terça-feira, 24 de junho de 2008

DESENCANTO...POR ENQUANTO!

Eu não sou hoje o que era ontem.
Por isso, muito menos sou agora o que fui em tempos bastante passados.
Nesta altura não actuaria da mesma maneira como me comportei noutras épocas.
Os meus olhos não vêem neste momento, tal e qual o que contemplavam anos antes.
Não foi o panorama que se alterou, foi a objectiva que parece ter sofrido certa mudança. Desgastou-se ou foram-lhes acrescentadas outras características.
O sabor também sofreu modificações. Recordo-me do que gostava e do que passou a ser menos saboroso. E o contrário.
Os próprios ouvidos, esses não dedicam idêntico apreço pelos mesmos sinais sonoros que, noutras épocas, mereciam uma atenção particular. Deixaram de prestar atenção a tais sons ou, pelo contrário, passaram a ser apreciadores do antes pouco valioso.
Não. Não sou hoje o que fui ontem.
E pergunto-me: será que aqueles que não mudaram, que se mantêm toda uma vida fieis aos mesmos sentidos do prazer ou de repulsa, será que esses podem afirmar que aproveitaram cem por cento todas as variantes da vida?
Serão talvez mais felizes. Quem sabe? Por serem mais constantes.
Será possível, mesmo não tendo tido a oportunidade de conhecer os dois lados da moeda?

CASA DA IMPRENSA


Como jornalista profissional que fui ao longo de muitos anos, nessas condições sempre aderi à Casa da Imprensa, organização criada ainda nos tempos da Velha Senhora e que ajudava, especialmente no sector da saúde, os trabalhadores que tinham escolhido o sector da comunicação – primeiro os jornais e, mais tarde, os outros órgãos ligados à mesma actividade -, sendo que, na realidade, o apoio que recebiam os necessitados de médicos, medicinas, internamentos, análises e de todas as investigações do sector da saúde, era-lhes dado sem pagamento ou com participações praticamente simbólicas.
Durante anos assim correram as coisas e muitos jornalistas (cujas remunerações nunca foram das mais fartas deste País) beneficiaram das vantagens que usufruíam os próprios e as suas famílias, ainda que esta com reduções de facilidades, o que lhes aliviava bastante o pesado fardo que constitui a actividade intelectual que têm de exercer permanentemente.
Anos atrás, uma pequena percentagem da publicidade que era inserta nos diários era destinada obrigatoriamente para a Casa da Imprensa, valor esse que interferia saudavelmente nas finanças daquela organização. Mas tudo que é bom, neste País, acaba-se. E um abastado proprietário de uma vasta gama de publicações e também com posição maioritária na televisão e na rádio, ao passar pelo sector governamental não teve outra ideia que não fosse eliminar de raiz esse montante proveniente da publicidade. E a Casa da Imprensa viu-se diminuída a uma gestão que não lhe permitia assumir os compromissos sociais que, durante muito tempo, estavam a seu cargo.
A partir daí tudo começou a ser mais difícil. Foram-se acabando sucessivamente as facilidades de que usufruíam os jornalistas. E, de diminuição em diminuição, chegou-se ao ponto de hoje: os profissionais da Imprensa se encontrarem em igualdade de circunstâncias de todos os demais cidadãos, isto é, dependentes das Caixas de Previdência e entregues aos longos períodos de espera de assistência que os portugueses tão bem conhecem sempre que sentem que a saúde lhes falta.
E escrevo isto num blogue, porquê? Porque, ao contrário do que seria de esperar, sobretudo quando se assiste às múltiplas manifestações públicas pelos mais diferentes motivos que têm a ver com reduções de benefícios a trabalhadores dos mais variados sectores, no que diz respeito aos jornalistas e existindo um Sindicato e uma Casa da Imprensa, o silêncio tem sido mantido. Ninguém se queixa. Não se levanta uma voz. E até nas assembleias-gerais que se realizam de tempos a tempos para serem discutidos os problemas que afectam a classe, a participação de interessados limita-se a uma dúzia de presentes que ali deixam de viva voz o seu descontentamento. E nada mais acontece!
Não há dúvida. Em casa de ferreiro espeto de pau. Se é verdade que, nunca como agora, a comunicação social esteve tanto nas mãos de empresários que lidam com o seu negócio da mesma forma que poderiam gerir um banco ou uma companhia rica que tem os olhos postos, única e exclusivamente, no rendimento que a actividade lhes proporciona (para não referir o outro benefício tão importante que é o dominarem a opinião pública e poderem interferir no sector da política), apesar disso, sempre seria de esperar que os que sofrem as consequências do mau tratamento que lhes é dado por uma organização que sempre primou pela defesa e protecção dos trabalhadores na zona da Imprensa, levantassem a sua voz e dessem a conhecer publicamente o desprezo a que estão entregues na situação actual da governação portuguesa.
Este é um desabafo. Só isso. No que me cabe, só me resta pagar as cotizações que são obrigatórias, quanto mais não seja para poder assistir às assembleias-gerais que lá se vão realizando, pelo menos para os profissionais mais antigos, confirmarem que ainda se encontram vivos e para se abraçarem plenos de saudades dos velhos tempos em que, mesmo com a PIDE, a Censura e as dificuldades em conseguir que alguma que outra notícia passasse as malhas dos lápis vermelhos, assim mesmo sempre usufruíam das vantagens que a Casa da Imprensa lhes dispensava, nos momentos maus em que a saúde pregava alguma partida.
Resta recordar. Esperança no futuro é coisa que este País já deixou escapar há mais tempo do que seria aceitável suportar-se. Mudam os governantes, surgem outras promessas. Diz-se mal do que esteve antes. E nós, jornalistas, tanto faz os antigos como os acabdos de chegar à classe, permanecemos contemplativos. Lá vamos, de vez em quando, à rua da Horta Seca. Mas para quê?

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Há quem defenda o princípio de que é preferível construir coisas,
mesmo sem qualidade, do que não fazer nada.
Não sei.
Tanta obra monstruosa que tem saído das mãos do Homem,
não seria preferível que se mantivesse o vazio?
Que digo eu?
Então seria mais próprio, amanhã,
quem, por ventura, vier a querer ler este texto,
encontrar, em seu lugar, um espaço em branco?

É A HORA!

Já Pessoa alto gritava
Sua Mensagem divina
Que esta Pátria mal andava
Que navegava à bolina
Sujeita a toda a rapina
De quem bem se colocava

É a hora, dizia ele
P’ra sair do nevoeiro
Surgir a força que impele
Em momento derradeiro
Que transforma o fel em mel
E que venha um novo obreiro

Mas atenção, olho alerta
Que seja alguém desta terra
Que não tenha ordem por certa
Que fuja de qualquer guerra
Sendo denso o nevoeiro
Liberdade por inteiro
É sempre janela aberta

Se Pessoa ‘inda existisse
Cantando a sua “É a Hora”
Diria o que então não disse
Deitava p’la boca fora
Que em lugar de um Bandarra
De alguém com força e mão dura
Seja quem com uma fanfarra
Toque contra a ditadura

Outro rei Sebastião
Mas sem ares de salvador
E com determinação
Que se empenhe com rigor
Na governação do País
É o que se espera afinal
Para um futuro feliz
Desta Pátria: Portugal

