como não releio o que redijo, para não me arrepender e dar o dito por não dito, não posso confirmá-lo. Mas, também não me importo de repetir. A insistência dará o seu resultado. Já lá diz o ditado que “água mole, em pedra dura…”
A questão é a de esta nossa capital mostrar uma plena aversão às flores. Não será a cidade, ela própria, mas sim quem dispõe de poder para interferir no seu aspecto e na sua funcionalidade. Alguma coisa de útil, de belo, de imaginativo. Que, sem mexer muito nos cofres da Edilidade, seja digno de aplauso por parte dos lisboetas.
E quando me refiro à ausência de canteiros, vasos com flores e tudo que possa servir para exibir plantas lindas, não quero dizer apenas o acto de as plantar, mas também manter uma equipa de jardineiros que cuide regularmente da sua manutenção.
Mas não só isso. É imperioso educar os cidadãos, de modo a respeitarem o que está florido. Dizer-lhes, por todas as formas que a comunicação oferece, que as flores pertencem-lhes, que estão ali para agrado da população.
E essa educação, como tantas outras, começa no ensino primário. Entusiasmando e premiando as escolas que fomentem, como já se tem visto nas praias, a limpeza dos espaços floridos. Retirando os restos de cigarros, os papéis e tudo que esteja a mais.
As Juntas de Freguesia deviam ter essa preocupação em cada zona a seu cargo. Era dividir o trabalho pelas aldeias…
Mas, que fantasia a minha! Como isto que se escreve com a maior facilidade, pudesse ser acolhido de bom grado por aqueles que lhes custa viver em comunidade. Eu, por mim, dou uma ajuda. Sugiro. Já é alguma coisa.
E se me refiro a Lisboa, que é o que tenho à mão, estendo esta observação a todo o Portugal. Porque a carapuça serve a quem a enfiar. Ou a quem, podendo mudar as coisas, não faz nada pela terra onde vive. Se este texto vier a figurar num livro e esse chegar a diversos pontos do País, então que os que o lerem metam a mão na consciência. E digam se não fica mais bonita a aldeia, a vila ou a cidade onde residem, com flores espalhadas e cuidadas. Claro, bem cuidadas!...


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A CABALA



A palavra tem andado, há uns tempos para cá, muito nas páginas dos jornais. E alguns políticos utilizam-na com excessiva frequência, talvez sem cuidarem de saber exactamente qual a sua origem e menos ainda o seu significado, mas, seja como for, sobretudo o caso que se tem arrastado há anos, o da Casa Pia, é que apelou ainda mais ao uso daquela designação.
Trata-se da palavra cabala que, na interpretação mais vulgar, significa maquinação, tramóia e maledicência saída de grupos formados para destruir alguém ou alguma coisa. Daí vem a expressão tão usual agora de “cabala na Casa Pia”, aplicada nas situações de prisões preventivas, quer para as justificar quer, pelo contrário, para defender vítimas dessa aplicação legal.
Mas adiante. O que eu aproveito é para esclarecer quem eventualmente não saiba, que a palavra resulta de uma interpretação hebraica, mística e alegórica do Velho Testamento e, segundo um bom dicionário, significa a arte imaginária de comunicar com espíritos e, a partir do século X, a cabala considerou-se como uma ciência secreta e misteriosa dos judeus. Logo, há que ter algum cuidado e atenção quanto a haver pretensões de se considerarem cabalistas todos os que usam a expressão por dá cá aquela palha.
Seja como for, acho curioso que, num processo que constitui uma verdadeira demonstração da ineficiência da nossa Justiça, no sentido geral da expressão, que ninguém sabe como é que vai terminar aquele “folhetim” vergonhoso, quando se vêm já em plena movimentação figuras que, durante um largo período, se mantiveram encarceradas, é estranho, no mínimo, ter mais importância uma palavra de que poucos conhecem a origem e o seu significado do que a explicação dos motivos do arrastamento do processo – e dos seus custos que todos nós suportamos – e a demonstração pública de que há que fazer alguma coisa numa área que é das mais mal tratadas do conjunto de problemas que afectam o nosso País.
Deixemos, pois, a cabala e façamos todos algo para que passemos a ter em Portugal uma Justiça justa, rápida e eficiente. Ámen.

domingo, 14 de setembro de 2008

ATÉ OS CABELEIREIROS1...




