domingo, 4 de maio de 2008

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Seguindo o princípio escrito e deixado por Fernando Pessoa, de que “a minha Pátria é a língua portuguesa”, teremos de concluir que, em Portugal, existe uma enormidade de apátridas. Tal a quantidade de gente que, por cá, tão mal trata o nosso idioma, quer a falar quer a escrevê-lo. A juventude actual, então, que luta nas escolas para conseguir notas razoáveis nessas duas disciplinas que são a matemática e o português, não dá mostras de esforçar-se por se apurar na fala e na escrita da nossa bela língua, sobretudo nesta fase de resistência aos modernismos, tecnológicos mas não só, que se vão infiltrando no nosso vocabulário.
Não há nada mais agradável, para quem tem a paixão pelo português, do que seguir um texto que nos conduza através da rectidão dos vocábulos utilizados, pela pureza das concordâncias gramaticais, pela beleza das palavras utilizadas e não repetidas, pelo prazer sonoro que se acumula nos ouvidos quando se lê em voz alta e com entoação.
Tudo isso é a majestosa língua portuguesa. Aquela que, em tempos, era ensinada nas escolas primárias, mesmo quando as palmatoadas castigavam os erros dos ditados.
Tenho saudades da minha professora, que todos dias obrigava a uma redacção, uma das quais conservo e em que escrevi que “o filho do gato chama-se gatinho”…
Hoje, em contrapartida, há por aí muitos doutores, lá isso há. O que é pena é que sejam tão pouco alfabetizados!...

sábado, 3 de maio de 2008

VERDE, VERDE!




Está verde! Está verde!
é ordem para avançar
depois de longa espera
pode ser que o andar
dê mostras da Primavera
a que depois do Inverno
constitua a esperança
e a fuga do inferno
um sinal de bonança

Está verde! Está verde!
e após o encarnado
que nos travou os pés
sair de tamanho enfado
e mostrar mesmo quem és
dá gozo ao arrancar
estando ao código atento
pois o novo caminhar
sendo livre como o vento
merece tod’ atenção
e não faltando alegria
há que não perder a mão
e evitar ventania

Está verde! Está verde!
avancemos, mas porém
ir os sinais respeitando
pois que cada qual lá tem
o seu próprio comando
não há que interferir
na cor que tem cada um
muito menos invadir
o que é lugar comum
tendo sempre em atenção
outro sinal, amarelo,
representa a contenção
uma espécie de apelo
para que não se ultrapasse
o que estipula o sinal
e não se mude a face
por ordem do vil metal

Está verde! Está verde!
embora se possa andar
se não houver empecilho
há que ter tento e mirar
p’ra não ocorrer sarilho
todos têm seu direito
e a minha liberdade
afirmo-o de peito feito
não pode ter uma grade
que trave de ir p’ra frente
os que no mesmo caminho
são como eu e são gente
merecem igual carinho

Está verde! Está verde!
gritarão oportunistas
os que apanharam boleia
no carros dos vanguardistas
que de deveres nem ideia
e de obrigações muito menos
pois julgam que atropelar
pertence aos direitos plenos
de pela vida avançar
pisando aqui e ali
quem estorvar, empurrando,
não querendo ao pé de si
quem sozinho vai andando

Está verde! Está verde!
essa cor não indica
que se pode fazer tudo
de que até se abdica
do respeito e conteúdo
da palavra liberdade
pois se um dia tal acabar
só nos restará saudade
e vontade de chorar

E se por desleixo um dia
a liberdade se perde
já não vale a gritaria
por não aparecer o verde