MANUELA FERREIRA LEITE


Esta coisa de confiarmos nas novas tecnologias, nestes aparelhos que mal conhecemos – mas que a miudagem domina como tendo nascido já com toda a ciência aprendida de outra geração -, concretamente isto dos computadores que, quanto a mim, ainda estão por inventar (assim como os telemóveis), pois deveriam poder falar connosco e dar-nos indicações de como resolver os problemas que surgem inesperadamente, repito, esta dependência a que estão sujeitos os mais velhos que, afinal, já não podem passar sem o auxílio que é prestado, particularmente na escrita e no “guardar como”, que tanto espaço poupa para não acumular papeis e para, quando não se perdem nas horrorosas profundidades dos seus inúmeros locais secretos, lá irmos encontrar o que ficou escrito antes, e repito de novo, esta máquina infernal que é útil quando não prega partidas aos velhos, quis, neste final de semana que passou, deixar-me sem aquilo a que, na única língua que utiliza, chamada de Internet, e, quanto a blogues, que é o pouco que aprendi, mesmo mal, quanto a ir-me desenrascando, não pude escrever uma única linha. E se havia coisas para dizer!
Pois bem, fiz um regresso a dois anos atrás e “rapei” do papel em branco e da caneta. E lá comecei a tentar desembrulhar-me nessa prática que tinha deixado pelo caminho, quando escrevia à mão no café e, só depois, passava ao teclado que, esse, nunca perdi a prática trazida dos meus muitos anos de jornalismo escrito com rapidez, dado que havia, nesses tempos, os revisores que se encarregavam das “gralhas” e dos verbos mal colocados. E alguns desses, autênticos mestres da nossa língua, gente que o avanço tecnológico foi fazendo desaparecer, mas faziam o “milagre” de colocar em bom português o que a urgência da notícia muitas vezes deixava passar. Aqui deixo, pois, neste humilde blogue, a minha singela homenagem a tantos rabugentos mas sabedores profissionais que não perdoavam aos jovens jornalistas a ignorância quando a davam a conhecer nos textos que produziam de rajada.
Com todo este preâmbulo, enquanto oiço uma linda valsa de Chopin, tocada pela tão mal reconhecida Maria João Pires, num domingo soalheiro que, dado o escandaloso preço da gasolina obriga a que pensemos duas vezes antes de pormos o carro a trabalhar para nos levar a uma praiazinha, mesmo perto, paras gozar dos prazeres e dos perigos do sol , depois de ter assistido ao Congresso do PSD que uma televisão transmitiu, principalmente para ficar a conhecer aquilo que a Manuel Ferreira Leite tinha para dizer, deitei-me pois ao trabalho de retirar alguns elementos que, por ventura, possam servir para fazermos as nossas contas quanto ao que poderá vir a suceder daqui para a frente, agora que José Sócrates, sobretudo ele, terá de seguir um de dois caminhos: ou, mantém-se indiferente ao que perecem ser ameaças à sua actuação de Governo, continuando a sua política de auto-convencimento de que ninguém é capaz de ser mais eficiente do que ele e que possui a melhor equipa governamental que seria possível conseguir no meio do grupo socialista que domina, ou, pensando melhor e precavendo-se quanto ao futuro que já está à vista, nas próximas eleições parlamentares, começa por dar já uma volta no elenco que tem em seu redor e, simultaneamente, face ao desagrado que grassa por aí quanto à situação económica, política e social que Portugal atravessa, baixa o tom do seu convencimento de que estão todos enganados e que o que se passa por cá não é senão uma pura ilusão dos pessimistas e que, servindo-se das percentagens que tanta gosta de utilizar, mantém que não caminhamos para o descalabro, mas sim para a aproximação desejada dos níveis de vida dos nossos parceiros europeus.
Cabe-lhe a ele a escolha. Depende da sua capacidade de análise, da perda de intransigência, da aceitação dos conselhos dos que o rodeiam e ainda possam ter algum bom senso. E, dentro desta possibilidade, chegar junto do povo português e apresentar, sobretudo com modéstia, com sentido de certa culpa por nem sempre o homem poder acertar, e nestas circunstâncias, dar a conhecer a lista de reformas que ainda poderá estar a tempo de fazer.
Eu, por mim, não tenho nenhum dedo mindinho que me garanta que Manuel Ferreira Leite seja a pessoa com capacidade para levar por diante a lista de erros que, tendo apontado a Sócrates, terá possibilidade de os emendar. A sua actuação nos governos em que participou não me garante nada! Devo dizê-lo com a maior das franquezas. E como gato escaldado de água fria tem medo, é-me lícito rodear-me de todas as dúvidas. Só vendo, como diz o cego!
Que a burocracia administrativa é excessiva, já todos estamos fartos de saber. Também não era preciso realizar-se um congresso qualquer para tomarmos conhecimento de que a distribuição da riqueza em Portugal está escandalosamente mal repartida. De igual forma, referir-se à perigosa lentidão da Justiça cá pelo nosso burgo, é assunto que qualquer cidadão deste País, muito bem conhece, pois já teve de esperar, bem sentado, por resultados saídos dos nossos Tribunais e que tardaram infinidades em aparecer. E, no caso da saúde, claro que não pode ser matéria guardada na gaveta, mas surgir um pretenso futuro primeiro-ministro que não falasse em tão melindroso tema, seria o mesmo que não oferecer aos pedintes uma esmolinha para matar a fome.
Isto, para dizer que a nova presidente do PSD não trouxe novidades. Promessas fê-las, como lhe competia. E até é possível que as suas intenções sejam as melhores. Isto é, que tenha consciência de que os temas em que tocou façam parte das motivações que a levaram a apresentar-se à candidatura do lugar que veio a ocupar. É o caminho para poder vir a conquistar o comando do próximo Governo. E nós cá estamos para desejar que, se o conseguir, cumpra tudo e não surjam depois as desculpas dos que, ao atingirem o cima da escalada, as malditas percentagens logo aparecem,o que dixa o povo confuso e desinformado.
Mas, por agora, só nos resta ter esperança de que José Sócrates esteja a sofrer um susto. Que se deixe de corridinhas para manter o físico e se dedique a desenvolver o cérebro, que o mesmo é dizer, ponha de lado as certezas de que não comete erros, consulte mais os que sabem alguma coisa e não os que andam à sua volta com “louvarinhas” e a comer do orçamento. À grande e à francesa, como se costuma dizer.
Se outro mérito não teve o discurso de Manuela Ferreira Leite, pelo menos este serviço se lhe fica a dever.
E olhem. Este texto que era para sair ontem, ainda quentinho logo a seguir ao Congresso, teve de esperar que o malvado do computador se curasse da maleita que lhe deu. Talvez tenha sido até melhor assim. Deu-me tempo para pensar. E para escrever que, muito preocupado pelo largo tempo que se tem perdido em Portugal com acusações, discursos, lembranças do que se passou,
do que foi mal feito, o que nos resta agora é apenas contiunuar a sofrer e esperar que todos os erros cometidos tenham servido para alguma coisa.
Nós, portugueses, é que não temos capacidade para esperar mais tempo. Não aguentamos, Esvaziaram-se os bolsos. E foi-se-nos a paciência.
Ao menos que se esqueçam por agora e enquanto não voltar de novo a mania das grandezas que são precisos submarinos, que o aeroporto de Lisboa pode ficar mais algum tempo onde está, que só devemos fazer investimentos se os mesmos forem de absoluta primeita necessidade, que deixemos os carros oficiais guardados numa central de automóveis, que vendamos os edifícios, sobretudo e os ocupados com equipamentos militares e usemos esse dinheiro á ajudar a criar indústria que dê emprego a tantos milhares de desocupados, etc., etc. etc.
É que há tanto de útil a fazer, meus senhores, que até se nos cria um aperto na garganta lusitana ao assistir-se às discursatas de total inoperância.
E o que eu tinha para encher este blogue, senhores meus!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!