Aparecem agora as opiniões dos magistrados que criticam a legislação aprovada pelo Governo há um ano, em que apontam o dedo dizendo que os crimes subiram com essa reforma penal.
Da parte do Executivo, obviamente do Ministro da Justiça, não se ouviu ainda uma resposta a esta grave acusação, sobretudo quando a magistratura afirma, alto e bom som, que o número de presos desceu e a criminalidade aumentou.
Uma coisa é certa: as consequências da dita reforma estão à vista. O clima de insegurança que paira em Portugal, a série de assaltos à mão armada que são anunciados todos os dias e as centenas de presos que foram libertados criando um clima de impunidade para certo tipo de criminalidade, tudo isso faz com que este nosso País, antes considerado como modelo, sobretudo para o turismo que nos visitava com a maior tranquilidade, seja agora olhado com desconfiança e os resultados nas receitas turísticas e as vagas nos hotéis até na última época alta, tudo isso contribua para que a nossa situação económica vá piorando e, pelos vistos, não se descortinam atitudes do Executivo que mostrem estarem a caminho medidas que ponham cobro a tamanha avalanche criminosa. Imagine-se que, a notícia mais recente é a de que um cabeleireiro em Sesimbra foi assaltado à mão armada em pleno dia, na hora de movimento de senhoras a cuidar da sua aparência e, para além do roubo dos valores pessoais das clientes, um dos assaltantes atingiu uma cliente com uma bala.
Já nem podem as tristes senhoras ir cuidar da sua aparência!

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

A futilidade é a característica dos simples.
Ser simples, é não complicar as coisas.
Não complicar é viver na harmonia.
Sendo assim, o fútil é o que está mais perto da felicidade.

EU...



A 19 de Março
nesse mês de Primavera
sou Peixes e não disfarço
nasci eu, nasceu a fera

Foi na década de trinta
já lá vão bastantes anos
muita coisa já extinta
belezas e desenganos

Lá nas Caldas da Rainha
minha mãe me deu à luz
só não fui um alfacinha
era essa a minha cruz

Desigual de muita gente
não subi no pedestal
talvez roçasse a tangente
mas nada de genial

Escrita e poesia
pintura também saiu
música eu bem queria
mas tal não me acudiu

Sei o que é ser conformado
com o patamar que tive
menos mal por ter chegado
ao alto de um declive

Afinal e em resumo
perto de chegar ao fim
há que dizer com aprumo
eu nunca gostei de mim


sábado, 13 de setembro de 2008

FAZER FILHOS... MARCHE!


Quem se preocupa com o futuro do mundo, com aquilo que irá ser esta bola em que todos nós, os vivos, nos movimentamos, fazemos os nossos projectos, procuramos que o que vem a seguir não seja assim tão desastroso como muitos dos “adivinhadores” do porvir alvitram, quem ainda dedica alguma espaço do seu tempo a tentar descobrir as mudanças que inevitavelmente surgirão, mas conservando no seu íntimo ainda alguma esperança de que os homens conseguirão suplantar as dificuldades que surgirem, quem assim procede, mesmo perante as más notícias que nos chegam constantemente lançadas pelos físicos, como é o caso do aquecimento global que, segundo se verifica, não está a perdoar e vai derretendo o gelo polar, apesar disso não se deixa abater e é bom que assim seja, pois que o deixar cair os braços à espera do descalabro não resolve nenhum problema.
Será assim, pois será. Mas que não podemos, nem devemos tentar ignorar os acontecimentos, antes, sem desnecessários pessimismos, os temos de encarar e, se estiver nas nossas mãos, fazer os possíveis para que se verifique uma reviravolta, esse será o mínimo que nos cabe fazer, caso o nosso esforço tenha alguma utilidade.
O caso que sublinho hoje, retirado das notícias publicadas, é o de que já está apurado que, em 2007, em Portugal ocorreram mais funerais do que nascimentos de cidadãos. Desde 1918 que não ocorria esta comparação e nos estudos efectuados chegou-se à conclusão de que, entre nós, as pessoas com idade superior a 65 anos já são mais do que as que se situam no espaço até aos 15.
Pois bem, para quem tinha dúvidas quanto a que estamos a ficar um “País de velhos!”, podem agora tirar as suas conclusões. E é bom que se fixem no problema das reformas. Se for superior o número dos que recebem comparados com os que pagam, é bom que os portugueses se despachem a fazer filhos de enxurrada, e não é preciso que seja por gosto… para referir a canção, mas sim por necessidade, que é o que aconselha a estatística.