FALAR COM O POVO


(continuação - 3)
Nessa altura, de uma forma geral e extraindo aqueles que se consideravam ligados, política e sentimentalmente, ao estilo do Estado Novo, o ambiente geral era o de contentamento e de grande esperança de que, por fim, se tinha conseguido dar o passo que nos poderia fazer aproximar dos países que já gozavam de liberdade há vários anos. Sobretudo a partir do fim da II Guerra Mundial.
Dando de barato - para usar uma linguagem que o povo entende bem - todos os empecilhos que se levantaram provocados pelas precipitações de sacudir Portugal dos enredos políticos que não era fácil afastar das mentalidades mal preparadas dos portugueses,, não sendo agora ocasião para fazer acusações, por sinal merecidas, a vários oportunistas que se aproveitaram da ignorância e também da ingenuidade dos militares que se envolveram na Revolução, querendo empurrar com violência o movimento para extremismos, para nacionalismos apressados de empresas que acabaram por se perder na confusão revolucionária, deixando para outro texto o historiar de um período que teve vários intérpretes que impuseram marca negativa em toda a sua acção, como foi o tristemente período conhecido pelo gonçalvismo, ocupemo-nos apenas da questão que, 34 anos passados sobre o 25 de Abril de 1974, ainda parece não ter sido devidamente entendida pelos políticos nacionais de agora: o falar explicitamente e sem subterfúgios, numa linguagem aberta e, se possível, verdadeira para explicar aos cidadãos as razões de ser das suas atitudes, isto quando são Poder, e, por outro lado, expor os motivos porque discordam das medidas governamentais e o que fariam se situassem nos postos daueles que criticam.
E não é isso que ocorre num e noutro lado do espectro político nacional. Os ataques de ordem pessoal não têm de constituir matéria única para oferecer aos potenciais votantes - nas horas que se oferecerem para tal exercício - razões fundamentadas de escolha de caminhos que podem situar-se na área do agrado de cada um. De igual modo, o historiar somente situações antigas que, evidentemente, não têm de ser ignoradas e que, em boa verdade, deixaram marcas de incompetência de muita gente que deveria afastar-se das actividades políticas por nítida falta de habilidade, seriedade e outros atributos que são essenciais a tal desempenho, não é essa história apenas o factor mais importante, de formaçaõ e de informação, que os potenciais utilizadores do voto necessitam para alimentar a sua consciência.
O que os políticos portugueses, a esmagadora maioria, diga-se abertamente, não sabe é falar de forma a que o Povo que somos não desligue a rádio ou a televisão quando essas figuras surgem a debitar conceitos. São bem conhecidas palavras e frases que se prestam de seguida de pasto do anedotário nacional. E nem é necessário recordar o "jamais" que ficou, para tristeza e vergonha do seu auitor!
E, para dar outro exemplo de inaptidão de prestar esclarecimentos aos portugueses deixo aqui a pergunta: será que ninguém terá dito ainda ao engenheiro Sócrates que lhe ficaria bem e resultava seguramente numa subida de simpatia e de credibilidade se passasse a admitir, de vez em quando, que também se engana, que nem tudo corre bem, que, de facto, a vida dos portugueses tem vindo, ao contrário do que afirma categoricamente, a sofrer aumentos de dificuldades, tudo isso em lugar de utilizar permanentemente percentagens que nada adiantam e que, sobretudo, ninguém entende para além de poucos poderem discutir esses números. Por outro lado, também seria simpático pedir às oposições conselhos que fossem exequíveis de pôr em prática e que pudessem servir de ajuda para que as coisas não continuassem a correr tão mal no capítulo do difícil nível de vida dos cidadãos, para além dessas solicitações, feitas com ar de boa vontade, poderem habilidosamente ocultar uma forma de colocar a "batata quente" nas mãos dos adversários .Ainda assim não ficaria mal ao que desempenha as funções de primeiro-Ministro dar mostras de abertura de espírito e de desejo de não querer parecer que é senhor absoluto de toda a verdade .
E é isso que este desabafo blogueiro pretende tentar conseguir: que não há ninguém insubstituível, sabedor exclusivo de tudo e, pelo contrário, é evidenciando dúvidas, não tendo receio de de mostrar que elas são são as melhores conselheiras, que se pode servir de exemplo de simplicidade para se tentar conseguir o melhor caminho possível. Já que não se consegue sempre o ideal.
E, para além de tudo isso, o utilizarem os políticos uma fala pública que seja facilmente entendível pelos poucos mais de 9 milhões que nós somos, tendo em conta que a esmagadora maioria não é formada por gente letrada, mesmo medianamente instruida e nem sequer a juventude, como desabafou Cavaco Silva recentemente, é possuida de um lastro que a leve a ser conhecedora profunda dos problemas políticos, económicos e sociais do nosso País, repito, o começarem os profissionais da actividade política da nossa Terra a entender que têm de mudar radicalmente de forma de se dirigir aos que ainda conseguem ser ouvintes, o darem esse passo poderá ajudar a que mude radicalmente o desinteresse em que se vive entre nós no que diz respeito às quezílias que movem aqueles que falam, falam... mas poucos os entendem!

EMIGRANTES PORTUGUESES


Portugueses emigrantes
que partistes à deriva
estais melhor do que antes
daí a alternativa

Sem saber falar a língua
do país que te acolheu
foi mesmo sair à míngua
de quem por aí se benzeu

Chegados p’ra trabalhar
onde seja e o que seja
é preciso começar
por vezes dura peleja

Mas o espírito de luta
grande ânsia de viver
faz com que qualquer labuta
seja aceite p’ra vencer

Sacrifício, economias
e força p’ra trabalhar
sem tempo para folias
e nunca desanimar

Submissos mas contentes
respeitadores do à volta
são aceites pelas gentes
nunca expressam revolta

Trabalham mais do que todos
produzem com ambição
juntam dinheiro a rodos
p’ra regressar à Nação

Se voltam nunca se sabe
pois filhos nascem lá fora
e a decisão só cabe
no tempo exacto e na hora

Seja como for então
a pergunta sempre fica
não sendo seres de ficção
que mistério os modifica?

Porquê os que cá estão
como os outros portugueses
só sabem dizer que não
e ao trabalho poucas vezes?

Se dentro das nossas portas
fôssemos como os de fora
não havia horas mortas
nem havia que ir embora

Portugal outro seria
competindo com maiores
grande inveja causaria
sem precisar de favores

Só que quando os emigrantes
ao solo pátrio regressam
ficam logo como antes
e na moleza tropeçam

Será pois do nosso solo
ou do Sol que alumia
que não se encontra consolo
e se perde a energia?

Se não há superstições
e a verdade outra será
é porque lá fora os patrões
não são iguais aos de cá?

Que responda quem souber
e pertença aos temerosos
com sindicatos teimosos
a lutar é de temer

Fica cada um na sua
a cura é bem remota
a mudança não se nota
e o mal não se atenua

Leis do trabalho estão
fora da realidade
e sendo esta a verdade
não se verá solução

EMIGRANTES PORTUGUESES

  1. Só que quando os emigrantes
    ao solo pátrio regressam
    ficam logo como antes
    e na moleza tropeçam

    Será pois do nosso solo
    ou do Sol que alumia
    que não se encontra consolo
    e se perde a energia?

    Se não há superstições
    e a verdade outra será
    é porque lá fora os patrões
    não são iguais aos de cá?

    Que responda quem souber
    e pertença aos temerosos
    com sindicatos teimosos
    a lutar é de temer

    Fica cada um na sua
    a cura é bem remota
    a mudança não se nota
    e o mal não se atenua

    Leis do trabalho estão
    fora da realidade
    e sendo esta a verdade
    não se verá solução


sexta-feira, 2 de maio de 2008

FALAR COM O POVO

(continuação - 2)