Já ouvi dizer que um escritor não se arrisca.
E isso, para mim, é o mesmo que afirmar que só corre riscos quem atravessa a rua despreocupadamente, ignorando as passadeiras dos peões, quem passa junto a um prédio em obras ou, muitas vezes mais afoito, resolve aventurar-se a subir os Himalaias. Não é apenas isso – e já é muito – que serve para alinhar nas experiências de arriscar.
Quem escreve e dá a ler aos outros o que lhe sai em prosa ou em verso enfrenta as críticas, especialmente as malévolas, de quem considera que a obra publicada não merece o apoio de quem perdeu tempo a apreciá-las e sujeita-se, por isso, a ser apontado como um mau cumpridor da tarefa a que se entregou.
E, dentro deste ponto de vista, sucede o mesmo aos que pintam e esculpem, aos autores musicais e, obviamente, aos que interpretam, com a voz ou com um instrumento musical, as composições dos outros.
Logo, o não fazer nada ou não dar a conhecer aquilo que constitui um atrevimento de produção, é a situação mais cómoda para não se ficar ao sabor das críticas.
Não se sujeitar a tal exposição é uma maneira de viver em tranquilidade, muito embora não se fique alguma vez a saber se valeu ou não a pena conhecer a opinião alheia.
Eu, pelos vistos, quero correr o risco de ficar a saber o que os outros pensam das minhas escritas e das minhas pinturas. E, mesmo que opinem desfavoravelmente, o mais que posso fazer é não fazer caso de tais opiniões ou admitir que têm mau gosto. Ou então, aceitar, modesta, embora dolorosamente, o ponto de vista dos outros.
Com tudo isso, eu cá vou continuando. Teimosamente…

A PAZ

Anda este mundo às avessas
Os homens nunca se entendem
Estão as cabeças possessas
Que do mal não se arrependem

A guerra está-lhes no sangue
Ambições, ódios primários
Deixar o povo exangue
Fazer das vidas calvários

Matam-se por guerras santas
Ao gosto de Satanás
Nem lhes doem as gargantas

De gritar qual Ferra Brás
E pergunta-se aos jamantas
Que é preciso pr’haver paz ?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

VIVA O FUTEBOL!


De facto, isto de escrever de rajada, sem tempo quase para dominar o gatilho, tem os inconvenientes idênticos aos do crime cometido sem uma reflexão antecipada. Mas, depois do acto cometido, já não há nada a fazer, caso o papel se encontre ainda na nossa posse por não ter ido parar, entretanto, ao caixote do lixo.
Na verdade, quando me insurgi, noutro texto que já foi devorado pela Internet, a um certo tipo de indignação pelo facto desta gente cá do burgo se encontrar dominada pelos acontecimentos relacionados com o futebol e, particularmente nesta ocasião, ao campeonato da Europa que ocorre por aí, quando não tive capacidade para colocar os pés na terra e observar friamente o que se passa à minha volta, o que fiz foi somente isolar-me da multidão, da maioria das pessoas que, por serem muitas, mais do que eu só, têm democraticamente razão.
Mas hoje assentei. Resolvi instalar-me numa esplanada do meu bairro lisboeta e fazer o consumo habitual, por sinal em custo crescendo: uma bica cheia e um copo de água. E, a partir daí, pus-me a ver as pessoas a passar e a ouvir as conversas, em voz alta, que saltavam das mesas em redor da minha.
E que presenciei então? A maioria dos homens com jornais desportivos debaixo do braço e, noutros casos, eles e elas muito interessados em observar as fotografias das mulheres dos jogadores de futebol que estão na moda, a maioria em trajes sem preocupação de esconder as belas partes carnudas, com títulos de intimidades, como sejam se ainda convivem ou se já desfizeram os casamentos, e até uma dessas intervenientes a indicar que foi no México que “fabricou” o rebento que mantinha no colo. Só faltou indicar a cor dos lençóis do local “histórico”do acontecimento!...
Perante estas realidades, meto a mão na consciência de português que sou e não consigo encontrar outra resposta à pergunta que tantos por cá talvez façam: se andamos rodeados de tantos problemas, se aqui, em Portugal, a vida que nos é deixada levar se apresenta cada vez mais difícil, se os recursos que nos são postos à disposição são cada vez mais curtos, se as reformas, o desemprego, as empresas em decadência, tudo, não esquecendo os combustíveis (esses, então!...), tudo faz parte de uma lista infinda de preocupações que os portugueses não podem deixar de enfrentar, repito, a pergunta a fazer é se nós, os que já não temos idade para emigrar – que foi uma das opções por que antigamente se enveredava – somos forçados a ficar e a instigar dolorosamente, os novos a “salvarem-se enquanto puderem”, não temos já outra alternativa que não seja aceitar a segunda desgraça da nossa vida, já que a anterior, essa chegámos a pensar em 1974 que fazia parte de uma história a contar aos vindouros, aos que hoje até são homens.
Será então por isso que, passada que foi a primeira reacção contra o entusiasmo do futebolismo patriótico, neste momento já compreendo e aceito o enxame dos cachecóis, das bandeiras, das janelas engalanadas, das conversas todas elas recheadas do mesmo tema: o futebol.
Dou a mão à palmatória. E recordo-me dos meus velhos tempos da instrução primária, cada vez que se dava um erro no ditado de português. Aprendia-se assim.
Eu também aprendo alguma coisa, passados tantos anos sobre a época da minha querida professora que tão bem me preparou para os muitos exames que tive de enfrentar pela vida fora.
Acabo por dar razão aos que se refugiam nos possíveis sucessos que o futebol pode oferecer ao nosso nacionalismo tão debilitado. Isso para fazer esquecer a vida sem grande esperança que o mundo atravessa, que a Europa agora encara e que Portugal – que é isso agora que nos interessa – tem dificuldade em assimilar.
Neste momento em que escrevo ainda não é conhecido o resultado do encontro ao fim da tarde. E foi de propósito que entendi escrever este texto na ignorância total do que vai acontecer.
É que não quis influenciar a prosa quer com entusiasmos desmedidos quer com tristezas descabidas. Nem uns nem outras solucionariam os problemas que estamos condenados a enfrentar. Viva, por isso, o futebol português!... Esse analgésico!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O MOTIVO


Nota – Comunicou-me uma Amiga bloguista que considerava que “os meus não são “blogs”, são "posts”. E que eu deveria nos meus escritos fazer ligações aos outros “blogs”, corroborando ou estando em desacordo com os “Bloggers”. Que é uma forma de entrar em diálogo com as outras pessoas e de discutir ideias”.
Ora bem, para além de confessar a minha ignorância técnica sobre a diferença que possa existir entre umas e outras, o que sucede é que eu sou dos poucos que apareço claramente com o meu nome e não me acoberto com títulos indecifráveis à primeira vista Por isso, se alguém lê aquilo que eu deixo expresso nos meus textos aqui colocados, não tem dúvidas sobre o seu autor e digo isto sem qualquer espírito de crítica em relação a quem não quer aparecer de cara aberta aos leitores .Cada um sabe de si.
Se algum dos eventuais seguidores dos meus blogues (e já viram que eu uso a expressão em português) me puder auxiliar com uma explicação clara quanto a isto dos “blogs” e dos “posts”e das vantagens em entrar em discussão aberta quanto aos assuntos que surgem expostos, eu, por mim, fico muito grato. E estou disposto a abrir portas.
No fundo, quem faz os seus blogues é porque encontrou esta forma de comunicar e sempre é mais económico para todos do que editar um livro!