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Não são poucas as vezes que me chega ao pensamento um futuro em que, com a idade que já atingi e a que, provavelmente, venha a alcançar, não possa vir a dispor de mim com a agilidade que me caracterizava na época de pujança física, embora nesta altura a contar ainda com uma cabeça a funcionar em pleno.
Não me assusta morrer. Tenho é pavor de ficar entre o cá e o lá, numa meia vida. Como já ouvi dizer a alguém, o ideal é acordar uma manhã morto. Não passar por esse martírio de ir ficando sem vida aos poucos. Lentamente. Se tem de ser, pois que seja, mas depressa.
Nada pior, penso eu, do que estar inutilizado e ter a memória em pleno. De só poder lembrar-se do que se fez, emendando o que saiu mal e recriminando-se por aquilo que poderia ter seguido outro percurso. Deve ser horrível tal situação. As imagens televisivas que já foram mostradas de enfermos completamente inutilizados por incapacidade absoluta de poderem mover qualquer parte do corpo, mas conservando a cabeça em funcionamento, rogando encarecidamente para alguém, especialmente um médico, pôr termo a tamanho sofrimento, a visão de tais desgraças revolta-me, como se, neste mundo de guerras, de mortes em catadupa provocadas por exterminadores sanguinários, como também de abandono à morte de multidões de famintos por esse planeta fora, ter a caridade de praticar a eutanásia com um infeliz que pede aos vivos que façam com que a sua pseudo vida termine, considerar os que têm compaixão de tamanha amargura devem ser julgados como criminosos é uma atitude de um grande número de seres humanos que obedece a regras judiciais e/ou religiosas que, no meu conceito, não merecem sequer classificação de nenhuma ordem.
Pode-se matar às centenas de uma só vez, e isso está a acontecer praticamente todos os dias por esse mundo fora, mas não é permitido livrar do pesadelo do sofrimento um só pobre ser que clama por compaixão porque não aguenta mais manter-se naquela inutilidade de existência.
Penso neste mundo hipócrita e revolto-me. E assusto-me. E indigno-me. Oxalá o meu adeus não seja o de ter de implorar que me apliquem uma injecção letal ou que desliguem a máquina.
A caridade humana na maioria dos países fica-se por não ser autorizado praticar a eutanásia. Matar só um, mesmo que se encontre no momento decisivo da sua vida e a seu pedido, é crime. Fazer explodir petardos no meio de dezenas de pessoas indefesas, isso já é um acto de heroicidade. É tudo uma questão de ponto de vista. Religioso ou não.
A vida de cada um pertence exclusivamente a esse um. Não tem de ser pedida licença a ninguém para morrer. Já basta não ter sido chamado para autorizar o nascimento. Claro, isso não é possível. Então…



DESPERCEBIDO


Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

DESENCANTO...POR ENQUANTO!