Afinal, os cidadãos portugueses, ansiosos por verem abertos os portões que estiveram tantos anos encerrados, impedindo que, desde aqui, se tivesse contacto claro com o que se passava no exterior quanto à verdadeira Democracia - pois só os emigrantes e os privilegiados, por poderem assumir por sua conta visitas ao estrangeiro, realizavam o grau de atraso em que se vivia das fronteiras para dentro -, logo que o 25 de Abril ocorreu acreditaram que se tinha dado início, finalmente, a um período completamente novo em que as lufadas de comportamento democrático se tinham instalado entre nós.
Finda a Censura, exterminada a PIDE, soltos os presos políticos e surgindo logo, em verdadeira cavalgada, os agrupamentos políticos, cada um a alardear as suas virtudes e a considerar, de imediato, como inimigos todos os outros que também se proclamavam serem os únicos portadores da boa nova e da felicidade dos portugueses, tudo isso contando com o natural entusiasmo popular, posto que pior do que antes não podia ser, nessa altura não foram muitos os que levantaram a dúvida e só a possibilidade de poderem falar abertamente e não sofrer as consequências só pelo facto de discordar, logo isso serviu para que o 1.º de Maio que ocorreu poucos dias depois do dia da Revolução mostrasse o entusiasmo que se espalhou de Norte a Sul do País, com a alegria espalhada nas faces deste Povo tradicionalmente triste e macanbúzio.
Quem tem memória sabe que foi assim.
(continua)

CONTRATEMPOS


Tempo é coisa que não se segura
a medi-lo levamos toda a vida
e enquanto a existência dura
Com todos os inesperados contratempos.
agarramos a árvore do tempo
porque essa, sim, é a que se vê
seguramo-la sem um só lamento
pois no tempo, nele só se crê

Não se vê, mas sente-se bem passar
tal como dizem, que o tempo é dinheiro
tudo ao mesmo tempo, até faltar o ar
mas para partir quem irá primeiro
pois todos nós, claro, envelhecemos
quem lá chegar que veja bem a hora
se o tempo conta como cá fazemos
e se também há depois e agora

Os minutos de tempo que separam
uns momentos dos outros, tal e qual,
servem para todos os que os comparam
e apartam o que é bom do que é mal
marcando os piores com uma cruz
metendo em cápsulas todos os tempos
que voam com a rapidez da luz
tanto os bons como os que são contratempos


Bons tempos que já lá vão e não voltam
que os maus esses nunca se esquecem
os tempos perdidos que nos revoltam
que também eles são os que envelhecem.
Se é tempo de começar novamente
mesmo que seja já com tempo pouco
pelo menos que chegue à tangente
para nos salvar deste tempo louco
que de loucura anda o mundo cheio
em correria no mesmo lugar
com o Homem sempre em grande anseio
de do mesmo sítio nunca mudar

Seja de chuva o tempo que faz
ou um bom sol ilumine a terra
aquilo de que ninguém é capaz
é de evitar que haja sempre uma guerra
todo o tempo da história do mundo
séculos e séculos que passaram
mostraram como sempre lá no fundo
houve quem morresse e os que mataram
sem compensar todo o tempo perdido
face ao tempo que não foi vivido.

Bem bastam os desperdícios dos tempos
se não a damos toda por perdida

FALAR COM O POVO



Por que será que os políticos portugueses, sobretudo os que se situam no chamado Poder, mas não apenas estes, não conseguem aprender a falar com o povo que todos nós somos, de forma explícita, curta e simples?
Puxando pela memória, ainda salta a imagem daquele que, apesar de tudo, conseguiu fazer uma tentativa para tentar levar a sua voz e as suas ideias junto dos cidadãos. Assim parecia, pelo menos. Nos écrans de televisão da época desencantou um título sugestivo e deu mostras de poder ser capaz de conseguir ser ouvido pela "plebe", a que então se vinha arrastando, ao longo de toda a existência da nossa nacionalidade, classificada ainda como sobrante das outras duas classes: a do clero e a da nobreza, por mais disfarçada que esta andasse.
As suas catalogadas "conversas em família" poderiam ter constituido uma mudança no estilo até então utilizado pelo anterior salazarismo, mas não foi muito além de umas palestras em linguagem entendível mas bastante longe do que seria crível para os portugueses ansiosos por se entregarem de boa fé às promessas dos políticos que surgiam. E depois desse curto interregno marcelista, também de má memória porque o que se pretendia fazer crer de boa-vontade e de quebra da mão dura anteriormente vigente não passou de dar mostras de uma realidade bem diferente, em que o chefe do Governo, então nomeado, se deixou dominar completamente pelos ultras do regime, os que não estavam dispostos a perder o conforto e as benesses salazarianas de que dispunham.
E foi una pena que assim se tivesse passado. O 25 de Abril surgiria de outra forma e sobretudo a guerra colonial não teria ocorrido com as mesmas circunstâncias, sendo até possível admitir que o entendimento com os movimentos independentistas pudesse fazer com que tudo se passasse de forma quase pacífica, mantendo-se na África a população portuguesa que se viu obrigada a abandonar tudo o que lá possuia e a provocar o descalabro económico e social que bem caro ficou a Portugal.
Mas é da linguagem utilizada pelos políticos de hoje, os que surgiram porque lhes foi proporcionada essa oportunidade de esbracejarem para conseguir bons lugares no panorama nacional existente logo depois do 25 de Abril e até agora, foi para me referir a tal forma de pretender chegar aos ouvidos dos cidadãos que dei início a estas linhas. E que darei continuidade, dentro deste espírito de utilizar um blogue para despejar o que aflora ao meu poder de crítica. Talvez a juventude, por muito pouco informada que esteja, como o afirmou Cavaco Silva em discurso recente, possa beneficiar por ler estas linhas e tomar conhecimento de factos a que não assistiu, porque os 34 anos passados sobre a data da Revolução não chegam para lhes dar uma ideia sentida do que ocorreu e mesmo que já tivessem nascido nessa altura, a sua pouca idade na época não lhes permitiu assimilar os acontecimentos tal como eles se passaram então.
(continua)


.

terça-feira, 29 de abril de 2008

TALENTO



Anda por aí
bem me dizem
à espera que o apanhem
se por mim passa, se passa,
não me toca
nem se deixa
agarrar por minhas mãos
é o talento,
o malvado,
esse vento desbragado
que nada comigo quer
e se um dia me couber
segurá-lo apertado
já não vai p’ra outro lado
noutras mãos não vai parar
aqui é o seu lugar