Mesmo sem darmos por isso, tem de haver sempre um motivo para tomarmos qualquer iniciativa. Para levarmos por diante uma actividade. Para tentarmos uma experiência. Para nos desviarmos de uma direcção e optarmos por outra. Para qualquer finalidade. Mesmo para pronunciarmos uma frase, uma palavra, emitirmos um sinal. Até para estarmos quietos. Mudos.
O motivo é a justificação da nossa existência. É ele que nos leva a tomar uma atitude. Eu escrevo, neste momento, motivado pelo que julgo que pode sair de útil e de sincero. Seja o resultado da exteriorização de algo que não consigo conservar dentro. Faço-o porque desejo que outros, sejam eles quais forem, possam vir a tomar conhecimento do que me vai na alma. Disso que também não tenho nenhuma certeza do que seja, mas que sinto flutuar no meu interior. E se sinto, é porque existe, seja qual for o nome que se lhe queira dar.
Todo o ser humano, enquanto se movimenta, nem que seja apenas mentalmente, tem um motivo para resistir. O motivo que leva o pedinte a implorar uma esmola é o de manter a esperança de que conseguirá juntar o bastante para comer nesse dia.
Todo o ser humano, sem excepção, persegue um motivo que o leva a tomar as suas decisões em cada altura. O artista, o político, o empresário, o trabalhador braçal, todos, igualmente, guardam o seu motivo para se manterem nas suas funções.
O rico, esse então talvez disponha de mais motivos para insistir nos seus objectivos: os de conservar a fortuna, os de aumentá-la até onde possa ser, os de não querer que um dia os seus fartos bens caiam nas mãos de quem não saiba dar-lhes o uso adequado de conservação e aumento.
Então, e se o tal motivo que conduz os seres humanos um dia deixar de dar mostras da sua presença? Se a convicção de que aquilo que se fez ao longo da existência não serviu para nada e, na fase presente, não tem a menor utilidade? Se a petulância que fazia ainda manter a manutenção de uma vida desaparecer, se se evaporar aquilo que se julgou antes ser uma justificação para ir mantendo o fogo sagrado da vida, que decisão pode ser considerada como sendo a mais lógica?
Esse é o momento da angústia. Do desconsolo. É a altura de encarar de frente a realidade. Que é como quem diz, posto que, sem dúvida, felizmente, a esmagadora maioria dos cidadãos de todo o mundo não se dá conta de que tal encruzilhada da vida impõe que seja tomada uma decisão. E não leva em conta o que me vai servir de remate deste texto excessivamente cru e duro para poder ser seguido.
Em conclusão, pois: quando o motivo de cá estarmos a ocupar espaço no Globo terrestre se apresenta como um vazio, se o ser ou não ser já não é questão que se ponha, se apenas a expressão numérica é que conta – ser-se mais um demograficamente - , aí é que alguns, conscientes ou não do seu acto, encaram a realidade, partem para o acto que constitui sempre uma derradeira solução. E que, entre muitos outros nomes que lhes queiram atribuir, representa uma fraqueza, uma cobardia, uma desistência que, em nenhuma circunstância, o Homem deve assumir.
O objectivo de existir, mesmo quando cada vez se situe mais longe de ser alcançado, tem de estar sempre ligado ao motivo por que ainda cá estamos. E se estamos, é porque estamos!

terça-feira, 17 de junho de 2008

AS ANDORINHAS


Em hora da mais profunda tristeza
Dessa que não se sabe bem porquê
Deixa a nossa alma indefesa
E fica da angústia à mercê

Nessa altura em que o apoio nos falta
Muita coisa nos pode ajudar
E entre elas uma que sobressalta
É a Primavera, ei-la a chegar

Plena de perfumes vindos das flores
Surgem ao de cima grandes amores
Na nossa alma soam campainhas

E para compor tão bela pintura
Entram e cabem na mesma moldura
Os voos rasantes das andorinhas

PRÓS E CONTRAS



Este programa televisivo que, de uma forma geral, é bem conduzido e em que os temas escolhidos pela apresentadora são de interesse da actualidade, esta segunda-feira que passou, pelo menos a mim, que me cabe neste blogue fazer o comentário, deixou-me completamente desiludido.
Normalmente, o que desperta mais atenção é tomar o peso da qualidade das pessoas que se prestam a fazer os seus comentários e, através delas, ficar com uma ideia daquilo que os portugueses poderão entender quanto aos problemas que os atingem nesta fase concreta da vida da Nação. Quanto mais não seja, através dos aplausos e também dos apupos que alguma assistência dispensa aos interlocutores, muito embora seja pedida contenção pela dominadora do programa, Campos Ferreira.
Mas, deste vez, o ter sido escolhida a matéria para discussão com base no futebol e, neste particular, aquilo que os portugueses podem concluir da sua importância no aspecto de nos podermos “orgulhar” – e uso este termo entre aspas para mostrar bem a minha reprovação quanto ao uso e abuso da palavra como sinónimo de qualidade, em vez de defeito, como acho que lhe compete – por não fazermos má figura nas competições que para aí se realizam,
Faz-me pensar seriamente que ainda haja quem, na situação actual do nosso País, económica, social e politicamente falando, ainda se possa perder tempo a tentar averiguar se o facto dos nossos jogadores de futebol terem andado a cumprir o seu papel com nota positiva, ou seja, não façam má figura perante os seus competidores de diferentes nacionalidades, neste preciso momento, esse facto é motivo para, repito, nos “orgulharmos” de ser portugueses. Enfrento esta realidade e, por mais que deseje desligar-me de tamanha pequenez, não consigo pôr de parte uma dose grande de entristecimento. E o pior é que, à volta da mesa dos intervenientes na discussão e sentados nas filas da plateia, surjam personalidades que parecem estar a acreditar na seriedade do tema e se envolvam convictamente na troca de pontos de vista que, por vezes, chegam a parecer confrontos de adversários que não admitem existirem opiniões diferentes das suas.
Não avanço mais hoje neste meu blogue. Tenho a sensação que a maioria do eventuais leitores deste texto se encontram a apelidar-me de todos os piores apodos que contenham no seu vocabulário. Julgo saber que, na verdade, é fantasmagórico de grande o número de portugueses que colocam em primeiro lugar das suas preocupações os resultados futebolísticos, já não só dos seus clubes predilectos mas, sobretudo, a actuação da selecção que representa o nosso País. Que colocam em lugar secundário, por exemplo, a negativa dada pela Irlanda ao Tratado de Lisboa (que podia ter outro nome, mas que representa um passo na união de interesses da situação complicada dos problemas europeus). Que estão menos incomodados com os vários problemas que não há forma de se resolverem entre nós, e de que já nem vale a pena enunciá-los, pois são sempre os mesmos, como a demora criminosa da nossa Justiça, os erros calamitosos com as obras públicas em que nos metemos e os preços que atingem, a falta de reorganização da administração pública, a saúde pública que não consegue solucionar as doenças dos mais necessitados, a instrução escolar que, apesar das promessas desde a Revolução, tem vindo a criar cada vez mais ignorantes, pois os que querem saber mais e melhor têm de se sujeitar, se têm posses para isso, a ir frequentar universidades estrangeiras – e a Espanha aí está a prová-lo -, enfim, um cem número de coisas que não há Governo, nem este nem nenhum outro até agora, que seja capaz de satisfazer as necessidades urgentes de que carecemos.
Chego a este ponto do texto, que escrevi sem reler – para não me arrepender pela severidade -, e faço de novo a pergunta: por muito que nos possa satisfazer que a equipa nacional de futebol, mesmo que possamos ir ganhando resultados e até, por ventura, vencer finais, essa mínimo prazer pode fazer esconder todas as inúmeras situações que nos colocam no fim das várias filas que se apresentam perante os nossos olhos por essa Europa fora… e fiquemo-nos por aí!
A mim também me satisfaz assistir a uma boa partida de futebol. E, sobretudo, em que os onze que envergam a camisola com as cores nacionais preguem a partida aos adversários, vencendo as contendas. Mas esse acto coloca uma tampa no meu pensamento e faz-me esquecer completamente o resto que constitui a autêntica situação do nosso País, esse que poderá não ser o vencedor de jogos de bola mas que é constituído por um povo a viver com felicidade e a ter um futuro que não surge com o negrume que é o que se apresenta actualmente?
Escuso de responder!...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A VIDA