Ganhei um amigo. Inesperadamente. Caído do Céu. Apareceu-me com mansidão. Observando-me para tirar dúvidas. Via-se no seu olhar um certo ar interesseiro. Encostou-se a mim. Deu uma vista de olhos pelo ambiente que o rodeava. Pareceu não lhe desagradar. Sentou-se, Cheirou-me e deu ao rabo.
Pois é isso. Foi um cão que se aproximou da mesa do exterior do café onde costumo escrever. E, nessa manhã, já pouco fiz, porque o Fidel, nome que lhe pus por minha conta, por ter acabado de ler que o ditador cubano tinha adoecido. E Fidel dá para nome de cão, por representar aquilo que é característico desse animal – a fidelidade.
Mal me sentei e estendi sobre a mesa o material da escrita, senti que algo fungava junto às minhas pernas. Era ele. Grandinho, de pelo acastanhado claro, com uma mancha mais escura no peito e sem coleira. Não teria dono, deduzi.
Nesse dia, não sendo meu hábito, estava a mastigar um desses bolos de arroz, que enchem e são honestos de fabrico. Reparti um pedaço com o meu inesperado companheiro e verifiquei que lhe tinha sabido bem. Acabei por ficar eu com a mínima parte.
Dediquei-me ao meu trabalho e constatei que o Fidel se deitou ali ao lado. Volta não volta levantava uma pálpebra e confirmava que eu estava no mesmo lugar. Mirava-me, o malandrão. Ganhou, com isso, uns carinhos, que aceitou de bom grado. E ficou por aí o relacionamento.
Na manhã do dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, aproximei-me do meu poiso habitual. E qual não foi o meu espanto, quando contemplei o Fidel deitado precisamente no mesmo sítio onde tinha estado na véspera. Mal me viu aproximar, levantou-se com rapidez e veio ao meu encontro, dando depois uma volta e encaminhando-se para o lado da mesma cadeira do dia anterior.
Não podia acreditar em tamanha sagacidade. Claro que a sua apetência era a do bolo de arroz. Por isso, com o café encomendei um desses roliços doces. E já sem preocupação de repartir, regalei-me a vê-lo apreciar o petisco. E o cachorro voltou a estender-se ao lado da minha cadeira.
Esta cena passou a repetir-se diariamente, à mesma hora. E, de tal forma, que já saia de casa a olhar para o relógio. Não fosse atrasar-me! E, caso curioso, esta amizade, mesmo interesseira, fez bem à minha imaginação. Deu a impressão que aquela dedicação com horário me transmitia maior sensibilidade e uma certa condescendência com a maldade dos homens. Só me vinha à cabeça atitudes humanas que nem por sombras eram comparáveis à dedicação canina.
Porém, este bem-estar não durou mais do que escassas duas semanas. Um dia, procurando de longe, como sempre fazia, o aparecimento do Fidel, dei por mim com alguma ansiedade. Não apareceu. Fiz o que tinha de ser feito, perguntei à volta se tinham visto o meu amigo. Ninguém tinha ideia. E esperei por ele até à hora do almoço.
Voltei à tarde, não fosse o companheiro ter trocado as horas. Repeti a busca em dias seguidos, sem resultado. Até que um vizinho do café, mais atento, me deu a informação que eu tanto temia: o Fidel tinha sido apanhado umas noites antes pelo carro da Câmara.
Não me fiquei. E dirigindo-me ao canil municipal, ainda acalentei a esperança de ir a tempo. Não foi fácil, mas lá consegui a informação, seca e dura, de que a “cãozoada” tinha sido toda morta na véspera.
Não consigo descrever o que senti. Tinha perdido um amigo. De recente data, é verdade, mas que me deixou profundas marcas. E, inevitavelmente, pus na balança o homem e o cão. Cada um no seu prato. E lembrei-me de Auschvitz, dos fornos crematórios dos seres humanos e, inevitavelmente, fiz a comparação. Se o homem é capaz de actuar daquela maneira com o seu semelhante, que lhe custa dar desbasto a uma porção de canídeos? Se, nos matadouros, os animais, que depois são comidos, giram pendurados num gancho por uma perna e de barriga aberta, que diferença faz acabar com a vida de uma dezena dos nossos melhores amigos?
Cada vez mais me aproximo do vegetarianismo. Falta-me é coragem para arredar das refeições as iguarias proporcionadas pela gastronomia animal.
Sou, por certo, um malvado. Não tenho o direito de criticar os outros, os que maltratam os irracionais, se eu os como! Que falta de caridade!...



quinta-feira, 11 de setembro de 2008

PAZ



Anda este mundo às avessas
Os homens nunca se entendem
Estão as cabeças possessas
Que do mal não se arrependem

A guerra está-lhes no sangue
Ambições, ódios primários
Deixar o povo exangue
Fazer das vidas calvários

Matam-se por guerras santas
Ao gosto de Satanás
Nem lhes doem as gargantas

De gritar qual Ferra Brás
E pergunta-se aos jamantas
Que é preciso pr’haver paz ?

MATAR É PRECISO!