P’ra que me serve agarrá-lo
se eu não sou o tal artista
que bem proclama amá-lo
e mantê-lo bem à vista?
É como adorar, ouvir
uma bela sinfonia
mas depois, nem a fingir,
sem mais pequena mestria
não vou nem assobiá-la
porque o tal, como o vento,
não consigo segurá-la
não sou dono do talento

Anda por aí
eu bem sei
mas já tem dono, o malvado
a mim nem sequer me liga
escorraça-me
amordaça-me
aproveita qualquer vento
não fica aqui… o talento

RESPONSABILIAR OS RESPONSÁVEIS


Cada dia que passa e perante a acumulação de noticiário que invade as colunas dos jornais e os minutos de rádio e de televisão que temos, somos levados a lastimar, os que nasceram anos atrás bastantes para não poderem agora levar em consideração a eventualidade de ir viver fora de fronteiras, cada momento que somos forçados a resistir ao que nos rodeia vai aumentando a sensaboria e o desconsolo de nada podermos fazer para dar um puxão de orelhas naqueles que, dispondo de meios para actuar, se dedicam a encolher os ombros e a não serem capazes de mostrar obra feita, por forma a alterar bastantes estados de coisas que não podem continuar, indefinidamente, a ser iguais ao que eram, isto é, a arrastar-se na teia da indolência e do comodismo, porque o não fazer nada é mais sossegado do que o tomar decisões.
Vem isto a propósito do que me foi dado saber que se tinha passado anteontem ou nos dias muito recentes. Por exemplo, o assalto ocorrido a uma esquadra da Polícia, em Moscavide, em que uns tantos energúmenos agrediram um indivíduo que ali tinha acorrido para pedir refúgio, maltratando também o único guarda de serviço, esse acontecimento mostra bem o estado de insegurança em que se vive, e em que já não chegam os assaltos no chamado método do “carjaking”, posto que todos os outros, os roubos clássicos já se tornaram banais. E os vândalos que atacaram, pela sétima vez, uma escola sem segurança nos arredores de Faro. Como o jovem que agrediu polícias com pedras da calçada e ainda o empresário esfaqueado por “striper”, tudo isso faz parte da lista de acontecimentos, num só dia, em que cada situação merecia que algum responsável não afirmasse que não tinha conhecimento das circunstância que proporcionaram a execução de tais malfeitorias. Foi o que se ouviu afirmar ao representante do Governo chamado a pronunciar-se.
Que confusão se faz por cá quanto à interpretação da aplicação do sistema democrático, temendo que se confunda exigência de responsabilidades com perseguição ditatorial e mão dura com bandalheira quanto ao cumprimento das obrigações que cabem a cada um dos cidadãos, sejam eles os mandatários do povo para fazerem cumprir leis, sejam os que, no seu devido lugar, têm de viver aceitando as regras.

DESPERCEBIDO


Passar na vida sem nada acontecer
desde que saiu da mãe e até morrer
é algo de no túmulo se gravar
mas não é raridade, antes vulgar

Passar despercebido, ser boa gente
ser alguém entre muitos que ninguém sente
falar, falar às vezes e não ser ouvido
passar entre os homens e não ser sentido

Após morrer, chamarem boa pessoa
incapaz de ser alguém que atraiçoa
ninguém aponta um único defeito
mas também não se conhece qualquer feito

Eis o modelo de gente entre milhões
igual aos que não saíram dos padrões
mas a dúvida é ficar sem saber
se aquilo foi viver ou apodrecer

Quem não consegue viver em plenitude
anda por cá e não faz que algo mude

DESENCANTO ... POR ENQUANTO!




(Recordo que os textos que vão surgindo sob este título, são extraidos de um largo arquivo que
vou sempre aumentando, cada vez que abraço o volume que reflecte reflexões que faço quase
diariamente, sempre no café que frequento. Quem se interrogar sobre o motivo de certas
afirmações aqui surgidas, tem perante si a resposta. Por muito que se diferencie dos muitos
blogues que enriquecem o conjunto que se oferece para leitura).


Cada vez mais tenho a sensação de que, para os outros, fui sempre alguém do lado de lá. Não só para os mais afastados, mas também para os parentes. Quanto mais tempo vivo, mais me convenço desta realidade, E, nesta altura, não vale a pena disfarçar que não é assim. A culpa, se é que se pode querer descortinar culpado nesta situação, terá de ser atribuída apenas a mim. Porque não serei abertamente comunicativo. Porque não pertenço àquela maioria de pessoas que mostram dar grande importância ao que os outros dizem, sobretudo quando internamente não atribuem valor suficiente para isso. Será por não ter esse sentimento de interesse demonstrativo, que tanto agrada aos outros interlocutores. Será por isso. Mas, seja pelo que for, a realidade é essa: Provoco pouco sentimento de intimidade nos outros.
E a verdade é que nem sei se sinto falta dessa intimidade. Dessa cumplicidade. Mesmo no que diz respeito aos amigos mais chegados, nunca senti esse entrosamento, daqueles que dá para trocas de confidencialidades. O meu íntimo sempre foi resguardado e, talvez por isso, o dos outros nunca me foi revelado. Antes assim.
Aquilo a que se chama “abrir-se” com alguém, foi coisa que nunca fez parte dos meus costumes. Sobretudo, porque não creio que interesse ao próximo saber o que vai no meu íntimo. Poderão, por simples curiosidade, escutar o que lhes transmitisse de muito privado que existisse no meu âmago, mas mais do que isso não se passaria.
Estar do lado de lá é, pelo menos, estar nalgum sítio. Digo eu, para justificar o meu ponto de vista. Estar em todos os lugares, do lado de cá e do lado de lá, mostrar abertura e até entusiasmo quanto ao que se escuta numa conversação, é uma forma de estar na vida para além de ser cómodo. E não importa averiguar o grau de verdade que existe em tal posição. Se eu fosse assim, só tinha a ganhar no capítulo da apreciação dos outros a meu respeito.
Mas, quanto à apreciação de mim para mim próprio?