A vida passa com baixos e altos
rindo p’ra uns, gozando com outros
sorrateira ou correndo aos saltos

Não é a mesma para toda a gente
muda de face em cada momento
torna difícil caminhar em frente

Mas como os mortais, tem seus preferidos
há os que escolhe p’ra bem servir
e os que mantém sempre desvalidos

É cínica e traiçoeira a magana
ataca muitas vezes pelas costas
à bruta ou com ares de filigrana

Mas eis que de repente se arrepende
e no meio de enorme confusão
a uma prece avulsa lá atende

E tudo muda como por feitiço
de um grande azar algo se compõe
e dá também aos males um sumiço

A vida deixa assim seu conteúdo
tem de se atravessar com paciência
já que o tempo é borracha p’ra tudo

DESENCANTO...POR ENQUANTO!


Isto que eu arrasto desde criança pode chamar-se vida? Ou tenho sido eu que não a terei sabido levar? Que me conformei em vez de lutar contra o que se chama de destino?
Nasci de família remediada; pai com trabalho e salário seguro, mãe económica e de boa cabeça e enorme coração, sem qualquer tipo de extravagância levava-se, lá em casa, um dia-a-dia que se poderia à época considerar normal.
Fui baptizado como era costume na altura, isto é, sem necessidade de ser fervorosamente crente o nosso aglomerado famíliar Mas entrei no corredor dos costumes que levava a miudagem a frequentar a catequese e a ir à missa das onze, aos domingos, na paróquia lá do bairro. Não sei como, mas escolheram-me para pôr a opa vermelha depois de ter feito as comunhões da praxe e até o crisma. Cheguei a ajudar à missa, dita em latim…
Hoje recordo que sempre considerei um sacrifício aquelas cenas prolongadas de joelhos no altar frio da pedra, ao lado do pároco, E logo que me estreei no exercício do pensamento por minha própria iniciativa e a poder discordar, sem ser em surdina, de determinadas posições que as religiões tomavam, começando pelo próprio catecismo da Igreja católica tal como me foi ensinado em criança, decidi que Deus não podia ser aquela figura castigadora, sempre atenta ao que se chama e chamava de pecados, que só exigia e continua a exigir cumprimento de dogmas sem esclarecimento de posições francamente discutíveis e sem dar ocasião a que se duvide, sequer por um momento, pois foi nessa altura, quando comecei a observar a riqueza escandalosa que as igrejas ostentavam, especialmente a que se observa no Vaticano em que, na minha meninice se assistia aos passeios do Papa de cadeirão aos ombros de homens, assim como o que se passava noutros locais ligados a diferentes credos, com total indiferença perante a miséria mundial que existe por esse mundo fora. Foi então que deixei de praticar esse exercício da indiferença. Foi ao ter de aceitar, por imposição alheia, um Deus, seja qual for o nome que lhe dêem, que decidi pensar por mim próprio, não alimentando uma ideia sequer parecida com a que os crentes cegos de fé fazem da sua religião, seja ela qual seja. Não fui capaz de ficar alheio ao que se estava a passar à minha volta. No entanto, a grande preocupação que me acompanhou sempre foi e é a de constatar que neste mundo, onde todos os avanços tecnológicos se têm verificado em múltiplos campos, ninguém conseguiu ainda explicar o que é essa coisa do INFINITO!...
E é isso, mais do que nada, que provoca o meu completo cepticismo. Ser fervoroso quer do sim quer do não, tomar lugar seguro num dos dois lados, não acalentar dúvidas, aceitar razões de uma ou de outra posição antagónica, tudo isso é que, desde tempos remotos, tem sido o que a maioria dos homens se agarra, sobretudo por comodidade. Ou por medo. Agora, ficar no meio a contemplar as duas pontas, os lugares opostos, é que é a situação mais desconfortável, posto que o aconchegante é acreditar, sem discutir, que alguma das duas coisas tenha de ser a verdade, o sim ou o não. O talvez é que martiriza.
É esta angústia que me tem perseguido toda a vida, desde que me colocaram ao lado do padre a responder em voz alta às rezas que eram por ele conduzidas e a que muitas vezes esquecia de fazer a minha parte - o que levava o cura a repreender-me em pleno altar, evidentemente paramentado. Mantenho dúvidas até hoje, não tenho qualquer receio em admiti-lo, e será por isso que, se bem que não com muita frequência, mas tem acontecido, quando passo à porta de uma igreja Católica, fora das horas de movimento, e me surge a vontade de gozar do silêncio do seu ambiente, sem rezas e sem praticantes, concentrando-me naquilo que poder ser a resposta que gostaria de obter, pratico esse exercício do pensamento. Mas faço-o numa Igreja católica, como poderia igualmente executá-lo noutro recinto tranquilo, melhor sendo religioso, que recomende a concentração.
O céu, o inferno, o paraíso, todos esses santos que arrastam multidões aos altares e aos santuários assim considerados, com pedidos e promessas de recompensar milagres solicitados e satisfeitos, palavreado fervoroso decorado sem análise do sentido, pois que é fruto da fabricação dos homens que comandam as religiões, os objectos ditos sagrados que não podiam ou ainda não podem ser tocados por mãos impuras, os evangelhos, bíblias, testamentos, antigos e modernos, que só surgiram depois de ter sido inventada a escrita, coisa que há milhares de anos só era praticada através de hieroglíficos, tudo isso me vem à mente e em que, isolado, talvez até muito perto do acabrunhamento, me sento num banco de uma igreja que esteja vazia, na esperança de receber alguma luz que esclareça a enorme vontade de chegar o mais perto possível da VERDADE.
Mas sempre que me acontece fazer este exercício, deparo com a sentença conhecida: há três verdades, a minha, a dos outros… e a verdade, a que não é exclusivo de ninguém e nem coincide, muitas vezes, com as outras duas!
Situando-me, pois, numa terra de ninguém, fico isolado, não tenho parceiros para defender uma ou outra tese, posto que a ausência de linha de rumo, melhor, de ponto fulcral a defender, não tem força bastante para constituir grupo de adeptos dispostos a abraçar uma causa.
Sem bandeira, sem hino, sem marcha de ondas populares não é possível constituir causas que justifiquem o menor esforço para aumentar falanges de adeptos. Grupos, clubes, associações de agnósticos é coisa que não existe. Ninguém se junta apenas para evidenciar dúvidas. Quem as tem, desfolha sozinho as suas mágoas e martiriza-se por viver na ignorância quanto à posição correcta que deve tomar, pois que, no fundo, bem desejaria ter crença nalguma coisa
Sente-se desprotegido por não encontrar força que leve a prestar vassalagem a uma imagem fabricada por um artista, por muito genial que ele seja ou tenha sido.
Um agnóstico é um abandonado. Sobretudo aquele que leva a sério as suas dúvidas. Que procura, a cada momento, encontrar alguém que as desfaça. Mas que tenha argumentos palpáveis para conseguir fazer mudar de opinião. Alguém que não seja, faccioso, fanático, fundamentalista. De qualquer fé.
É nessa ânsia permanente que se vai atravessando a vida. A minha pelo menos. Tentando descortinar o fim dela e sem ter sido capaz de acreditar se que o que vem depois é melhor. Que não seja o termo absoluto de cada um.
Bem desejaria eu que tivesse alinhado com a turba da indiferença. Com o deixa andar do dia-a-dia. Com o que será… será!
Quando deixo aqui escritas as minhas preocupações, as quais não tenho coragem para as descrever aos outros, cara a cara, enquanto estiver vivo, é porque alimento alguma esperança de que, nem sei como, um dia alguém as lerá e, ou se identificará com este tipo de dúvidas ou, bem pelo contrário, na sua crença fervorosa rezará para que sejam perdoados os meus pecados de descrença.
Num ou noutro caso, tanto faz. Nessa altura ninguém terá chegado provavelmente ainda a uma conclusão. O mistério foi criado para perdurar. Enquanto o mundo for mundo. Enquanto o Homem for o que é. E, se mudar, levará muito tempo até que isso aconteça.