Como o tempo passa! Faz hoje sete anos que ocorreu o horroroso caso dos aviões conduzidos por terroristas que fizeram desmoronar os dois enormes arranha-céus gémeos, em Nova Iorque. A quem aconteceu, como eu, ter assistido na hora, por casualidade, na televisão, a tão inqualificável acontecimento, ainda se perguntará como é possível ter passado já todo esse tempo, quando temos ainda na ideia o espectáculo que presenciámos.
De facto, o cérebro é mais capaz de guardar as cenas desagradáveis do que manter em resguardo situações que, pela sua beleza, seria natural que surgissem à recordação sempre que apelássemos pela sua presença.
Eu dou um exemplo que me salta neste momento como modelo: quando tive ocasião de visitar o Taj Mahal, na Índia, por sinal como apreciador isolado pois encontrava-me como convidado do Governo indiano, pude deslumbrar-me com tanta beleza, apalpar aqueles mármores quase transparentes e apreciar o jardim frontal em perfeita à vontade. Logo, o normal seria que, de vez em quando, aquela ideia deslumbrante me soltasse do cérebro para compensar imagens negras que todos nós remos, com mais ou menos frequência, de contemplar nesta vida. Pois não! Nunca me aconteceu isso. Quer dizer, o momento desagradável à vista que, no meu caso, surge em qualquer ocasião, não teve, até agora, a compensação de ser substituída pela beleza, a do Taj Mahal ou outra, já que felizmente tive várias, igualmente deslumbrantes, que conservo na minha caixa craniana.
Há que tirar alguma conclusão deste facto? Confesso que não sou muito dado a fazer conjecturas relacionadas com situações que podem servir para formular decisões mais ou menos acertadas. As minhas dúvidas permanentes não me deixam atingir tal ponto. Prefiro registar os acontecimentos e fico-me por aí.
O que é certo é que se cumprem hoje sete anos sobre a data que ficou marcada por uma destruição material e uma enormidade de mortos, isso no País que se julgava invulnerável, e que nós, os que já existíamos na altura, ficamo-nos nos nossos lugares, pendentes do que possa ainda passar-se e tendo de aceitar como possível todos os actos, por mais inverosímeis que possam parecer.
Um “carjacking” em plena baixa lisboeta? O que é isso comparado com um gesto de algum desses indiferentes à vida dos próximos que, com uma artimanha dessas que fazem ir pelos ares toda uma cidade, não hesitam em dar azo à sua malvadez, ao seu ódio religioso, à sua ambição nacionalista ou o que quer que seja. Matar é preciso!...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

REPOVOAR LISBOA




É por demais sabido que, em comparação com muitas cidades europeias, sobretudo as espanholas, Lisboa, apesar de ser uma capital, é um burgo que, a partir de umas certas horas avançadas da tarde, surge como que vazia de população, triste, despegada daquele movimento que torna uma cidade interessante de percorrer para se identificar com os seus cidadãos, sobretudo na zona denominada por “baixa”- E isso tem vindo a agravar-se desde há vários anos, dada a substituição progressiva dos alugueres a famílias pelos clássicos escritórios, o que, naturalmente, a partir da hora dos encerramentos dos serviços, desumanizam as áreas que ocupam.
E há ainda outra razão para tal vazio de pessoas nos locais agora entristecidos. É que, nas áreas conhecidas como pombalinas e nos bairros clássicos que não têm nada a ver com a invasão do cimento, os prédios antigos vão pagando o preço da idade, ficando abandonados ou apenas ocupados por gente velha que não tem mais remédio que não seja ir tapando buracos e aguardar pelo momento em que a sua mudança lhes está destinada para um cemitério.
Ora bem, apareceu agora a notícia de que o presidente da Câmara Municipal encarregou a vereadora Helena Roseta de “repovoar Lisboa”. Foi este o título que deu ao cargo que lhe atribuiu.
É, de facto, uma missão que tem de caber a alguém que esteja disposto a arregaçar as mangas e a pôr a imaginação a funcionar. Porque trabalho não lhe falta.
Eu, por mim, que desde há muitos anos, como jornalista, me preocupo com o estado a que tem vindo a cair na nossa capital e alguns se lembrarão das minhas crónicas semanais no “Diário de Notícia”, com o título genérico “Esta Lisboa que eu amo”, tenho um plano aturadamente estudado quanto ao que há a mexer na nossa capital e, sobretudo, quais as prioridades que há que ter em conta, dado que todos sabemos que dinheiro é o que não sobra por aí. E, uma das coisas que se impõe implantar, quanto antes, é uma legislação que permita que mãos honestas situadas no Município (e esse escrúpulo tem de existir) apliquem a obrigatoriedade de todos os prédios caducos que existem às centenas sejam sujeitos a obras e que os novos ocupantes venham a ser de famílias, especialmente jovens, para modificar a imagem de decadência que se vive na capital.
Claro que as leis têm de surgir por forma a que, se os proprietários actuais dos caducos prédios não tiverem meios para efectuar as obras necessárias, nesse caso poder o Município pôr a leilão o espaço e dedicar uma percentagem da venda aos antigos donos do prédiozinho condenado, mais dia menos dia, a desmoronar-se. Mas tudo isso sem burocracias medíocres, que é o que logo surge quando há que executar medidas que saiam do tradicionalismo lusitano.
Não, não é um sonho. É perfeitamente possível pôr em prática esta medida. O cuidado a ter é com os “xicos espertos” que andarão à espreita para tirar algum proveito das vendas e das buscas de novos proprietários. Pois isso é o que mais existe por aí e bem se sabe quantos funcionários antigos de todos os municípios que enriqueceram à custa das suas entradas em negociatas que, geralmente, acabam por ficar no silêncio dos burlões. Lembram-se do caso da Lanalgo? pois, iquais a esse, muitos deram fortunas a toda essa gentalha que, como é sabido, sairam do serviço municipal com os bolsos a abarrotar...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