DESPEDIDA


Dizer adeus sempre é pena
ver partir os que gostamos
nunca se esquece tal cena
mesmo passados os anos

Por mais longe que eles vão
p’ro Além ou cá na Terra
os queridos partirão
a dor em nós se encerra

Por muito que seja dura
e grande a nossa dor
na hora de despedida

O tempo os males cura
diz o povo sabedor
que conhece bem a vida


(Escultura da cabeça de José Vacondeus, da autoria de artista italiano)

DESENCANTO... POR ENQUANTO!


Por muito que se tenha vivido e por bastante menos que nos falte para concluir o capítulo da vida, sempre se mantém a perspectiva do amanhã. Seja para dar seguimento a uma tarefa inconcluida, seja por haver esperança de que depois é mais oportuno terminá-la. O agora nem sempre apetece. O já é normalmente incómodo. Fazer de seguida cansa, muito embora possa resolver logo a questão pendente. Encarar na altura um problema pode não dar ocasião a meditar com tranquilidade. Sobre ele e quanto à melhor solução.
O logo se vê é a posição que tomam os que arrastam para depois o encarar com as situações. O “espera aí que depois resolvo”, pode ser uma defesa para as arrelias. Um pé no travão das coisas incómodas, daquelas que, quanto mais tarde melhor, mesmo que não as elimine dá espaço para mudar de rumo.
Essa frase do “há tempo”, faz tranquilizar até os que sabem que o assunto em mãos tem contornos de urgência. Com base na expressão de que o tempo cura tudo, o deixa andar acaba, por vezes, por dar razão a quem receia enfrentar situações complicadas. E a verdade é que, se não é a melhor solução o que o tempo acaba por proporcionar, pelo menos dá mais espaço para acalmar os espíritos daqueles que defrontam um incómodo.
Seja como for, o jogo do empurra, o espera aí um bocadinho, o quanto mais tarde melhor, tudo isso só pode ser considerado como uma manifestação de fraqueza. É deixar para depois o que pode ser feito logo. É manter uma preocupação pendente, é até ter medo do resultado do confronto com o problema.
Estou a escrever este texto e faço-me esquecido de que tenho marcado um encontro com um editor para apreciar os trabalhos que tenho arrecadados numa gaveta. Vou pensar melhor se devo correr esse incómodo. Se estou preparado para uma desilusão. Se não estarei a deitar achas para a fogueira das desilusões, se não poderei atacar a árvore das esperanças que constituem o veio da força para a manutenção das minhas produções.
Não digo nada. Quando arrumar os papéis que tenho sobre a mesa e sair do café logo vejo se os meus passos se encaminham para esse “juiz” da obra dos outros. Ainda não sei se não será mais um “logo veremos”.

domingo, 27 de abril de 2008

GERAÇÃO SOFRIDA


Que esperanças tinha que houvesse Abril
o que eu ansiava pelo fim do inferno
bem dentro guardava sonhos mil
e que apodrecesse o que era governo

Levou tempo, tempo demais, demais
vivi o antes até demasiado tarde
passei por excessivos vendavais
tropecei em muita gente cobarde

Até que chegou, não era sem tempo
veio com armas, não era o ideal
para tantos terá sido um contratempo
não estava no programa tamanho funeral

Foi a euforia, a loucura nas ruas
tirou-se o tampão da garrafa fechada
tal como quem tira por fim as gazuas
do portão de uma quinta trancada

Uns quantos tinham razão de estar felizes
terão sofrido muito até então
não tiveram conta por quantas crises
passaram, apenas por dizerem que não

Mas terá sido assim com a maioria,
toda essa gente que se mascarou
vestiu a farda do revolucionário, seria,
por dentro, aquilo que mostrou ?

Quantos apanhado a carruagem em giro,
não foram os que ganharam com a troca ?
Fizeram tal e qual como o vampiro
e puseram-se, matreiros, bem à coca

Como ganharam com isso os aproveitas
chorudo futuro festejaram
valeu a pena a troca, largas colheitas
tiraram do campo que outros lavraram

Aqueles que tinham idade para tanto
e passado que sangrava em ferida
quase que foram postos a um canto
tratava-se, afinal, da geração sofrida

Sofrer antes e sofrer depois é muito
não é justo, há que reconhecer
poderá não ter sido esse o intuito
mas é algo que dá para entristecer

Geração sofrida, tem que se dizer,
ela existe, obscura e triste,
a juventude nem pode agradecer
ninguém mostrou e disse em que consiste

E assim se vai escrevendo a História
com lacunas, esquecimentos, inverdades
a geração sofrida escapa à memória
quem não sabe não alimenta saudades