A AREIA


A areia que escorre entre os dedos
lembra a vida que foge e não se agarra
é isso bem visível nos meus medos
desses que me perseguem com amarra

Vejo-a cair no fundo do poço
esse poço que é o fim da vida
é tão rápida a queda que não ouço
nem sinto a dor que provoca a partida

Areia fina que já fostes pedra
milhões de anos por ti passaram
apesar disso és algo que medra
voltarás a ser como te encontraram

As avestruzes no teu seio escondem
as cabeças medrosas, indecisas
e perguntam aos grãos que não respondem
pois aí não há soluções precisas

Mas a vida é tal como a areia
ensopada é igual à argamassa
seca, se o vento dá vai à boleia
rodopiando enquanto o tempo passa

Um dia, porém, leva-a o mar
não fica essa areia onde estava
mas outros bagos irão ocupar
tal espaço onde antes morava

A vida é assim: ondas de areia
ora compacta ou de grãos à solta
nada seguro nesta grande aldeia
que é o mundo sempre em revolta

domingo, 15 de junho de 2008

HÁ OUTROS PIORES!...


É precisamente no momento em que a televisão transmite um desafio de futebol que os portugueses tanto têm ansiado por assistir, enquanto me soam nos ouvidos os entusiasmos dos locutores que, desde Basileia, se esganiçam para transmitir o calor que envolve todo o campo, calor esse proveniente do fervor dos portugueses que ali vivem e por ali trabalham, pois é nesta altura que eu começo a redigir o texto que transmito ao meu blogue de hoje. Quer dizer: por um lado sinto profundamente os problemas que, esses sim vitais, envolvem o nosso País – e não só, porque a Europa também tem um bom bico de obra para solucionar -, mas, por outro, deixo-me embevecer pelo eventual resultado que este encontro de futebol entre o nosso País e a Suiça poderá apresentar, no sentido de possivelmente aliviar o sentimento que nos tem de preocupar todos os que vivemos portas adentro. O que já demonstra, da minha parte, uma certa boa vontade.
Mas, falemos de coisas sérias. Desiludidos com a actuação de Sócrates e da sua equipa quanto ao “black-out” provocado pelos camionistas patrões da nossa Terra, que provocaram um prejuízo de um tamanho insuportável em quaisquer circunstâncias mas que, na situação actual portuguesa, ainda menos se pode tolerar, de olhos baixos todos nós, sobretudo os seguidores da actuação política do actual primeiro-Ministro, pois que não pode ter desculpa que tivessem passado aqueles dias sem que o Governo fosse capaz de antecipar-se e de evitar que uns tantos (e, neste caso, nem sequer foram os tão idolatrados trabalhadores) donos de transportes de mercadorias fizessem paralisar o nosso País.
Passado que foi esse descalabro, deparamos com a decisão política da Irlanda de não aceitar, por referendo, o que foi determinado no Tratado de Lisboa, o que deixou também Sócrates a pensar seriamente se não terá que fazer uma romagem a pé a Fátima, para tentar também esta via para talvez poder afastar a má sorte que anda a persegui-lo. É que, para além disso, a subida do preço dos combustíveis não dá mostras de baixar, antes pelo contrário, o que se vai traduzir na baixa ainda mais acentuada do custo de vida dos cidadãos nacionais.
Como se tudo isto não chegasse, apurou-se agora que o custo do túnel do metropolitano que vai ligar o Terreiro do Paço a Santa Apolónia foi de 15 mil euros por cada metro dessa via, ou seja representa uma derrapagem de 65,7 por cento e, relação ao orçamento existente, o que, por outras palavras, aponta para um “buraco” de 31 milhões de euros. Para não falar no tempo de duração da obra, com os prejuízos económicos e humanos que tal demora representa, e nos 12 longos anos que decorreram desde que a data da adjudicação da obra e até Dezembro de 2007, data da “inauguração” do trabalho executado. Tendo em conta que o trabalho foi adjudicado em Fevereiro de 1995, ou seja, antes do período socratiano, o que todos nós, portugueses, temos de concluir é que somos incapazes de respeitar compromissos, defeito que vem, aliás, de trás e até da nossa História. Logo, ou nos emendamos ou estamos bem arranjados quanto ao futuro que nos espera.
Dirão os contentinhos com aquilo que somos que esses e outros descalabros também sucedem fora de portas, que não somos só nós os incapazes e que o estado a que se chegou por cá, onde a Democracia não foi capaz de operar o milagre de uma melhoria substancial no nosso comportamento de pensadores e de fazedores, também está a causar grandes dissabores em muitos outros sítios do mundo. E, excepção feita aos países, até da Europa, que, com a sua adesão à Comunidade Europeia, estão a dar mostras de enorme capacidade de evolução – talvez até, porque souberam aproveitar bem as enormes ajudas que receberam e que, por sinal, também cá vieram parar na época de Cavaco Silva, primeiro-ministro – situações económicas difíceis por aí fora não são um exclusivo lusitano.
Sendo assim, pois, quais são as perspectivas próximas e futuras do mundo que nos rodeia? Poderá haver por aí algum comentador televisivo, desses que sabem de tudo e não têm nunca dúvidas que seja capaz de garantir, por exemplo, que o Irão, que não aceita suspender o enriquecimento do urânio, não lhe dê um dia para pôr termo ao que esse próprio País considere que está para suportar. Porque é assim que actuam ou têm actuado. E, nessa altura, o carregar no botão é coisa que só se dá por isso na altura em cair sobre as nossas cabeças aquilo que, em plena escala, sucedeu no fim da II Guerra Mundial em Yroshima. Salvo seja!
E não aproveito para fazer propaganda, mas sempre deixo aqui a informação de que, numa peça de teatro da minha autoria, intitulada “E a Terra, indiferente, continua rodando…”, escrita há já vários anos e até premiada – mas nunca representada, porque este País é o que é -, o tema do fim do mundo é aí tratado.
Mas não se assustem os que tomem conhecimento desta notícia despretensiosa. Por cá, autores teatrais portugueses é coisa que não se usa. E para quê?

Ah! Já me esquecia. Afinal a equipa portuguesa de futebol perdeu com a Suiça. Parece que ninguém vai morrer por isso, pois que a nossa posição no conjunto garante a permanência portuguesa. Valha-nos isso. Com Scolari ou sem ele, lá nisso do futebol as coisas vão-se compondo.
Desta safas-te José Sócrates! Também, não pode ser tudo a correr mal…

sábado, 14 de junho de 2008

O QUE HÁ A DIZER!...