DERRAPAGENS... NUNCA MAIS!


Claro que José Sócrates tem razão quando se refere que há muita gente que se delicia a dizer mal do que é feito pelo Governo, pois que criticar é muito fácil, o que custa é indicar os caminhos certos e, nesse aspecto, no que diz respeito às oposições, não se vê saírem das suas bocas indicações precisas das vias que seriam tomadas pelas mesmas se lhes coubesse o papel de governar.
Eu, por mim, dou razão ao primeiro-ministro no que se refere a não ter qualquer ajuda dos outros grupos partidários. Segundo as suas queixas, o que Sócrates gostaria de ouvir era conselhos sobre a forma de governar, para que ele, depois, optasse por tais propostas. Dá um pouco vontade de rir, mas segundo as queixas que são feitas, o Executivo actual receberia, com grande entusiasmo, as normas que o PSD, o CDS, o PCP, o Bloco de Esquerda e mesmo outros grupos políticos usariam em cada situação que requeresse a intervenção governamental.
Isto dá ideia de se tratar de uma anedota e teria graça se não vivêssemos numa situação do País que só nos dá para chorar. Mas também não sei que medidas seriam propostas que, sendo de Esquerda, de Direita e até de extremos como há por aí, pudessem coincidir entre si. Tudo isto, para além de que, quem tem as rédeas do Poder é que tem a responsabilidade de decidir e, se não o fizer da melhor maneira, que seja castigado nas eleições que se seguirem. Isto é a Democracia e não é preciso pôr mais na carta!...
Só que estas regras não anulam o direito de qualquer cidadão, com os meios legais que puder dispor, critique aqueles que se dispuseram a ocupar lugares de destaque nas governações, pois que, se utilizam as regalias e as benesses que o poder lhes põe à disposição, do que não se podem livrar é de serem chamados de incompetentes, de presunçosos, e até de abusadores do poder de que lhes é posto à disposição. E, se fosse nalguns países que não perdoam maus actos, também lhes poderia caber o papel de serem julgados, não só na praça pública como eventualmente nos tribunais.
Por agora e rapidamente, só vou referir o caso das 207 reformas milionárias que couberam este ano a outros tantos felizardos que já estão a receber, mensalmente, entre 4.000 e 8.000 euros. Não indico aqui os nomes dos felizardos, mas posso dizer que todos eles eram funcionários públicos ou actuavam em empresas públicas, com lugares de destaque e isso chega para podermos ajuizar do critério utilizado pelas forças que decidem estes casos.
Se acrescentarmos a este dispêndio aquilo que o próprio ministro das Obras Públicas deu a conhecer esta semana, quando garantiu (podemos bem acreditar!) que as chamadas derrapagens nos custos das obras não voltarão a acontecer, tendo-se tomado conhecimento, na altura, que o que foi pago a mais pelo Estado nos últimos seis meses, em obras da sua responsabilidade, atingiram a incrível verba de 830 milhões de euros, no túnel do Rossio, na Ponte Europa, na Casa da Música, na Linha do Norte, no túnel do Terreiro do Paço e na Linha Amarela do Metro, a partir destes números todos podemos agora começar a confiar no ministro Mário Lino. Sim, esse do “jamais”, o que garantiu o que não podia.
Por isso, José Sócrates, não é possível um chefe do Governo enxofrar-se todo contra os que dizem mal. Deixe-os continuar a mostrar as suas opiniões. O que é preciso é não dar razão para descontentamentos ou… evitá-los, o mais possível. E iso, sim, é difícil.