Geração sofrida,
O que não pode estar é arrependida

CAVACO SILVA E O DISCURSO




Ao ler atentamente o discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, pronunciado na sessão comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República, e em que foi divulgada a sua preocupação frente ao que considerou constituir a ignorância da juventude em relação ao 25 de Abril, perante tais declarações, mesmo que queira não posso ficar indiferente face à admiração que isso terá provocado, quer, parece, ao autor das palavras proferidas quer na repercussão que se verificou na transcrição posterior na comunicação social. E é por isso que não resisto a deixar aqui expressa a minha opinião sobre tal matéria.
Por vezes tenho a sensação de que caminho isolado neste País, que o que contemplo à minha volta não é visto pela maioria dos meus compatriotas, especialmente pelos que assumem responsabilidades políticas, pois tomo conhecimento de afirmações que têm forçosamente de causar espanto a quem não anda completamente distraído cá neste burgo, que é o nosso e que nos vai causando permanentemente mais dissabores do que alegrias.
Tenho pelo político Cavaco Silva o respeito e a consideração que me deve merecer um primeiro Magistrado da Nação. Se ele lá está é porque foi eleito pela maioria dos portugueses e, quanto a isso, com este ou com outro titular, não há que levantar quezílias. Por sinal, no desempenho das suas funções tem dado mostras de bom senso, especialmente não impondo a ideologia política que talvez mantenha em virtude da sua origem perante a actuação de outras forças que se situam em quadrantes diferentes. Faz o que compete a um Presidente que não exerce o cargo para aumentar ainda mais o mau relacionamento que se verifica entre todos os agrupamentos que, esses sim, existem para evidenciar discordância e para tentarem fazer a vida negra aos que se encontram na posição de governantes.
Mas, apontando apenas um facto concreto e dado tornar-se de uma situação muito recente, não escondo que fiquei deveras desiludido com a atitude de Cavaco no que se refere à sua passagem pela Madeira e não ter dado mostras, mesmo que devidamente cautelosas, do seu desagrado em relação à porta que lhe foi fechada para presidir a uma sessão solene do Parlamento ilhéu. E, em particular, depois das declarações, infelizes como sempre são, as do homem que preside totalitariamente ao comando do Governo local.
Não quero dizer com isto que seria oportuno fomentar ali uma “guerra”, aumentando o mau viver criado por Alberto João Jardim em relação ao Continente. Já bem basta o que basta, estou de acordo. Mas que seria uma forma de demonstrar que aquele Arquipélago ainda não é independente e que, por isso, tem de respeitar as regras que lhe são impostas pelo todo nacional e que, enquanto se mantiver o quadro político português, Lisboa é que é a capital de todo o Território pátrio, pelo que o Governo geral não se situa no Funchal nem noutro sítio ao livre arbítrio de um mandão qualquer, por muito respeitável que seja a sua actuação como comandante do poder local, ter Cavaco Silva, com amabilidade mas com firmeza, chamado a atenção para esse facto não teria caído mal ao País que ainda somos e que, como é bem sabido, anda precisado de uma lavagem de cérebro e de um estímulo patriótico para fazer frente aos desagrados diários que somos obrigados a enfrentar.
Ora, isto vem bem a propósito da tal ignorância que os nossos jovens demonstram quanto à História do 25 de Abril, tanto mais estranho como se esse fosse o único sector em que a juventude (quer-se dizer, da população entre os 10 e os 50 anos?) dá mostras de não ser propriamente grande conhecedor!...
Para não me alongar demasiado no comentário de fundo que bem me apetecia fazer, basta que me fique pelo essencial: é que os portugueses, de uma forma bem generalizada, são a matéria-prima que forma um povo que, desde séculos passados, desde a sua Fundação - podemos e devemos repisá-lo -, tem dado largas demonstrações de que não é propriamente grande sabedor, muito instruído, exemplarmente avançado nas descobertas e nos rasgos de conhecimentos profundos.
Tivemos, pela nossa História fora, figuras de que nos devemos recordar e que podem servir de exemplo à juventude, dando a ela conhecimento completo da sua existência e das suas obras, o que não é feito devidamente? Lá isso temos. Mas a regra geral não é essa. E o que temo perante os olhos, nos dias de hoje – deixando para trás o já lá vai -, é um panorama de que não será legítimo que nos satisfaça. É a minha opinião.
De quem é a culpa dos tristes espectáculos de interrogatórios de rua que, de vez em quando as televisões nos mostram, quando descem à praça pública? O Senhor Presidente da República não quer dar-se ao trabalho de reflectir sobre isso? Os vários partidos políticos, sempre tão prontos a apontar erros àquilo que os outros fazem e a não serem capazes de encontrar soluções, especialmente quando se situam nos lugares que lhes permitem mostrar o que valem, esses não dão a volta a este estado de coisas. Não é de agora, não é deste Governo, mas será de todos os que se instalaram desde o tal 25 de Abril (e, repito, o mal que vem de trás, já nem vale a pena referir), de todos esses, recordando que muitas das figuras que acumularam erros sobre erros aí estão, de novo, a querer voltar a instalar-se nos lugares de honra, de todos esses, repiso, que reside a culpa de, após 34 anos de Democracia, estarmos, quanto ao nível de conhecimentos dos portugueses, na mesma: IGNORANTES.
Continuemos, portanto, a achar muita graça às atitudes lastimáveis e às frases verdadeiramente deploráveis de políticos como o tal Jardim; prossigamos na escuta dos discursos presunçosos dos políticos, quer estejam no Poder quer não, com as referências que ninguém entende de percentagens disto e daquilo; e insistamos em presenciar o que sucede, nesta altura, com a guerrilha que se instalou no seio de PPD, apenas e só para uns tantos usufruírem do cadeirão que ficou vazio pela saída de alguém que não se sentiu apoiado no cargo que exerceu de passagem. Vamos andando no meio de todo este lodaçal, mas não nos queixemos quer da juventude ignorante quer da população de idade mais avançada só por não terem paciência para encaixar as habilidades de linguagem daqueles que, está à vista, o que querem é apenas o seu esplendoroso bem estar.
Aqui deixo o que penso. E não o mando dizer por ninguém!...

sábado, 26 de abril de 2008

O CÍRIO


As lágrimas que correm neste mundo
A fome, a doença, os desgostos
Obrigam a que lá muito no fundo
Os homens escondam nas mãos os rostos

Sofrer é caos que ataca os mortais
Ricos e pobres, de todas as cores
É alguém que nos envia sinais
De que p’ra viver há que sofrer dores

É isso, a vida fácil não é
P’ra uns melhor, p’ra outros um martírio
Mas é quando se chega ao rodapé