Desde que enfiei aqui os últimos textos para marcar presença diária no meu blogue, passaram-se algumas coisas que vale a pena referir. No entanto, tenho consciência de que há que tocar nelas com pinças. Não que tenha medo das consequências. Estou por tudo. Mas o que não me apetece é discutir. Por isso vou debitar e não me vou dar conta dos créditos. Cada um com o seu…
Em primeiro lugar, referir-me-ei às Marchas Populares, mais umas que se celebram em Lisboa e, desde que foram iniciadas quando havia gente que tinha habilidade para estes tipos de festejos - nem me refiro a nomes -, têm vindo, de ano para ano, a baixar de categoria de forma assustadora.
Quanto às que ocorreram na noite do dia 12, basta dizer que os ensaiadores dos cantares bairristas – já nem me preocupo com as chamadas marcações – devem ser completamente surdos. Os “desafinanços” de todos, sem excepção, os gritos deles e delas a querem sobressair do resto do conjunto, a desarmonia completa só serviam de convite a mudar de canal, muito embora duas televisões, à falta de uma, tivessem preenchido os seus tempos de antena com aquela “miséria”. Sim. Não mando dizer por ninguém. Foi um desastre completo. E como nos recordamos dos velhos Leitões de Barros… apesar de tudo!

Ao mesmo tempo, na TVE, assistia-se à inauguração da EXPO de Saragoça, onde compareceu Cavaco Silva para inaugurar o Pavilhão e Portugal. Também para não entrar em quezílias com os que, por tudo e por nada, acham que “de Espanha, nem bom vento nem bom casamento…”, basta que diga o seguinte: qualquer comparação em termos de qualidade de produto televisivo, por longínquos que sejam os temas em causa, qualquer tentativa para dizer que ali só havia arte e bom gosto e aqui foi o que se viu, só serve para… ficarmos mudos!

E o terceiro assunto, este, evidentemente, bem mais difícil de remendo: foi a nega que se verificou na Irlanda no plebiscito que serviu para saber se o povo aceitava ou não o resultado do chamado “Tratado de Lisboa”. Não vou entrar em pormenores, pela extensão do tema e pela obrigação democrática de aceitar o que pretende a maioria, por mais que pensemos que esses mais de 50 por cento fizeram um enorme estrago na caminhada que muitos de nós desejamos que avance, no sentido de unir cada vez mais e melhor a Europa.
É difícil, bem se sabe. Existem interesses que não coincidem. Há os grandes e os pequenos. E, não tapemos a verdade, existem aqueles que estão sempre dispostos a mandar. E que não aceitam que outros façam esses papeis.
Isto, para referir superficialmente uma matéria que nos vai custar a todos nós, europeus, muito cara! Já não bastava o problema que se vai agudizando dos combustíveis…

Quanto a nós, por cá, a decisão tomada por Scolari de deixar a selecção de futebol portuguesa entregue a outras mãos – e até pode ser que venham a ser melhores do que as do brasileiro (eu, quanto a futebol não me atrevo a dar opiniões, porque há por aí uns comentadores televisivos que sabem de tudo, incluindo literatura, política, desporto… seja lá o que for!), essa decisão que apanhou de surpresa todos e até o próprio Eusébio, parece que deixou mais abalados os portugueses do que quaisquer outros acontecimentos que eu pudesse incluir no meu blogue de hoje. Não vale a pena, pois, prosseguir.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

ESFARRAPADO



Muito calado
menino esfarrapado
que passas na minha rua
que não é a tua.
Não brincas, não ris,
infeliz,
eis a sombra
que assombra
a tristeza,
a pobreza.
Eis o retrato deste mundo egoísta,
capitalista,
que olha só para o seu umbigo,
que não se importa contigo
e fica contente com o que vê
porque só em si mesmo crê.
O mundo,
profundo,
está para lá
nem conta se dá
das tristezas,
das vilezas,
que o Homem sofre

Pobre rapaz, sem paz,
vais crescer assim,
enfim,
que dó,
só,
desamparado,
amargurado,
e olhas em redor,
com dor
revoltas-te
e perguntas-te
como qualquer ateu:
Porquê eu ?

DESENCANTO...POR ENQUANTO!...

Se eu fosse uma pessoa muito conhecida, dessas que quando saem à rua, todos se voltam para confirmar se é quem parece e que, nos locais mais fechados, como nos centros comerciais, por exemplo, param, fazem um sorriso, procuram meter conversa e até pedem um autógrafo, se eu fosse um desses não sei como me comportaria. Possivelmente mal. Ou bem? Enaltecia o meu ego ou fazia-me sentir desconfortável?
Levanto esta dúvida porque toda a gente assiste às figuras que fazem aqueles para se tornarem personalidades públicas. Não têm no seu activo qualquer feito que os coloque acima da mediania, não se distinguem da generalidade por serem melhores do que os outros mortais, só conseguem dar nas vistas através de excentricidades, dos disparates que dizem, de exibicionismos, sempre, claro, diante das câmaras de televisão e dos fotógrafos das revistas ditas “light”, sempre que os apanham em qualquer manifestação social, onde fazem questão de não faltar.
Essa classe de gente faz tudo para ser notada e, por isso, sente enorme prazer em ser apontada quando está no meio do público. É para isso que se levantam da cama, tarde, porque as noites se prolongam até de madrugada, em tudo que é local de afluência.
Não sei se tenho dó ou se me provoca repugnância esse género de indivíduos, eles ou elas – porque há dos dois sexos -, que é difícil imaginar como vivem e de que vivem, muito embora sejam hábeis em truques de usar roupa emprestada, terem sempre alguém a que se encostam para conseguir alguns favores e sempre vão comendo nos “cocktails” que frequentam. Até há os que dizem que levam atrevidamente os copos para casa!
A mim, deixem-me passar despercebido. É que não fiz nada de jeito para ser famoso, nem mesmo um bom desfalque ou um crime merecedor de ser propagandeado na comunicação social.
Sou, afirmo-o convicto, um Zé-ninguém.



QUANTOS FERNANDOS PESSOAS ANDARÃO POR AÍ?