Que já na fase final do delírio
Se toma consciência do que é
Quando então p’ra nada serve um círio

sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 DE ABRIL




Hoje, 34 anos passados sobre a data em que os portugueses, sobretudo os que têm idade para estabelecer e interpretar conscientemente a diferença entre aquilo que era antes a nossa existência e o que ocorre hoje, precisamente na altura em que sentimos todos nós - ou a grande maioria de nós, porque os que usufruem das vantagens e dos benefícios que lhes são concedidos pelos cargos importantes que ocupam, esses andarão a rir-se para dentro e a fazer afirmações de extasiante optimismo sobre o futuro que os aguarda - no momento, repito, em que sentimos quase todos nós, a preocupação generalizada, é nesta data que se atravessa que é legítimo e seguramente necessário que paremos para reflectir.
Cada um de nós terá os seus motivos para se situar nos dois extremos: ou em êxtase perante a situação económica, financeira, social que se instalou neste País que nunca usufruiu, sejamos sinceros, ao longo de toda a sua longa História, da felicidade suprema, ou, precisamente na posição oposta, encarando já os dias que correm como assustadoramente preocupantes no que diz respeito ao futuro, não vislumbrando uma saída que leve os portugueses a não ter necessida de de recorrer a mercados de trabalho no estrangeiro, e em que a nossa vizinha Espanha já está a ocupar um lugar preferencial, interessando a juventude para atravessar a fronteira a caminho do vizinho que, ainda há pouco tempo, era tomado como pouco recomendável.
Existem ainda os outros nacionais que, em face da situação que se vive nesta época pós-25 de Abril, actuam como sempre é costume entre os nossos compatriotas: estão indiferentes, não sabem o que hão-de pensar, não se atrevem a demonstrar uma opinião, têm medo de ser considerados como defensores da ditadura salazarista que aqui se instalou durante excessivo tempo, mas também, dadas as suas actividades que se situam em áreas sem grande ligação à actividade política e não tiveram antes que tropeçar num sistema que usava a opressão como força para decidir sobre a existência de todo um Povo. tal como hoje apenas sentem os efeitos da governação democraticamente instalada pela diminuição do poder de compra e por aquilo que a comunicação social, agora com total (ou relativa) liberdade para exercer a crítica, aparece a denunciar, muitas veses também por influência de posições partidárias fortes que exercem o seu poder nas administrações desses orgãos.
É que Democraria plena, séria, isenta, completamente livre de pressões de grupos ou, pior ainda, do poder financeiro, essa Democracia não foi ainda inventada... na prática. Nem cá nem, noutros locais ainda que um exercício mais honesto dessa prática.
E, no que respeita a partidos políticos que conseguem, de tempos a tempos, situar-se no comando do Governo, também esses são naturalmente formados por homens e, que me desculpem os que não são da minha opinião, nos seres humanos eu confio pouco... mas não tenho mais remédio senão deixar nas suas mãos as decisões que somos obrigados a aceitar.
É, afinal, hoje melhor ou pior do que antes do 25 de Abril que se está agora a comemorar outra vez? Bem, pior não se pode dizer que seja. Já nos basta podermos afirmar o que pensamos, termos o direito à indignação em voz alta, aguardarmos pacientemente pelo momento em que o nossos voto é depositado na urna e confiarmos que não nos enganámos de novo, como nas outras vezes, chega-nos isso para podermos gritar que um regresso ao passado horroroso que vivemos, nós os da nossa idade e que podemos estabelecer a comparação, esse passado por favor NÃO!!...
Dito isto e perante a realidade que nos tem sido mostrada ao longo destes 34 anos, não nos resta outra solução que não seja aceitar a menos má das soluções políticas que existem por esse mundo fora. E quem, como eu, fez o que pôde para pôr entraves à Ditadura Salazarista e Marcelista (esta foi uma pena que o homem não tivesse sido capaz de aproveitar a oportunidade que teve para, pelo menos, solucionar em paz o problema das Colónias) e que, depois da Revolução dos Cravos, no exercício da profissão de jornalista e de Director de Jornal, fez os impossíveis para interferir no respeito pelas regras democráticas, mesmo tendo-se sujeitado a 16 processos judiciais por alegados crimes da chamada Liberdade de Imprensa, de que foi completamente absolvido em todos os casos, os que terão no seu activo algo parecido com aquilo que me calhou ser actor naturalmente que estarão hoje mais satisfeitos do que com o que teria acontecido se não tivesse ocorrido a rebelião militar que, com os mais discutidos motivos da suua origem, conseguiu ser levada a cabo.
Mesmo passando por cima das situações que me foram oferecidas de ter sido e continuar a ser testemunha de centenas, senão milhares de situações em que os intérpretes das cenas que a vida real nos mostra serem representadas pelos novos "revolucionários", tendo sido eles antigos partidários e intervenientes activos do salazarismo que, passado o período imediato da Revolução, surgiram como entusiastas participantes do punho fechado, do braço no ar, mesmo não levando em grande conta tal gente, com todo este período passado sobre o 25 não poemos ficar agarrados a revoltas contra o descaramento que surgiu e ainda surge a cada passo da nossa vida.
Hoje, atingida a idade da complacência, do esquecimento, até do perdão, o que interessa é ir comemorando todos os anos a data que marcou um acontecimento em que tivémos a oportunidade de participar. Deixemos mentir, enganar, iludir - e até iludirem-se - todos aqueles que gozaram do antes e que usufruiram do depois. São os espertos da silva, como há por aí tantos e houve, ao longo da nossa História milhões que foram nascendo e vivendo neste País.
Tais chicos espertos são aqueles com quem nos cruzamos dirariamente em muitas das nossas actividades. São também aqueles que surgem de repente como figuras públicas de relevo.
Eu, por mim, já estou conformado. Mas não deixo de ir resmungando comigo próprio e de me arrepelar cada vez que os topo a tomar acento em lugares que lhes são confiados... como "prémio" do seu descaramento.


quinta-feira, 24 de abril de 2008

LOGO MAIS!...


Mas que mal anda a língua portuguesa
tão mal tratada pela juventude
perdeu-se por aí tanta pureza
do que é belo e não quer que se mude

Palavras novas, até se aceita
a vida não deixa nada imutável
mas mau sentido é que se rejeita
matar a língua não é tolerável

Quando se ouvem novos locutores
espalhar pelo ar mau português
aí a revolta atinge os anais

E não se podem conter os furores
quando dizem tamanha barbarez
como seja essa do “logo mais”

LUSOFONIA







Ao longo da minha vida já fui obrigado a tropeçar em duas mudanças na forma de escrever a minha língua. Depois do Ph de pharmácia, por exemplo, que já não me apanhou em pleno exercício gráfico, que me lembre, assim sem estar a recorrer agora a análises profundas, foram introduzidas alterações nisto de escrever, o que não considro dramático, pois reconheço que as línguas vivas estão sempre em evolução e acompanham não só as tendências populares como se adaptam aos modernismos técnicos e outros, nem que seja pela adaptação de nomes dados por idiomas estrangeiros, sobretudo do inglês, o que é indispensável para não se ficar sujeito a inventos de linguagem que não têm nada de lusitanismo.
Este novo Acordo, mesmo dando-se-lhe outro nome como já surgiu a proposta, tem, quanto a mim, uma vantagem: a de procurar que todos os países que, melhor ou pior, têm o português como sua língua oficial, se vão comprometendo com o ensino às respectivas juventudes de um idioma que deve agrupar-se nos liguarejares locais e, se possível, criar raízes que, infelizmente, por ausência de vocação da nossa parte, enquanto, ao longo de muitas décadas, assentámos arraiais no que foram primeiros as Colónias e passaram depois, por conveniência política, a chamar-se de Províncias Ultramarinas.
A verdade - se é que há verdade nestas coisas - é que os portugueses nunca tiveram grande habilidade para transferir das suas raizes os princípios básicos do portuguesismo e deixaram ao relacionamento natural das populações, as idas e as locais, o desaguar de costumes e de culturas. Refiro-me à falta de ensino escolar que seria essencial transmitir pelos mais sabedores, os que se transferiram da Pátria portuguesa, e se instalaram, de armas e bagagens, em terras distantes. E isso, na maior parte dos casos, foi para ficarem lá.
Sempre fomos maus vendedores das nossas coisas. Ao contrário, por exemplo, dos ingleses, que, não tendo o espírito de fraternidade com as populações invadidas. não deixaram nunca de criar as condições para que a sua língua se instalasse e fossem criadas as condições para que, por exemplo, a literatura britânica ganhasse mercados que antes não existiam.
Que foi que sucedeu com as chamadas descobertas dos nossos antepassados que, desde séculos atrás, se tornaram donos e senhores de tais novas zonas terrestres e de populações indígenas? E, em particular, em relação ao Brasil, País hoje que poderia e deveria representar a vaidade da expansão da língua portuguesa. Com tamanha dimensão territorial e tão larga difusão populacional, como ganharia hoje a lusitaniedade linguística se, de um lado e do outro do Atlântico, não houvesse as enormes diferenças que criam os afastamentos que, por muito que queiramos fechar os olhos, existem e necessitam agora de sujeições da nossa parte para se produzir a união possível.
A nossa incapacidade de "vendermos" no exterior aquilo que podria constituir um benefício para a nossa criatividade, pode ser apontado, nos nossos dias, com um outro caso que, não tendo a ver com situações linguísticas, é bem o exemplo de como não temos vocação para colocar fora de portas aquuilo que temos para oferecer. Refiro-me, malgrado o exemplo tão pouco literário, à nossa desabilidade em colocar os nossos produtos no País vizinho, enquanto nos queixamos amargamente de estarem os espanhõis a "invadir Portugal"!... E alguém nos proibe de também procurarmos "invadir a Espanha"?
Mas voltando ao problema da língua portuguesa, a ideia já surgida de ser criado um organismo que reuna todos os interesses e evite a dispersão de esforços, por mais bem intencionada que possa ser não vai resolver o problema. Somos especialistas em criar instituições, comissões, grupos de trabalho.. e o resultado tem sido sempre zero ou melhor apenas o de conseguir adiar soluções, ao mesmo tempo que se arranja encaixes para uns tantos que anseriam por mais umas verbas ao final do mês.
Sejamos realistas. Este mal português de não conseguirmos ser práticos, de optar sempre por caminhos tortuosos, difíceis, irrentáveis e de chorarmos no fim pelo insucesso do túnel que nunca mais acaba, do organismo que, afinal, só deu prejuizo, da medida que, se tivesse sido bem vista, não teria sido tomada. Esta "doença" lusitana que muitos têm receio de apontar, para não lhes chamarem pessimistas sem remédio, este mal, que não é de hoje, que não é culpa de cada Governo que chega ao poder, que não é exclusivo de um Partido político, seja ele qual for, agora que já temos vários e nos vimos livres do antigo tido como de "união nacional", tal sarna que está infiltrada em variadíssimos sectores da vida portuguesa não passará numa ou em duas gerações. Serão necessárias várias e, provavelmente, só acabara´quando outras civilizações conseguirem transmitir-nos alguma forma diferente de encarar a vida. Será que isso, algum dia sucederá?
Eu, como homem ligado desde sempre à escrita e à nossa língua, suportando o mal de conhecer muitas outras culturas e de ter assistido a soluções de problemas por esse mundo fora, já ultrapassei o período do optimismo (ou do otimismo, de acordo com a modernidade). Não creio que venha a assistir, em vida, à actividade editorial no Brasil. em Portugal e nos restantes territórios em África e em Timor - em Macau, que eu também conheci, a língua portuguesa nunca chegou a ser a praticada pela população local -, em que a transmissão de ideias e de conhecimentos, a difusão literária seja feita com a maior naturalidade e que, portanto, os autores dosvários locais espalhados sintam que a sua comunicação não se limita à zona terrestre que lhes serviu de berço.
E é este o desabafo que deixo neste blogue. Haja quem concorde e quem discorde. A exposição de ideias existe para isso. Não é necessário quetodos pensem de igual forma.
Ah! Já agora acrecsento: este texto foi escrito directamente no computador. Não o redigi antes nem o revi depois. Para não me arrepender!...