A frase em mim não é inédita. Somos um País de extravagâncias. De exageros. Do mínimo e do máximo. É uma característica. Não é um defeito só por si. Mas pagamos por sermos dessa forma. E eu explico o que quero dizer na situação que me leva a fazer esta nota.
No capítulo de “fabricarmos” ídolos, pessoas destacáveis, gente que aparece permanentemente nos écrans das televisões e nas capas de certas publicações, personalidades que, por tudo e por nada, são consideradas como merecedoras de serem apontadas como exemplares – geralmente no bom sentido -, nessa área há por aí uns profissionais da glorificação, usando e abusando dos chamados tempos de antena para atirarem para os olhos do público gentinha que, feitas bem as contas, nem se percebe o motivo por que não são, apenas e só, conhecidas vagamente na rua onde moram.
Mas, ao fim e ao cabo, até se entende que tais criaturas sejam usadas para preencher espaço e tempo dos chamados “comentadores” das vidas alheias, também classificadas com uma profissão que não consta ainda do cardápio de actividades que podem ser colocadas no cartão de visita. Também há quem lhes chame tertulianos”, um arremedo de mau gosto dos antigos frequentadores de cafés, onde, sob algum fundo intelectual e criativo, eram discutidas teses, princípios, até mesmo dogmas políticos e religiosos em que procuravam que saísse da discussão alguma luz que, tantas vezes, acabou por ser passada a excelentes obras de interesse público.
Não preciso de acrescentar que não é nada disso que se passa agora. O vazio de conteúdo é o que resulta dessas conversas mal delineadas dos mexeriqueiros da vida dos outros.
Adiante pois.
Este meu desabafo preambular serve apenas para criar uma espécie de tapete vermelho ao tema que me leva a encher este espaço. É que, precisamente amanhã, a Câmara Municipal de Lisboa, que também tem, de vez em quando, rasgos de iniciativas louváveis – e, nesta altura, até se compreende pela aflitiva falta de verbas que reina por aquela Casa – vai levar a efeito um espectáculo, com entrada livre, com música e manifestações artísticas, que homenageiam o enorme, o tão pouco divulgado escritor e poeta (com o merecimento que lhe cabe) que, por sinal, é o autor português mais importante no Brasil. Refiro-me, está bem de ver, ao grande Fernando Pessoa, o ignorado durante anos – e hoje ainda tão pouco divulgado junto da juventude -, o que, por sinal, completaria 120 anos se fosse vivo nesta data.
O escriturário, o ajudante de guarda-livros de um escritório num terceiro andar da rua dos Douradores, o residente isolado num quarto alugado na Baixa lisboeta, tendo nascido no largo de S.Carlos mas transferindo-se em criança para a África do Sul, onde nunca esqueceu a língua pátria, tendo regressado na idade de já saber que queria ser escritor e por isso utilizava aquela mesa do Café Martinho para ali produzir o que lhe saia da imaginação, tendo assistido apenas à edição de um livro, pois toda a sua obra só saiu a lume numa altura em que já cá não estava para tomar nota de que, afinal, tinha admiradores, esse Fernando Pessoa levou tempo a merecer a honra de uma homenagem póstuma. E não me refiro a qualquer condecoração, que essas são destinadas aos que se movimentam por aí e se preocupam em dar nas vistas.
Fico-me por aqui. E volto ao início deste blogue.
Vivemos num País em que os que valem são os que circulam por aí exibindo a sua mediocridade, mas tendo a habilidade de tirar partido dela com atitudes que, na maior parte das vezes, não deviam passar da soleira das portas das casas onde vivem. Não. Não vou referir-me aos centenas de milhar de portugueses que já sentiram sobre os ombros as condecorações que foram concedidas por quem está autorizado a prestar essas honras. Isso é lá com eles.
Mas não retiro uma letra ao preâmbulo deste texto. Somos um povo que gostamos de fabricar ídolos. O que é pena é que nos andemos sempre a enganar nos visados.
Não valerá a pena perguntar: quantos fernandos pessoas ficaram pelo caminho e ainda andarão por aí sem que ninguém dê por eles e até porque os próprios também não se consideram capazes de ser merecedores de qualquer distinção? O excesso de modéstia tem o seu preço!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O FUTEBOL




Vinte e dois homens num campo

saltando qual pirilampo

de relva verde, tratada

aparada

com um outro que usa apito

que provoca muito grito

de vez em quando silvando

para mostrar quem tem o mando

com dois de fora a espiar

e nenhum é popular

com bandeirinhas na mão

prestando grande atenção

assim lá vão os minutos

que não são absolutos

lá se passa o tempo afinal

noventa no seu total

com pontapés numa bola

obedece a quem foi pô-la

que gira de um para outro lado

por sobre o verde relvado

do terreno

sem empeno

que tem risco branco ao meio

e não se pode chamar de feio


De calções correm e suam

e se extenuam

aqueles que usam os pés

que servem para pontapés

pois os braços e qualquer mão

esses podem custar expulsão

somente os homens das balizas

têm como divisas

deixá-las invioláveis

impenetráveis

todos equipados a preceito

aprumados a seu jeito

quando entram no relvado

esteja seco ou molhado

cada onze de sua cor

calmos ou com pavor

fazem por meter a bola

que em tempos era de sola

na baliza do adversário

para que aumente o salário


Golo! Gritam os adeptos

que não recusam afectos

cada vez que lá enfiam

e assim se agraciam

pois o tal esférico

que não tem nada de pindérico

quando conseguem fazê-lo

podem servir de modelo

no cubículo que é alheio

se acertam em cheio

dão largas à fantasia

não escondem a alegria

rebolando-se no relvado

com certo ar desvairado

beijando a camisola

mostrando ser gabarola

correndo desenfreados

coitados


O pior vem porém

porque nem tudo corre bem

quando o árbitro apita

e marca falta desdita

injustiça! Malandrice!

mas que grande pulhice

não aconteceu nada disso

já lá faltava o enguiço

foi tudo bem ao contrário

e aquele grande ordinário

do juiz, o desgraçado,

vê-se que foi comprado,

ouve o que não se diz fora

mas mesmo assim não cora

pois é esse o seu ofício

e há que fazer sacrifício

para bem do futebol

que dá bastante carcanhol


Por vezes não só das bancadas

bem lotadas

ressaltam os impropérios

sem critérios

os jogadores mal formados

enganados

pelo contra-tempo raivosos

nervosos

mimam sem se conter

por vezes até com prazer

e fazem ao árbitro gestos feios

sem ter cuidados com os meios

e o pior é quando se excedem

e não medem

o tamanho dos dichotes

e que até saem a potes

e entram noutros confrontos

ainda muito mais tontos

que deixam marcas visíveis

horríveis

no corpo do julgador

que horror!

bem pagam por isso os tolos

que nem lhes valem os golos


Ganham muito os jogadores

os senhores?

seguramente que sim

pelo menos alguns, enfim

p’ra quem não gastou pestanas

bem podem cantar hossanas

deviam ficar calados

os famosos, deslumbrados

porque para simples mortais

têm benesses demais

por muito que lá no fundo

se julguem o centro do mundo



Será que tais honrarias

de todos os dias

são merecidas?

bem lambidas

neste mundo de injustiças

e de cobiças

de tantas desigualdades

maldades?

ninguém nada estranha

neste mundo de manha

é tudo tão natural

tão banal

que até os pobres de Cristo

já nem fazem registo

de tais populares figuras

que exibem grandes farturas

e vivem como nababos

fazendo inveja a diabos

olhando p’ra baixo o mundo

não sabendo que no fundo

se abrem a boca sai asneira

o que se não causa poeira

pelo menos incomoda

por muito que faça moda



O reverso da medalha

que geralmente não falha

é quando perdem sem jeito

que os faz baixar o peito

e de melhores do mundo

descem bem até ao fundo

passam a ser os piores

e desmerecem favores



Se algum bom senso tivessem

e as honrarias merecessem

quando bem lá no alto estão

pediriam perdão

demonstravam só modéstia

nem que fosse só uma réstia

ao espelho se olhavam

e choravam



Afinal neste País

há muita gente que o diz

os três efes estão em cima

e recebem toda a estima

dos portugueses de gema

como delícia extrema:

Fátima, fado e futebol

e não põe mais no rol



De igual forma os tais “heróis”

terão tempo para depois

mesmo tarde constatar

que foi curto o tempo para jogar

porque a idade não perdoa

por muito que isso doa

e se no auge houve fartum

não foram guardando algum



Passada a época boa

quando têm baixa a proa

contam os tostões na carteira

e choram a grande asneira

de quando jorrava a torneira

não se terem precavido

deixando cair no olvido

conselhos de quem sabia

e lhes mostrava a fantasia

da vida fácil de então

reinação.

Agora é tarde para ira

por tudo que foi mentira



Mas vistas melhor as coisas

mirando gentes vaidosas

que por aí se pavoneiam

e bem estar alardeiam

não será que também esses

descuidem os seus interesses

e fiquem iguais aos “putos”

que aí andaram aos chutos?